Veja as estimativas de intenção de voto no Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil
Quem ganhou o primeiro debate presidencial?

Crédito, Sebastião Moreira/EPA/Shutterstock
- Author, Rute Pina, Marina Rossi e Camilla Veras Motta
- Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
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Apenas três candidatos à Presidência da República participaram neste domingo (23/8) do primeiro debate presidencial, promovido pela TV Bandeirantes: Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante).
Os outros três presidenciáveis convidados pela emissora, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo), decidiram não comparecer ao evento. O próximo debate está marcado para o dia 14 de setembro.
Diante de um debate esvaziado, os analistas ouvidos pela BBC News Brasil não enxergam no confronto um vencedor nítido, que tenha conseguido reverter claros dividendos eleitorais. Mas dizem que Renan Santos conseguiu aproveitar espaço para se fazer mais conhecido.
A ausência pautou as discussões do começo ao fim do programa deste domingo à noite. Inicialmente, Cury chegou à emissora, mas não quis entrar no estúdio, afirmando que não participaria mais do debate.
Para o candidato do Avante, o fato de Lula dar uma entrevista à Record, que foi ao ar no mesmo horário do debate, foi "a gota d'água". Mas Cury acabou participando, enfim, do encontro, que foi o mais esvaziado desde 1989, quando Lula foi candidato à presidência pela primeira vez.
Candidatos desconhecidos
Para o cientista político Rafael Cortez, sócio da Tendências Consultoria, de maneira geral, os debates costumam ser mais positivos para candidatos mais desconhecidos pelo eleitorado.
Nesse aspecto, ele afirma que Renan Santos é quem mais tende a sair como vencedor da noite. "Parece que Renan é alguém que melhor aproveitou o debate", diz.
"O caminho para esse efeito do debate não é só a fala no momento, mas o material que ele gera para circular posteriormente", diz.
"Como Renan tem um grau maior de liberdade e tem um perfil mais heterodoxo na classe política, parece que pode ter gerado mais material para circular ao longo do caminho", acredita Cortez.
Renan aparece com 4% das intenções de voto no agregador de pesquisas da BBC News Brasil e não terá tempo de TV nem de rádio durante a propaganda eleitoral.
Até mesmo seu espaço em outros eventuais debates está em xeque, já que, segundo a Lei das Eleições, têm direito garantido a participar de debates na TV e no rádio os candidatos cujos partidos, federações ou coligações tenham ao menos cinco parlamentares (deputados federais ou senadores) no Congresso Nacional.
Atualmente, o único parlamentar do Missão é o deputado federal e candidato à reeleição, Kim Kataguiri.

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Fim do Promoção Agregador de pesquisas
O tempo para Renan foi, portanto, precioso. Ele chegou à emissora apresentando duas fraldas, uma para Lula e outra para Flávio, candidatos que ele atacou em todos os blocos do programa.
"Sua estratégia, desenhada desde a pré-campanha, passa justamente por usar debates, sabatinas e redes sociais para furar essa barreira de conhecimento", afirmou Mayra Goulart, professora de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Para ela, o candidato do Missão foi "o grande personagem da noite". Assim como Cortez, Mayra afirma que Renan sairá do primeiro debate com grande quantidade de material para circular nos próximos dias.
"Mas permanece a questão central: o personagem concebido para gerar engajamento é capaz de produzir confiança?", questiona ela.
Mas, para Cortez, não se trata de confiança. "Dada a ausência de Lula e Flávio, em alguma medida o que está em jogo é um eleitor mais cansado dessa polarização e que, portanto, tem maior tendência a [votar em] alguém que seja mais disruptivo."
Para ele, o debate não deve impactar as intenções de voto em Flávio Bolsonaro e Lula, porque as pesquisas apontam que os dois líderes têm um eleitorado mais consolidado.
Mas o confronto deste domingo pode produzir efeitos na competição entre os candidatos que disputam a terceira posição atualmente.
