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EUA bloqueiam estreiro de Ormuz e Trump ameaça destruir 'navios de ataque'
- Author, Joe Inwood, Azadeh Moshiri e Rachel Clun
- Role, BBC News
- Tempo de leitura: 6 min
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, escreveu no Truth Social nas primeiras horas desta segunda-feira (13/4), que os EUA iniciariam o "bloqueio de navios que entram ou saem de portos iranianos" às 10h ET (11h em Brasília).
Os "navios de ataque" iranianos serão "eliminados" caso se aproximem do bloqueio naval dos EUA, afirmou Trump, na rede social. "A Marinha do Irã jaz no fundo do mar, completamente destruída - 158 navios. O que não atingimos foi o pequeno número de seus chamados 'navios de ataque rápido', porque não os consideramos uma grande ameaça", escreveu Trump.
O presidente americano seguiu, dizendo que se algum desses navios se aproximar do bloqueio, "será imediatamente ELIMINADO, usando o mesmo sistema de destruição que usamos contra os traficantes de drogas em barcos no mar". Ele fez menção aos ataques letais que vem realizando contra supostos barcos de narcotráfico no Mar do Caribe e no Oceano Pacífico desde setembro.
O bloqueio abrangerá "toda a costa iraniana", de acordo com uma nota enviada pelo Comando Central dos EUA (Centcom) aos marinheiros e divulgada pela agência de notícias Reuters. Ele afetará navios de qualquer bandeira no Golfo de Omã e no Mar Arábico, a leste do Estreito de Ormuz.
O Centcom alertou que embarcações "que entrarem ou saírem da área bloqueada sem autorização estarão sujeitas a interceptação, desvio e captura". Na nota enviada, o Comando Central afirmou também que remessas humanitárias, como alimentos e suprimentos médicos, serão permitidas, sujeitas a inspeção.
A Guarda Revolucionária Islâmica afirmou que embarcações militares que se aproximarem do estreito serão "tratadas com severidade".
Os mercados reagiram com nervosismo aos novos acontecimentos do conflito no Oriente Médio. O preço do petróleo voltou a subir com força nesta segunda, com o barril do tipo Brent ultrapassando os US$ 100 — alta de mais de 7% — refletindo temores sobre o impacto do bloqueio no fornecimento global de energia.
No fim de semana, as tentativas de negociações de paz entre Irã e EUA fracassaram, mas o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, afirmou que os esforços para resolver o conflito continuam.
"O cessar-fogo ainda está em vigor e, neste momento, todos os esforços estão sendo feitos para resolver as questões pendentes", disse Sharif, segundo tradução da agência de notícias AFP.
Desde o início da guerra, o Irã faz um bloqueio seletivo de uma das vias marítimas mais importantes do mundo; só permite a passagem de navios de países que Teerã considera amistosos ou por embarcações que se acredita terem pago um pedágio, estimado em cerca de US$ 2 milhões (R$ 10 milhões).
"Ninguém que pague um pedágio ilegal terá passagem segura no alto-mar", disse Trump, acrescentando que "qualquer iraniano que atirar contra nós, ou contra embarcações pacíficas, será explodido até o inferno".
Mais tarde, o Comando Central dos Estados Unidos (Centcom) afirmou que o bloqueio será apenas para navios que entram e saem de portos iranianos.
O Centcom afirmou que não bloqueará embarcações no estreito de Hormuz se elas estiverem a caminho "de e para portos não iranianos".
Pelo menos 60 embarcações passaram pelo estreito — uma média de 10 por dia — desde que o cessar-fogo foi anunciado na noite da última terça-feira (7/4).
Trata-se de um aumento significativo em relação ao período anterior ao cessar-fogo, mas ainda é apenas uma fração do volume pré-guerra, quando cerca de 138 navios atravessavam o estreito diariamente, segundo o Joint Maritime Information Centre.
Após as declarações de Trump, as Forças Navais do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC) afirmaram que quaisquer embarcações militares que se aproximem do estreito de Ormuz serão consideradas como estando em violação do cessar-fogo e serão "tratadas severamente".
