Trump e o papa: a guerra de farpas entre os dois americanos mais poderosos do mundo

    • Author, Edison Veiga
    • Role, De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
  • Tempo de leitura: 10 min

"Leão é fraco."

"Não tenho medo do governo Trump."

De um lado, o presidente dos Estados Unidos. De outro, o papa.

Eles são os norte-americanos mais poderosos do mundo. Ambos, chefes de Estado. E subiram o tom as críticas mútuas.

Alçado pela segunda vez ao poder, Donald John Trump, de 79 anos, preside os Estados Unidos — potência econômica com mais de 340 milhões de habitantes — desde janeiro de 2025.

Em maio do mesmo ano, o conclave formado pela alta cúpula dos religiosos do catolicismo elegeu Robert Francis Prevost como comandante da Igreja Católica. Sob o nome de Leão 14, esse norte-americano de 70 anos é chefe do pequeno Estado do Vaticano —micro-enclave romano de apenas 800 habitantes. Mas, como lidera a poderosa religião que conta com 1,4 bilhão de seguidores no planeta, é uma autoridade moral cujas opiniões têm peso ideológico e social na geopolítica contemporânea.

Com os mais recentes conflitos bélicos como pano de fundo, as discordâncias entre esses dois líderes vêm escalando para uma verdadeira guerra discursiva, com trocas de farpas que escancaram a oposição de seus pensamentos e interesses.

Para o vaticanista Andrea Gagliarducci, do grupo ACI-EWTN de notícias católicas globais, o que se vê não é uma mera guerra ideológica. "O papa faz o papel de papa. E é óbvio que há questões nas quais não pode haver alinhamento", comenta ele, à BBC News Brasil. "Não é apenas o tema da paz, que é central para a Igreja, mas também as consequências civis, a gestão do poder que frequentemente deixa de lado os excluídos, e a política migratória."

Professor na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, e diretor no Lay Centre, também em Roma, o vaticanista Filipe Domingues diz à BBC News Brasil que embora visões diferentes entre governos e a Igreja não sejam incomuns, há dois pontos inéditos na alta contenda entre Leão e Trump.

"Trump atacou diretamente o papa, foi muito direto. Um post inteiro falando mal do papa, esculachando alguém que é também chefe de Estado e ainda líder de uma das principais religiões do mundo, uma figura de autoridade moral, talvez a maior delas", pontua Domingues.

O outro ponto é o fato de o papa, coincidentemente, ser cidadão norte-americano. Isso daria a ele um lugar de fala privilegiado em um debate onde o alvo da crítica é justamente a maneira como o governo norte-americano se movimenta na geopolítica.

"Antes, Francisco era acusado de não entender a Igreja dos Estados Unidos por ser latino-americano. Agora temos um papa americano. Ninguém mais vai poder dizer que ele está falando [sobre os Estados Unidos] sem conhecimento de causa", compara Domingues. "Essa é a grande diferença."

Para o vaticanista, pode-se dizer até mesmo que haja um aspecto religioso, uma questão para quem crê. "Justamente em um momento em que os Estados Unidos se tornam o principal inimigo de si mesmo, ou seja, alguém de dentro dos Estados Unidos, o próprio presidente tentando corromper as instituições para se manter no poder, justamente nesse momento a Igreja tem um papa norte-americano, alguém que de fora dos Estados Unidos consegue ser uma voz com conhecimento de causa sobre o contexto de lá", comenta.

Uma escalada de atritos

No dia 31 de março, em conversa com jornalistas quando saía do Palácio Apostólico de Castel Gandolfo, nos arredores de Roma, o posicionamento de Leão era coerente com o discurso da Igreja: pedia a paz, cobrava a defesa da dignidade humana e reforçava a necessidade de que as partes buscassem se sentar à mesa de negociação.

No entanto, vaticanistas e observadores notaram uma mudança de padrão. Em vez da crítica indireta, falando sobre o problema sem mencionar o nome do chefe de Estado envolvido, o sumo pontífice citou claramente Trump.

"Soube que o presidente Trump declarou recentemente que gostaria de pôr fim à guerra. Espero que ele esteja buscando uma saída. Espero que ele esteja buscando uma maneira de diminuir a violência e os bombardeios, o que seria uma contribuição significativa para eliminar o ódio que está sendo gerado e que aumenta constantemente no Oriente Médio e em outros lugares", declarou o papa. "Continuamente fazemos apelos pela paz, mas, infelizmente, muitas pessoas querem promover o ódio, a violência, a guerra."