"Eventualmente, Renan pode começar a pegar um pouco desse voto do Zema e do Caiado, que não é um voto muito seguro."
Renan Santos promete linha dura na segurança
Renan Santos abriu o debate, seguindo a ordem do sorteio feito antes do início do programa. Foi questionado sobre segurança pública, tema que é bastante explorado em sua plataforma eleitoral.
A primeira proposta apresentada por ele foi declarar estado de defesa e Garantia da Lei e da Ordem (GLO) em regiões tomadas por crimes organizados. Também propôs a construção de superpresídios, sem isolamento de facções.
"É o que eu proponho de maneira clara. Rio de Janeiro, Ceará, Bahia, ou eles se enquadram em um enfrentamento total ao crime organizado, ou seus governos vão se enquadrar ao governo federal, ao Estado de Defesa, à GLO", afirmou.
"Todo mundo tem que se unir no combate ao crime organizado. Agora, projeto que vem do PT, entregando ao Lula controle sobre as polícias dos Estados... nunca. Nem os policiais, nem o povo brasileiro querem isso."
Ao longo do debate, Renan chamou o petista de "ladrão", "bêbado", "tranqueira" e disse que o país está "de joelhos, humilhado e pobre". Classificou o eleitor de Lula como "canalha", exceto aquele que recebe o Bolsa Família, "que ainda acredita que o Lula é a única fonte de comida dele, de maneira errônea."
Renan falou contra o projeto que prevê o fim da escala 6x1. "Não acredite nesses políticos que estão dizendo para você que você vai trabalhar menos e ganhar mais num país em que até as Casas Bahia quebraram", disse.
O candidato do Missão ainda atacou a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja. "Lula, coitado, tem que ficar com aquela Janja. Era mais fácil ter vindo ao debate, teria companhias melhores."
Caiado usou Goiás como palco de propostas

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Ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado foi o segundo a responder. O candidato do PSD afirmou que vai atuar para baixar a taxa de juros "a patamares de 6%" e que "derrotar o Lula" é a primeira coisa para essas medidas acontecerem.
"De uma maneira direta, precisa de um choque de credibilidade. A pessoa que assumir o governo, a presidência da República, precisa ter autoridade moral. E nessa hora eu não vou endividar o país. Eu vou conter as despesas do país", disse.
O ex-governador listou feitos em seu Estado para exemplificar suas propostas, por exemplo, ao responder sobre temas de segurança pública e educação.
"Quando eu cheguei ao governo tinha aquela tese que dizia que briga de homem com mulher não se mete a colher. Em Goiás, meti algema, meti tornozeleira no covarde", afirmou.
"E agora, na presidência da República, eu vou aumentar muito mais essa ação", continuou.
Caiado também cobrou Flávio Bolsonaro em relação ao dinheiro que ele pediu ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar o filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro.
"Ele realmente não deu satisfação, não explicou o Dark Horse. Ou seja, ele exatamente fugiu da explicação à sociedade. Como é que um candidato à presidência da República pode querer ter a presunção da inocência, sendo que não explicou aonde foram parar esses milhões e milhões de reais?", questionou ele, que também bateu em Lula.
"E o Lula tem o 'Dark Lobby'", disse Caiado. "E o Lulinha, que é o artista desse jogo", afirmou, fazendo referência à suposta atuação do filho de Lula para favorecer o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS.
Lulinha é investigado em três inquéritos que tramitam no Supremo Tribunal Federal. Um deles apura sua suposta atuação para favorecer Antunes na sua tentativa de fornecer canabidiol para o Sistema Único de Saúde.
Apontado pela PF como um dos principais operadores das fraudes no INSS, o lobista está preso preventivamente desde o ano passado. As investigações também apuram o envolvimento da empresária Roberta Luchsinger, apontada como amiga próxima de Lulinha e elo entre ele e Antunes, sendo suspeita de ter intermediado pagamentos para o filho do presidente.
Cury se apresentou aos eleitores
O psiquiatra e escritor Augusto Cury também começou o debate criticando a ausência de Lula.