Em um comunicado publicado por veículos iranianos, as Forças Navais acrescentam que, "ao contrário das falsas alegações de alguns funcionários inimigos", o estreito de Ormuz está "aberto para a passagem inocente [trânsito livre] de embarcações não militares, sob controle e gestão inteligentes, em conformidade com regulamentos específicos" do Irã.
Ambição nuclear do Irã minou acordo, diz Trump
Trump também comentou as negociações conduzidas por seu vice, J.D. Vance, em Islamabad, capital do Paquistão.
O presidente disse nas redes sociais que "a reunião foi boa, a maioria dos pontos foi acordada, mas o único ponto que realmente importava, nuclear, não foi".
Segundo Trump, após "quase 20 horas" de negociações, "há apenas uma coisa que importa — o Irã não está disposto a abrir mão de suas ambições nucleares".
Donald Trump também afirmou que o Irã retornará à mesa de negociações e "nos dará tudo o que queremos".
Em uma entrevista ao Sunday Morning Futures, programa da Fox News, Trump declarou que os negociadores dos EUA conseguiram "praticamente todos os pontos de que precisávamos", exceto o nuclear.
Ele afirmou ainda que o Irã não "deixou a mesa de negociações". "Prevejo que eles voltem e nos deem tudo o que queremos", declarou.
EUA não conquistaram confiança, diz Irã
O presidente do Parlamento do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, que liderou a delegação de Teerã nas conversas no Paquistão, afirmou no domingo (12/4) que agora é o momento de os EUA "decidirem se podem conquistar nossa confiança ou não".
Em uma publicação no X, Ghalibaf diz que enfatizou antes das negociações que o Irã tinha "boa-fé e vontade", mas, devido às experiências de duas guerras anteriores, não tinha "nenhuma confiança no lado oposto".
Ele afirma que a delegação iraniana "apresentou iniciativas voltadas para o futuro, mas o lado oposto acabou não conseguindo conquistar a confiança da delegação iraniana nesta rodada de negociações".
Ele prossegue: "Não cessaremos por um momento sequer nossos esforços para consolidar as conquistas dos quarenta dias da defesa nacional do Irã".
Ele acrescentou que as negociações foram "intensas" e agradeceu ao Paquistão por facilitá-las.
Respondendo a comentários do presidente dos EUA, Donald Trump, Ghalibaf disse em um comunicado no último domingo que "essas ameaças não têm efeito sobre os iranianos" e que o Irã não irá "se render sob ameaças".
O que é o Estreito de Ormuz
No centro desta guerra, o estreito de Ormuz é uma das rotas de energia mais importantes do mundo, que conecta os produtores do Oriente Médio aos principais mercados da Ásia-Pacifico, da Europa e América do Norte.
Desde que o Irã anunciou seu fechamento, no dia 2 de março, logo após os primeiros ataques de Israel e dos Estados Unidos, a rota se tornou um dos epicentros da atual guerra no Oriente Médio.
Até então, cerca de 20% de todo o petróleo consumido no planeta passava por ali. Esse petróleo não vem apenas do Irã, mas também de países do Golfo, como Iraque, Kuwait, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.
Quase 90% desse volume segue para a Ásia. A China, sozinha, recebe cerca de 38%, seguida por Índia, Coreia do Sul e Japão.
Além disso, o estreito é uma rota essencial para o gás natural liquefeito, usado como combustível na indústria, no transporte e no aquecimento de residências em vários países.
Por ali também passam fertilizantes utilizados na agricultura em todo o mundo, inclusive no Brasil.
No sentido contrário, é pelo estreito de Ormuz que entram alimentos, medicamentos e outros produtos essenciais para o Oriente Médio.
Antes do conflito, cerca de 130 embarcações passavam pelo estreito de Ormuz todos os dias. Hoje, esse fluxo caiu para cinco ou seis navios — uma redução de cerca de 95%.
Qualquer instabilidade no estreito de Ormuz tem impacto quase imediato no restante do mundo, afetando preços, cadeias de abastecimento e economias inteiras.