Os recorrentes apelos pela paz nas celebrações do Vaticano se tornaram mais evidentes. Na terça-feira passada, em entrevista a jornalistas, mais uma vez ele externou a preocupação com a conduta externa norte-americana.

Horas após Trump ter ameaçado destruir toda a civilização iraniana "em uma noite", Leão preferiu mobilizar seus conterrâneos. Disse que além de rezar era preciso "procurar formas de se comunicar, talvez com os congressistas, com as autoridades, para dizer que não queremos a guerra, queremos a paz".

"Trump não é um presidente católico, e a sua não é uma administração católica, apesar da presença de católicos no governo, e é evidente que o papa, sendo católico, não pode silenciar diante dos problemas. Considero isso normal, e nem sequer surpreendente", comenta Gagliarducci.

O vaticanista enfatiza que as prioridades do sumo pontífice são a "defesa da vida e da dignidade humana" e que Leão não está entrando "no tabuleiro geopolítico" e sim, buscando "orientar um debate".

No último sábado, um gesto de Leão demonstrou que a grave situação global exige mais do que os espaços nos protocolos ordinários. O religioso convocou uma vigília de oração para aquela noite, apelando para a paz e criticando aqueles que "pretendem recrutar Deus" para o lado da guerra, exercendo o que ele qualificou de "ilusão da onipotência".

"Basta de idolatria de si mesmo e do dinheiro, basta de exibição de força, basta de guerra", clamou o líder católico, que ressaltou que é preciso "enfrentar juntos, como humanidade e com humanidade, este momento dramático da história".

Para Domínguez, o papa foi claro ao falar sobre o egoísmo dos poderosos, criticando o uso do poder e das armas, colocando a vida dos doutros em risco para se autopromover.

"A carapuça serviu, e muito, para Trump. Agora não é mais o papa que está respondendo ao Trump, mas é o Trump que está respondendo ao papa", completa o vaticanista.

Na tradicional oração realizada pelo papa ao meio-dia de domingo no Vaticano, Leão seguiu com o tema em pauta. Pediu pelo cessar-fogo no Oriente Médio e afirmou se sentir próximo do "amado povo libanês". Também argumentou que há uma "obrigação moral de defender os civis dos efeitos atrozes da guerra".

A resposta de Trump

A Casa Branca não deixou o mais ilustre expatriado norte-americano sem resposta. Em sua própria rede social, e abusando de palavras em caixa-alta, Trump definiu seu conterrâneo como alguém "fraco no combate ao crime e péssimo em política externa".

"Ele fala sobre o medo do governo Trump, mas não menciona o medo que a Igreja Católica e todas as outras organizações cristãs tiveram durante a covid", escreveu o presidente americano.

Trump ainda disse que gosta "muito mais" do irmão do papa, que seria "totalmente MAGA". Trata-se do acrônimo da expressão, em inglês, "tornar a América grande novamente", plataforma político-eleitoral trumpista. Quando Robert Prevost se tornou papa, vieram à tona posts de seu irmão, Louis, apoiando pautas de direita no Facebook. "Ele entende. Leão, não", escreveu o presidente no post de domingo.

"Eu não quero um papa que ache que tudo bem o Irã ter uma arma nuclear. Não quero um papa que ache terrível que os Estados Unidos tenham atacado a Venezuela, um país que estava enviando enormes quantidades de drogas para os Estados Unidos", acrescentou Trump.

Não há nenhum registro de nenhuma declaração pública ou documento emitido pelo Vaticano ou pelo papa Leão 14 defendendo o direito de o Irã ter arsenal nuclear.

"E não quero um papa que critique o presidente dos Estados Unidos por eu estar fazendo exatamente aquilo para o qual fui eleito, com uma vitória arrasadora", disse ainda Trump. "Leão deveria ser grato pois, como todos sabem, ele foi uma surpresa impressionante. Ele não estava em nenhuma lista de papáveis e só foi colocado lá pela Igreja porque era americano. E acharam que essa seria a melhor forma de lidar com o presidente Donald J. Trump."

"Se eu não estivesse na Casa Branca, Leão não estaria no Vaticano", argumentou o presidente. Prevost é norte-americano de Chicago e foi criado em Dolton, Illinois. Sua carreira religiosa, entretanto, se tornou mais relevante pelas duas longas temporadas em que ele viveu no Peru — primeiramente entre as décadas de 1980 e 1990 e, por fim, entre 2015 e 2021. Quando foi eleito papa ele ocupava um dos cargos mais importantes na hierarquia do Vaticano: o cardeal era prefeito do Dicastério para os Bispos, nomeado para a função por seu predecessor, papa Francisco (1936-2025).

