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Bloqueio de Trump ao Irã é uma aposta arriscada. Vai funcionar?
- Author, Paul Adams
- Role, Repórter de diplomacia, BBC News
- Tempo de leitura: 5 min
Ninguém duvida que as Forças Armadas americanas sejam capazes de estabelecer um bloqueio dos navios que entram e saem do Golfo Pérsico. A pergunta é: qual o objetivo?
"Acho que é viável", declarou à BBC o contra-almirante americano Mark Montgomery, na manhã de segunda-feira (13/4). "E, certamente, é menos perigoso que a alternativa, que seria forçar os iranianos a criar as condições para um comboio."
Algumas das opções ventiladas nas últimas semanas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, seriam a tomada da ilha de Kharg ou a escolta militar de comboios através do Estreito de Ormuz. Ambas teriam sido perigosas e possivelmente de alto custo.
As forças americanas envolvidas teriam se exposto a ataques de mísseis, drones e lanchas rápidas iranianas. E a possível presença de minas na água teria aumentado ainda mais o grau de perigo.
Por outro lado, o bloqueio permite que os navios de guerra americanos naveguem com segurança, longe do litoral nas águas do Golfo de Omã, rastreiem os navios que surgirem de portos iranianos e os interditem à vontade.
"Existe menos risco aqui do que na área mais confinada do estreito", diz Montgomery.
Com as forças especiais, helicópteros e suas próprias lanchas rápidas disponíveis, a Marinha americana detém tudo o que é necessário para esta operação. Os recentes bloqueios da Venezuela e de Cuba demonstraram isso.
No início de janeiro, a apreensão do petroleiro russo Marinera no norte do oceano Atlântico, mostrou que a Marinha americana pode conduzir essas operações quase em qualquer parte do mundo.
O Comando Central dos Estados Unidos (Centcom, na sigla em inglês) afirma que este bloqueio "será executado imparcialmente contra navios de todas as nações que entrarem ou saírem de portos e áreas costeiras do Irã", mas que os navios que usarem portos não iranianos não serão detidos.
Navios transportando insumos humanitários serão permitidos, "sujeito a inspeção", segundo o Centcom.
Mas será que vai funcionar?
A lógica parece clara.
Desde que a guerra começou, o Irã continua exportando com sucesso seus produtos petroquímicos através do Golfo, ganhando bilhões de dólares, enquanto outros países do Golfo não conseguem exportar seu próprio combustível.
Um bloqueio americano bem-sucedido poderá impedir este fluxo, retirando do regime iraniano a receita tão necessária do petróleo e enfraquecendo ainda mais sua economia.
Mas o Irã já demonstrou enorme resiliência, frente a mais de um mês de ataques dos Estados Unidos e Israel. E o país pode também sentir que pode aguentar mais esta tempestade — especialmente porque qualquer novo bloqueio, provavelmente, irá elevar ainda mais os preços do petróleo.
"Eles acreditam que podem suportar isso", afirma à BBC David Satterfield, ex-enviado especial dos Estados Unidos para assuntos humanitários no Oriente Médio. E também "que os Estados Unidos sofrerão com os preços do petróleo, e os Estados do Golfo acabarão pressionando os Estados Unidos para abrir novamente o estreito."
Para ele, Washington não levou em conta a férrea determinação iraniana. "Eles acham que venceram", dis Satterfiled. "Os iranianos acreditam que podem suportar mais dificuldades que seus oponentes, por um período mais longo."
Especialistas em navegação acompanham o escoamento dos navios vindos de portos iranianos pelo Estreito de Ormuz, para observar qual será o impacto do bloqueio americano.
"Estou literalmente observando os navios que estão passando agora", conta a analista de inteligência marítima Michelle Wiese Bockmann. "Se eu fosse marinheira, estaria muito preocupada."
"Observamos alguns navios darem meia-volta após o anúncio original de Trump na noite passada", contou na segunda-feira (13/4) o editor-chefe da publicação Lloyd's List, Richard Meade.
Segundo Meade, houve nas 48 horas anteriores o período mais movimentado de tráfego através do Estreito de Ormuz desde o início da guerra, no final de fevereiro. Foram cerca de 30 trânsitos rastreáveis, ou seja, embarcações navegando com seu equipamento de identificação automática ligado.
"Parecia uma corrida de navios tentando sair", ele conta.
Com muito poucas embarcações atualmente em movimentação, pode levar algum tempo (ou não) para vermos a Marinha americana interceptando navios entrando ou saindo de portos iranianos.
Com o cessar-fogo ainda em vigor, a guerra no Irã, no momento, se transformou em uma batalha entre dois bloqueios concorrentes, com a economia global presa em meio à disputa.
Com a China supostamente tendo colaborado para convencer o Irã a participar das extensas discussões diplomáticas do último fim de semana em Islamabad, no Paquistão, Washington talvez espere que esta nova fase gere mais pressões por parte de Pequim.
A China é o maior importador mundial de petróleo iraniano. E, embora detenha vastas reservas estratégicas, o país não pode permitir uma interrupção prolongada do fornecimento.
A última jogada de Donald Trump é uma aposta. E seus impactos poderão ser sentidos em breve.