Lula fala sobre suas propostas na Globo: o que disse o candidato à Presidência na entrevista à emissora

Lula com olhar sério na bancada da Globo

Crédito, Globo/ Manoella Mello

Legenda da foto, Lula afirmou ter 'certeza' que seu filho conseguirá demonstrar inocência
    • Author, Leandro Prazeres
    • Role, Da BBC News Brasil em Brasília
  • Published
  • Tempo de leitura: 12 min

A entrevista com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na TV Globo nesta quinta-feira (27/8) começou com o assunto que paira sobre a campanha de reeleição do petista: as investigações a respeito de supostas irregularidades cometidas por seu filho mais velho, Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha.

Questionado pelos jornalistas César Tralli e Renata Vasconcellos, Lula classificou como "ilações" as acusações que estão circulando contra Lulinha.

"Ali não tem nenhuma acusação. São ilações, ilações, ilações tiradas de telefonemas. Eu conheço isso muito bem porque já vivi isso", afirmou o presidente, referindo-se à Operação Lava-Jato, que o levou à prisão.

O petista prometeu que Lulinha "não será protegido" por ser seu filho.

"Se o Fábio cometeu qualquer ilícito, qualquer ilícito, ele terá que pagar como qualquer cidadão brasileiro. Eu não vou afastar a delegado da Polícia Federal. Eu não vou fazer qualquer movimento para que meu filho seja beneficiado."

Apesar de afirmar que seu filho terá que provar sua inocência, o presidente disse ter "certeza" que isso será demonstrado.

Lula, que busca um quarto mandato, disse ainda que não fará intervenção na Polícia Federal por conta das investigações contra seu filho.

"Eu não vou afastar delegado da Polícia Federal. Eu não vou fazer qualquer movimento para que meu filho seja beneficiado (...) portanto, ele tem obrigação de não ter feito erro. Eu estou muito tranquilo como presidente da República. Tudo o que for preciso fazer no âmbito da polícia e da Justiça para apurar [será feito]. Será dada toda e qualquer garantia", disse o petista.

Lulinha é alvo de três inquéritos instaurados pela Polícia Federal (PF) e autorizados pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

O primeiro investiga se Lulinha tentou favorecer Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como "Careca do INSS", a obter contratos com o Ministério da Saúde para o fornecimento de produtos à base de cannabis medicinal.

O segundo é uma investigação que apura se Lulinha atuou para beneficiar a empresa 3Structure It LTDA para obter contratos junto à Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência (Dataprev), que é uma estatal federal.

O terceiro investiga a suposta atuação conjunta de Lulinha, do ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, e da empresária Roberta Luchsinger para favorecer empresas interessadas em contratos com o Ministério da Saúde. Ela é amiga pessoal da Lulinha e sua família.

Lula também foi questionado sobre as suspeitas sobre a atuação de Luchsinger, que, segundo relatórios da PF divulgados pela imprensa nos últimos dias, teria pago R$ 249 mil em despesas do ex-chefe de gabinete do petista.

"Não é adequado. É totalmente errado. E o Marcola sabe do erro que ele cometeu, porque não é esse o papel do chefe de gabinete. Ele sabe disso. Ele sabe da importância de chefe de gabinete", afirmou Lula.

O presidente disse, no entanto, que acredita na explicação apresentada por Marcola, de que o valor pago por Luchsinger seria fruto de um empréstimo pessoal.

Lula afirmou também ter questionado por que o auxiliar não o procurou ao enfrentar o problema.

"Eu disse para ele: 'Cara, eu sou quase que nem seu pai. Por que que você não falou comigo? Por que você não falou comigo do problema que você estava tendo?'"

Lula disse ainda estar "muito deprimido e muito chateado" com o episódio e afirmou que eventuais erros deverão ser punidos.

"O meu filho sabe que não poderia cometer nenhum erro. Se cometeu, vai pagar. O Marcola sabe que não poderia cometer nenhum erro. Se cometeu, vai pagar. É assim que funciona."

Lula, César Tralli e Renata Vasconcellos posando para foto no estúdio

Crédito, Globo/ Manoella Mello

Trechos de um relatório da PF obtidos pela revista Veja apontam que Roberta e Lulinha trocaram mensagens sobre um encontro entre Roberta e o então secretário-executivo do Ministério da Saúde, Swedenberger Barbosa.