"Quero mostrar a minha indignação. Nesse exato momento, Lula da Silva está fazendo uma entrevista num canal de televisão. Isso é um desrespeito com a democracia", criticou.
Ele afirmou que vai "pacificar" a relação entre Brasil e os Estados Unidos, sem apresentar propostas concretas, mas afirmou que faria uma repaginação das embaixadas, para que elas não vendam o país como "fazendas do mundo", mas como "supermercado do mundo".

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O candidato do Avante também defendeu ajustes no Bolsa Família e a escala 5x2.
"A escala 5x2 atende à necessidade dos trabalhadores. Eles vão poder ter mais tempo com a família, mais qualidade de vida e, consequentemente, produzirão mais. A escala 6 por 1 atende determinados setores da economia", respondeu.
"O que nós temos que fazer é ajustar para atender à necessidade dos trabalhadores e também à necessidade das empresas."
Ao final, o escritor aproveitou o debate para se apresentar aos eleitores.
"Quero usar toda a minha experiência que eu tive fora da política para chamar os melhores profissionais, os melhores governadores sem histórico de corrupção, os melhores economistas e também os melhores gestores de empresa", afirmou.
"O Brasil merece se desenvolver, não com grito, não com agressividade, não denegrindo, não diminuindo as pessoas, mas, de fato, formando um time de ouro para desenvolver a nação brasileira."
Lula dá entrevista em horário do debate
O presidente Lula concedeu entrevista à Record, transmitida no mesmo horário do debate.
Ao longo de 20 minutos, Lula respondeu a perguntas sobre sua relação com o presidente dos EUA, Donald Trump, sobre segurança pública, violência contra a mulher, economia e sobre as investigações contra o filho, Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha.
"Se alguém está agindo de forma equivocada, esse alguém vai ter que ser investigado", afirmou o presidente. "Eu não sou um presidente que tenta proibir investigação. Eu não ameaço mandar ministro embora. Eu não ameaço punir delegado. Investigue-se. E todo mundo tem direito de provar se é inocente."
"Mas, se alguém cometeu erro, e esse erro trouxe prejuízo aos cofres públicos, essas pessoas terão que pagar", continuou Lula.
"Meu filho sabe que, se cometeu erro, ele vai ser julgado, vai ser punido ou vai ser inocentado. "Mas ele tem que provar a inocência dele, e ele sabe disso", afirmou Lula na entrevista deste domingo.
A estratégia da campanha de Lula de conceder uma entrevista à Record ao mesmo tempo em que o debate da Band era realizado foi "inteligente", avalia Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, "porque gera material e não deixa um vácuo que poderia partir da sua ausência no debate".
"Especialmente em uma emissora como a Record, que tem um vínculo mais claro com o segmento evangélico."
Flávio responde pela ausência
Enquanto o debate acontecia, Flávio Bolsonaro (PL) publicou um vídeo em suas redes sociais dizendo que não considera os candidatos à Presidência seus adversários e criticou Lula, sem citá-lo nominalmente.
"Não são meus adversários", afirmou Flávio Bolsonaro sobre ausência no debate
"Quero debater sim, mas com quem está destruindo o Brasil e piorando a sua vida", disse Flávio, culpando o governo Lula pelo alto endividamento das famílias, o aumento de preço dos alimentos e a violência.
O senador também fez um novo aceno aos cristãos: "Eu quero debater com quem não acredita em Deus, porque, quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do senhor Jesus Cristo".
Flávio também citou as investigações da Polícia Federal contra Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula, e o filho do presidente, Lulinha.
Em seguida, apresentou brevemente algumas de suas propostas, como a redução de gastos do governo e de impostos e o combate à corrupção e às facções criminosas.
Ao fim, voltou a atacar Lula: "O meu adversário é quem está no poder e está destruindo o Brasil. Você sabe quem ele é, é com ele que quero debater".
























