You’re viewing a text-only version of this website that uses less data. View the main version of the website including all images and videos.
O geógrafo brasileiro que viveu 3 anos em Teerã e explorou o país: 'O estreito de Ormuz é o fim do mundo do Irã'
- Author, Luiz Antônio Araujo
- Role, De Porto Alegre para a BBC News Brasil
- Tempo de leitura: 6 min
O geógrafo Jorge Mortean trabalhava na área de responsabilidade socioambiental do banco HSBC em São Paulo, em maio de 2009, quando recebeu uma ligação da embaixada do Irã, em Brasília.
"Você viu o e-mail que lhe enviei?", perguntou-lhe a secretária da representação.
"Não, estou trabalhando e sem acesso ao meu e-mail particular. Por quê?"
"No e-mail há três opções de data para sua passagem para Teerã. Escolha a que for de sua preferência e me avise."
Mortean tinha cerca de 15 dias para providenciar passaporte, pedir demissão do emprego e mudar-se para o Irã por três anos.
Selecionado entre 75 candidatos brasileiros a uma bolsa integral de mestrado na Academia Diplomática Iraniana ("uma espécie de Instituto Rio Branco deles", define), o geógrafo viveu em Teerã de 2009 a 2012.
Ao desembarcar na capital iraniana, ele acumulava seis anos de pesquisa sobre o país, que culminaram na implantação da área de Estudos Iranianos no Laboratório de Geografia Política (Geopo) da Universidade de São Paulo (USP), onde se graduara havia sete meses.
Se o currículo acadêmico era invejável, o passaporte era de iniciante: aos 27 anos, Mortean tinha deixado o país por apenas duas vezes, com destino a Argentina e Colômbia.
A epopeia conferiu ao hoje professor de pós-graduação do Instituto de Estudos Contemporâneos da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) um conhecimento de primeira mão sobre boa parte do teatro de guerra do atual conflito no Oriente Médio.
Enquanto para o noticiário da guerra está povoado de nomes remotos e exóticos para a maioria do público, para o geógrafo esses lugares invocam paisagens, rostos e sensações que, passados 14 anos, seguem vívidos na memória.
Mortean percorreu boa parte do litoral do Golfo Pérsico, incluindo as três grandes províncias iranianas da margem norte (Khuzestão, Bushehr e Ormuzgão) e três países da Península Arábica na margem sul (Catar, Emirados Árabes e Omã).
De Teerã, distante cerca de 400 quilômetros da margem sul do Mar Cáspio, para Bandar-e-Abbas, no Golfo Pérsico, são 1,1 mil quilômetros.
"Os iranianos dizem que as quatro estações convivem ao mesmo tempo no país. Você pode ter neve em Teerã e temperatura de 30ºC no Golfo Pérsico", comenta.
Outro aspecto pouco conhecido, diz Mortean, é que o golfo é relativamente raso.
Sua profundidade média, de 70 metros, é comparável às dos mares Báltico (55 metros) e do Norte (90 metros), mas muito inferior às do Mar Mediterrâneo (1,5 mil metros) e do contíguo Golfo de Omã (mil a 2 mil metros).
"O Golfo Pérsico é um grande piscinão", brinca.
Por razões morfológicas (relacionadas às formas superficiais do terreno), explica, o estreito de Ormuz, que liga os golfos Pérsico e de Omã, é mais profundo, chegando a 200 metros em alguns pontos.
O ponto, por onde são escoados 20% da produção petrolífera global, é utilizado como ativo estratégico pelo regime iraniano na atual guerra.
A Bushehr, província diante da qual está situada a Ilha de Kharg, o brasileiro fez uma visita de três dias.
Ele lamenta não ter obtido permissão para conhecer a ilha, distante 24 quilômetros da capital provincial, Badar-e-Bushehr.
"Embora não seja militarizada, Kharg já era considerada área de segurança em razão das instalações de infraestrutura da indústria petrolífera iraniana."
Essa foi justamente a condição que fez o local ser mencionado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como um dos possíveis alvos se Ormuz não for reaberto pelo Irã.