O objetivo do encontro, segundo a PF, seria viabilizar a venda de produtos à base de cannabis medicinal.

Marcola entrou no radar das investigações depois que a PF identificou que Luchsinger pagou despesas em nome do ex-chefe de gabinete do presidente. Em nota, Marcola disse que os pagamentos fizeram parte de um empréstimo pessoal feito pela empresária e negou ter praticado qualquer irregularidade.

A defesa de Lulinha também vem negando o envolvimento do filho do presidente em crimes ou condutas indevidas.

Lula descarta privatizar os Correios

Em outro ponto da entrevista, o jornalista César Tralli questionou sobre o prejuízo acumulado dos Correios nos últimos anos, outra empresa estatal do governo federal. Nos últimos quatro anos, esse prejuízo chegou a R$ 15 bilhões.

Lula atribuiu a crise pela qual a empresa passa a mudanças no mercado de entrega de encomendas, com a entrada de companhias privadas, brasileiras e estrangeiras.

"A crise dos Correios é que ele não se adaptou aos novos tempos. Surgiu muita empresa de fazer entrega e os Correios ficaram na mesmice (...) Se for necessário a gente fazer associação com empresas brasileiras ou estrangeiras, nós faremos, porque a gente quer os Correios junto com qualquer outra empresa", afirmou.

Em seguida, Tralli questionou se Lula cogitava a possibilidade de privatizar os Correios, defendida por setores do mercado financeiro e defendida durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Lula, no entanto, rejeitou a ideia.

"O senhor não considera vender [os Correios]?", indagou o jornalista.

"Não considero vender os Correios", disse o petista.

Caso Master e Jaques Wagner

Lula foi questionado sobre as menções ao senador Jaques Wagner (PT-BA) em investigações do caso Banco Master. O presidente respondeu que "tem muita gente nesse país" envolvida no escândalo, mas afirmou acreditar na honestidade do senador petista, que busca a reeleição ao cargo.

Wagner era líder do governo no Senado e se afastou da função após tornar-se alvo de investigações da PF relacionadas ao Master.

Lula tem feito campanha a favor da reeleição de Wagner para o Senado, o que foi questionado na entrevista à TV Globo.

"Até agora, não está provado que o Wagner tem relação com o Banco Master", argumentou o presidente.

"O que eu não posso admitir é aceitar que eu possa fazer política vivendo de ilações todo santo dia."

"Eu tenho consciência que o Wagner é honesto. Se ele cometeu um desvio, vai acontecer com ele o que vai acontecer com qualquer pessoa: vai pagar o preço do erro que cometeu. Eu não sou uma pessoa que mudo de calçada quando encontro o amigo que está sendo acusado de alguma coisa. Não. Até que se prove o contrário, todos são inocentes."

Lula discursando em pé, segurando microfone

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Lula durante o lançamento de sua campanha à reeleição, em São Bernardo do Campo

Segurança Pública

Os jornalistas também questionaram Lula sobre um dos pontos que mais preocupa o eleitor brasileiro segundo pesquisas de opinião pública: segurança pública.

Renata Vasconcellos questionou Lula sobre por quê o PT, que governou Brasil por 17 anos, não conseguiu conter o avanço do crime organizado no país.

Lula começou sua resposta dizendo que a Constituição Federal de 1988 teria retirado poderes do governo federal e atribuiu aos Estados as principais responsabilidades em relação à segurança pública.

Lula prometeu que, caso a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) for aprovada pelo Congresso Nacional, ele criará o Ministério da Segurança Pública.

Segundo ele, esta medida irá melhorar a atuação do governo no combate ao crime organizado.

"Na hora que for aprovar a PEC da Segurança Pública, eu crio o Ministério da Segurança Pública. Por que eu vou criar o ministério? Porque, primeiro, eu quero estabelecer qual é a participação de cada ente federado na segurança pública. (Definir) qual vai ser o papel da União, qual vai ter o papel do Estado e qual vai ser o papel do município. Porque aí sim, a gente vai trabalhar muito forte", afirmou.

Lula defendeu que o governo faça investimentos em inteligência e voltou a dizer que encaminhou uma proposta ao governo dos Estados Unidos para o combate ao crime organizado no país.