"Infelizmente, Leão é fraco no combate ao crime e fraco em relação a armas nucleares — e isso não me agrada. Também não me agrada o fato de ele se reunir com simpatizantes de Obama, como David Axelrod, um perdedor da esquerda, que é um daqueles que queriam que fiéis e membros do clero fossem presos", continuou Trump.

Membro do Partido Democrata, de oposição a Trump, o consultor político Axelrod foi conselheiro da Casa Branca durante os dois primeiros anos do primeiro mandato de Barack Hussein Obama na presidência — entre 2009 e 2011. Durante a pandemia, como comentarista político de uma emissora de TV, ele defendeu maior restrição a atividades religiosas para conter aglomerações. Axelrod teve uma audiência com o pontífice neste mês de abril.

"Leão deveria se recompor como papa, usar o bom senso, parar de agradar a esquerda radical e focar em ser um grande papa, não um político", avaliou Trump. "Isso está prejudicando muito ele e, mais importante, está prejudicando a Igreja Católica."

Trump ainda publicou uma imagem gerada por inteligência artificial em que ele aparece vestido como uma túnica em estilo típico da iconografia cristã, como se fosse Jesus curando um doente. Na época do conclave, o presidente norte-americano também havia postado uma imagem em que ele era representado com as vestes papais.

No avião, papa mantém o tom

Na manhã desta segunda, no voo que o levava para a Argélia — início de uma viagem de 10 dias por países africanos — Leão 14 respondeu a jornalistas sobre os desentendimentos com o presidente de seu país natal. "Não tenho medo do governo Trump", afirmou ele.

"Colocar minha mensagem no mesmo patamar do que o presidente tentou fazer, creio eu, é não compreender qual é a mensagem do Evangelho. Lamento ouvir isso, mas continuarei com o que acredito ser a missão da Igreja no mundo hoje", declarou. "Não hesitarei em anunciar a mensagem do Evangelho e em convidar todas as pessoas a procurarem maneiras de construir pontes de paz e reconciliação, e a buscarem formas de evitar a guerra sempre que possível."

"Basicamente, digo que a mensagem da Igreja, a minha mensagem, é a mensagem do Evangelho: bem-aventurados os pacificadores. Não encaro o meu papel como sendo político, nem como o de um político. Não quero entrar num debate com ele", disse Leão.

Uma voz que ruge

Este episódio é o primeiro grande momento político do pontificado de Leão, que tem sido visto como discreto e muito cuidadoso em suas declarações — principalmente quando comparado ao seu predecessor. "Esse tipo de evento que ele fez agora [a vigília de sábado], ele precisa criar e criou. São situações para que ele seja ouvido", diz Domingues. "No caso, uma situação certa, em um ambiente seguro. Foi uma decisão sábia e ele falou de um jeito muito forte, sem citar nomes nem países, mas passando claramente a mensagem."

"Ele conquistou espaço como voz importante no contexto geopolítico internacional. Se isso vai gerar mudanças [no cenário] ou se ele vai conseguir continuar manter [essa evidência], não sabemos ainda, pois Leão é muito reservado", afirma Domingues. "Acho que ele não quer ser um comentarista do governo Trump, mas vai seguir falando dos pontos que são importantes para a Igreja e para a sociedade de hoje."

Para o vaticanista Gagliarducci, tanto a oração da vigília no sábado quanto o pedido para que os americanos escrevessem aos congressistas pedindo paz são "formas de chamar os católicos à responsabilidade".

Por outro lado, ele entende que Trump vem perdendo "muito eleitorado católico" e esses eleitores "não voltarão". "Não irão para o Partido Democrata, mas também não regressarão a Trump", acredita ele.

Para o vaticanista, a maneira enfática como Leão vem se posicionando e a presença de cardeais americanos debatendo o tema nas TVs dos Estados Unidos obrigaram com que o presidente se posicionasse — e seu post poderia ser classificado como eleitoreiro. "Essencialmente, ele diz que está cumprindo as promessas de campanha e se o papa ou os católicos não compreendem, azar o deles, porque não estariam defendendo os interesses americanos", analisa Gagliarducci. "Ele diz aos católicos americanos que podem até ouvir o papa, mas que se não votarem nele, estão errando. Este é o recado, penso eu."

"Naturalmente, Leão 14 tem uma atenção particular aos Estados Unidos: conhece o país, é cidadão norte-americano", diz Gagliarducci. "Mas definir as suas respostas ou declarações com base nisso seria redutor. Ele é o Papa: fala aos católicos e a todas as pessoas de boa vontade."