"Se o estreito de Ormuz não for imediatamente aberto para negócios, concluiremos nossa adorável estadia no Irã explodindo e obliterando completamente todas as suas usinas de geração de energia elétrica, poços de petróleo e a Ilha de Kharg", disse Trump na semana passada.
A província de Bushehr originou-se do porto homônimo fundado pelo Império Sassânida (224-651 d.C.).
"Até a descoberta de petróleo no Khuzestão [província do sudoeste do Irã, na fronteira com o Iraque, banhada pelo Rio Shatt el-Arab, formado pela confluência dos rios Tigre e Eufrates], Badar-e-Bushehr era o principal porto do Irã."
Segundo o geógrafo, os iranianos têm grande orgulho de Bushehr, não apenas por sua posição central no Golfo Pérsico e sua proximidade de metrópoles como Shiraz e Isfahan, mas também pelas ruínas dos períodos aquemênida (550-330 a.C.) e sassânida, pelos sítios arqueológicos de caravanserai (pousadas para viajantes de caravanas, em persa) e pela arquitetura de influência britânica.
Nos anos 1930, o xá (rei) Reza Shah Pahlevi (1878-1944), fundador da dinastia Pahlevi, construiu o porto de Bandar-e-Abbas, na província vizinha do Ormuzgão, relegando Bushehr a uma posição secundária.
Bandar-e-Abbas fica no estreito de Ormuz, que, embora seja um dos pontos-chave da presente guerra, não passa de uma parte inóspita do país para a maioria dos iranianos.
"Quando falei para meus colegas [em Teerã] que iria para Ormuz, me perguntaram: 'O que você vai fazer lá?'. É o fim do mundo do Irã", relata.
Para Mortean, a viagem à região do estreito, mais do que um roteiro exótico, tinha o caráter de missão cultural. Ele desejava conhecer as fortalezas construídas pelos portugueses nas ilhas de Ormuz e Qeshm, contemporâneas do descobrimento do Brasil.
A jornada foi exaustiva: duas horas de voo de Teerã até Bandar-e-Abbas, seguidas de 45 minutos de travessia de barco até a Ilha de Ormuz, no centro do estreito, e uma viagem de carro do porto até a Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição por um terreno sem árvores e água potável.
A Ilha de Ormuz é diminuta, explica Mortean: são apenas 42 quilômetros quadrados (a título de comparação, a Ilha de Vitória, na capital do Espírito Santo, tem 90 quilômetros quadrados).
"Há uma vila pitoresca, que lembra Parati. Há artesãos e artistas, festivais de pintura, mosaicos feitos de areia colorida no chão. O solo é arenoso e ferroso, resultando em areias de distintas tonalidades", descreve.
Além de Ormuz, Mortean visitou Qeshm, a maior das sete ilhas do estreito, com um desenho que lembra um golfinho ("Golfinhos, aliás, são muito comuns no Golfo Pérsico").
"Qeshm tem cavernas, gêiseres, manguezais e praias lindíssimas", descreve.
As fortalezas de Ormuz e Qeshm têm uma característica comum: nenhuma apresenta edificações no interior das muralhas. Ao ingressar nas estruturas, o brasileiro imaginou de início que não restasse vestígio das antigas construções.
"O guia então disse: 'Dá uma olhada'. Havia vários buracos no piso [de pedra], cada um dotado de uma escada."
Em razão das altas temperaturas, que ultrapassam 50ºC no alto verão (meses de julho e agosto no Hemisfério Norte) em todo o Golfo Pérsico, os construtores optaram por escavar casamatas e cômodos nas próprias rochas.
"Estive nas ilhas no inverno, quando a temperatura varia entre 25ºC e 30ºC", relata Mortean.
Por uma das passagens, o brasileiro foi conduzido a uma pequena capela incrustada na pedra.
"Na parede, estava escrita toda a Via Crúcis em português arcaico. De um lado do altar, podia-se ler a Ave Maria, e do outro, o Pai Nosso."
Ao reconhecer a escrita ancestral, Mortean confessa ter experimentado uma rara emoção.
"Quando compreendi as inscrições, com uma certa dificuldade em razão da forma arcaica, pensei: 'Agora entendi o que foram o imperialismo e a colonização portugueses'."