"Aprovamos uma lei de anti-facção e estamos trabalhando a questão do combate ao crime organizado. Por isso eu fui levar pro (Donald) Trump uma proposta por escrito. Se os EUA quiserem trabalhar junto com o Brasil para combater o narcotráfico, o crime organizado, o Brasil está pronto e preparado (...) o meu desejo é recuperar o território do povo. Aquela rua é do povo do Rio, não é do bandido. A escola é do povo, não é do bandido", disse.

A menção ao governo Trump acontece três meses depois de o governo dos Estados Unidos designar as facções brasileiras Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. A medida contrariou o governo Lula que, nos bastidores, defende que esta designação poderia abrir espaço para intervenções militares norte-americanas em território brasileiro.

Dívida pública

A jornalista Renata Vasconcellos questionou o presidente sobre a trajetória da dívida pública em seu governo — a dívida em relação ao PIB subiu 10 pontos percentuais durante o mandato atual do petista, chegando a quase 82%.

"Eu pensei que uma jornalista da tua qualidade, da tua competência, pudesse começar essa pergunta falando diferente", respondeu Lula. Em seguida, ele defendeu a gestão da sua política econômica, inclusive em mandatos passados e elencou entre suas marcas a realização de superávit primário durante oito anos nos seus dois primeiros governos. É o resultado positivo das contas públicas quando o governo arrecada mais do que gasta, desconsiderando o pagamento dos juros da dívida.

O presidente afirmou que a dívida pública chegou a tamanho percentual do PIB devido aos juros altos e à estagnação do crescimento nos governos anteriores ao seu.

"Você sabe quando é que o PIB voltou a crescer acima de 2%, Renata? Quando eu voltei à Presidência da República. Você se esquece que eu deixei esse país crescendo 7,5% em 2010? E quando eu voltei, ele estava crescendo 1%?", indagou, acrescentando que, comparado a países como Estados Unidos, Japão e Itália, uma dívida de 80% do PIB "não é muito".

Lula afirmou que, neste ano, haverá superávit primário de 0,1%. Perguntado sobre a necessidade de ajustes fiscais e do corte de gastos obrigatórios, o presidente não respondeu diretamente como faria essas mudanças.

Quem é Lula?

Foto de Lula em preto e branco tirada durante manifestação de metalúrgicos em São Paulo. Ele é carregado nos braços usando uma camisa branca aberta. Está com os cabelos encaracolados pretos volumosos e barba preta.

Crédito, Claudinei Petroli/AFP

Legenda da foto, Lula foi preso em 19 de abril de 1980, acusado de ser o principal 'agitador' das paralisações de operários

Luiz Inácio Lula da Silva tem 80 anos de idade e busca o seu quarto mandato como presidente da República. Ele já presidiu o país por dois mandatos consecutivos, entre 2003 e 2011.

O petista se classifica como um político de esquerda e defende maior participação do Estado na economia, políticas de distribuição de renda e a ampliação de programas sociais.

Na política externa, Lula costuma defender o multilateralismo, parcerias com países fora do eixo Estados Unidos-Europa e a criação de foros como os BRICS, grupo que hoje tem 11 países e que foi fundado por Brasil, Rússia, China e Índia.

Nascido em Garanhuns, no interior de Pernambuco, ele migrou ainda criança com a família para São Paulo, no início dos anos 1950. Foi lá que ele começou a trabalhar como metalúrgico e deu início à sua carreira sindical e política.

Lula ganhou projeção nacional no final da década de 1970, quando presidiu o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema e liderou greves de trabalhadores da região conhecida como ABC Paulista durante a ditadura militar.

Em 1980, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), legenda à qual continua filiado.

Em 1986, ele foi eleito deputado federal por São Paulo e participou da Assembleia Nacional Constituinte, responsável pela elaboração da Constituição de 1988.

Esta é a sétima vez que Lula disputa as eleições presidenciais. A primeira foi em 1989, quando foi derrotado no segundo turno por Fernando Collor de Mello, que era filiado ao agora extinto Partido da Renovação Nacional (PRN).

Em 1994, ele chegou a liderar pesquisas de intenção de voto durante parte do período eleitoral, mas foi derrotado por Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que aproveitou a popularidade pela implantação do Plano Real.

Lula voltou a disputar as eleições em 1998, mas foi derrotado novamente por Fernando Henrique, no primeiro turno.

Em 2002, com um discurso mais voltado ao centro, Lula venceu sua primeira eleição presidencial e passou a governar o país a partir de 2003. Ele foi reeleito em 2006 e deixou o cargo, em 2010, com índices de aprovação acima dos 80%, segundo pesquisas de opinião pública.

Na época, ele usou sua popularidade para apoiar e eleger sua ex-ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), em 2010 e 2014.

Os dois primeiros governos de Lula ficaram marcados pela expansão de programas sociais, como o Bolsa Família, pela adoção de uma política de valorização do salário mínimo e por um período de crescimento econômico impulsionado pelo aumento no consumo interno e pela alta no preço internacional de commodities produzidas pelo Brasil, como soja, carne e minério de ferro.

O período, porém, também foi marcado por denúncias de casos de corrupção. Em 2005, veio à tona o caso conhecido como Mensalão, que apontou para o pagamento de parlamentares da base governista em troca de apoio político no Congresso Nacional.

Lula sempre negou ter conhecimento das irregularidades e não foi denunciado no processo, mas importantes aliados vinculados ao PT foram condenados e levados à prisão. Entre eles estavam o ex-presidente do PT, José Genoíno, o ex-deputado federal João Paulo Cunha, e o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu.

Anos depois, investigações da Operação Lava Jato atingiram novamente o PT, executivos de grandes empreiteiras e dirigentes de empresas estatais como a Petrobras.

Os investigadores e delatores apontaram a existência de um esquema de pagamento de vantagens indevidas, seja por meio de propina ou por meio de doações eleitorais regulares por empreiteiras em troca de contratos públicos com o governo ou estatais.

Lula foi investigado pela Polícia Federal (PF) e pelo Ministério Público Federal (MPF) por diversos crimes, entre eles lavagem de dinheiro, corrupção e tráfico de influência. Ele sempre negou ter conhecimento sobre o esquema e afirma, até hoje, que as suspeitas levantadas sobre ele eram fruto de perseguição política.

Entre 2017 e 2018, ele foi condenado por corrupção e lavagem de dinheiro. Suas condenações foram confirmadas em segunda instância. Mesmo assim, em 2018, ele foi lançado como candidato do PT à Presidência da República.

Em abril de 2018, no entanto, ele foi preso e acabou impedido de prosseguir na disputa.

Lula ficou preso por 580 dias, entre abril de 2018 e novembro de 2019, e não pôde disputar a eleição presidencial de 2018.

Em 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou as condenações ao concluir que a 13ª Vara Federal de Curitiba não tinha competência para julgar os casos.

Com isso, Lula recuperou seus direitos políticos, e, em 2022, disputou e venceu, em segundo turno, as eleições para presidente da República, derrotando Jair Bolsonaro (PL), que buscava a reeleição.

O petista recebeu 50,9% dos votos válidos, contra 49,1% de Bolsonaro.

Em seu terceiro mandato, ele retomou programas lançados em seus dois primeiros mandatos como Minha Casa, Minha Vida, voltado para habitação.

Durante seu governo, o Congresso também aprovou trechos da reforma tributária e ampliou a faixa de isenção do Imposto de Renda.

Por outro lado, seus adversários criticam o aumento das despesas públicas, a situação das contas federais e o aumento no custo de vida.

Lula, em contrapartida, atribui parte das dificuldades econômicas ao cenário internacional e afirma que seu governo recuperou políticas públicas abandonadas durante a gestão Bolsonaro.

Lula lidera em intenções de voto no primeiro turno, com 39%, considerando os resultados das pesquisas divulgadas até esta quinta-feira (27/8).

A estimativa é do Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, que compila os levantamentos das instituições Datafolha, Quaest, AtlasIntel, MDA, Gerp, entre outros, e calcula uma espécie de média para a intenção de voto de cada candidato.

Depois de Lula, vêm Flávio Bolsonaro, com 34%; Ronaldo Caiado, com 4%; Renan Santos, com 4%; e Pablo Marçal, com 3%. Veja aqui os resultados completos.

*Colaborou Mariana Alvim, da BBC News Brasil em São Paulo