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Delegados da PF temem 'efeito cascata' e impacto duradouro da guerra Moraes-Mendonça na corporação

Crédito, Marcelo Carvalho/Agência Brasil
- Author, Leandro Prazeres
- Role, Da BBC News Brasil em Brasília
- Published
- Tempo de leitura: 6 min
O afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada, determinado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, nesta terça-feira (08/9), concretizou um temor que vinha sendo manifestado nos últimos dias dentro da instituição: o de que a PF acabasse tragada pela crise entre os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes.
Delegados ouvidos pela BBC News Brasil em caráter reservado afirmam que esse receio vinha crescendo desde a semana passada, quando Mendonça retirou o sigilo de relatórios produzidos pela PF sobre supostas mensagens trocadas entre Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, dando início a uma crise sem precedentes no STF. Na avaliação deles, a crise "tragou" a PF para dentro da disputa entre os dois ministros.
O temor era o de que a PF acabasse se transformando na "primeira vítima" da "guerra" entre Mendonça e Moraes no STF. A razão da preocupação é simples: tanto Moraes quanto Mendonça utilizaram relatórios elaborados pela PF como "munição" na disputa entre os dois.
Os delegados temem que essa crise atrapalhe investigações em andamento, abra flancos para futuras intervenções no comando da PF e, em última instância, que delegados da PF possam ser punidos por terem cumprido ordens de ministros do STF.
"Na PF, como todo mundo sabe, a gente luta por mais autonomia. Hoje, não temos autonomia e nem as prerrogativas que o Ministério Público e o Judiciário têm. Quando essas crises aparecem, a PF fica ainda mais desprotegida que outras instituições", disse à BBC News Brasil o presidente da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF), Edvandir Félix de Paiva.

Crédito, Reuters/Adriano Machado
Carreiras em risco
O temor de que carreiras podem ter entrado em risco durante a crise no STF começou depois que o ministro Alexandre de Moraes divulgou um relatório de inteligência elaborado pela Polícia Federal que fazia uma análise sobre a atuação de André Mendonça na condução de casos sob sua relatoria, entre eles os inquéritos relacionados ao Banco Master.
A preocupação tem raiz em uma das determinações feitas por Mendonça na decisão desta terça-feira.
Ele ordenou que a Corregedoria da Polícia Federal abra uma investigação penal e administrativa sobre supostas violações funcionais praticadas por Andrei Rodrigues e Leandro Almada relacionadas à elaboração e divulgação de relatórios de inteligência citados por Moraes em decisão da semana passada.
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Na prática, Rodrigues e Almada passariam da condição de investigadores para a de investigados.
Procedimentos conduzidos pela corregedoria podem levar tanto à responsabilização administrativa quanto criminal. Se o órgão avaliar que eles praticaram irregularidades, os dois podem tanto perder seus cargos quanto serem condenados à prisão.
Internamente, a utilização do relatório de inteligência divulgado por Moraes foi criticada por delegados ouvidos pela BBC News Brasil.
Segundo eles, a doutrina de inteligência adotada pela PF e a legislação brasileira impedem que relatórios de inteligência policial sejam utilizados em procedimentos judiciais e que tenham valor probatório, ou seja: que possam servir como evidências em um processo criminal.
Esse, aliás, foi um dos argumentos usados por Mendonça para determinar o afastamento de Andrei Rodrigues e Leandro Almada.
Ele afirmou que os relatórios citados por Moraes na semana passada apontam que teria ocorrido monitoramento e coleta indevida de informações sobre ele e sobre o Advogado-Geral da União, Jorge Messias.
Na mesma decisão, Mendonça pediu que uma sessão virtual extraordinária da Segunda Turma do Supremo fosse convocada para analisar os afastamentos. O colegiado já tem maioria para a manutenção da decisão do ministro.
Um delegado ouvido pela BBC News Brasil em caráter reservado disse estar preocupado com a escalada dos acontecimentos.
Segundo ele, o temor é de que Andrei e Almada possam ser apenas os primeiros delegados a serem responsabilizados em função da crise.
Ele disse que a categoria estaria preocupada com a possibilidade de que a escalada de decisões entre os dois ministros possa fazer com que outros delegados se tornem alvo de investigação apenas por terem cumprido tarefas designadas seja por ministros ou por seus superiores.
Esse preocupação teria sido expressa a ele por delegados que participaram de uma reunião em que Mendonça pediu a elaboração de um relatório sobre as mensagens supostamente trocadas entre Moraes e Vorcaro.
Segundo ele, Mendonça teria dito aos delegados que se eles não cumprissem a decisão, poderiam ser responsabilizados, numa postura considerada incomum por investigadores.
Segundo esta fonte, o receio é de que, em meio ao "tiroteio" de decisões entre Moraes e Mendonça, os quatro delegados que assinaram este relatório possam acabar punidos.
Ele afirma, aliás, que toda a crise acabou ofuscando a qualidade do trabalho técnico do relatório sobre as mensagens supostamente trocadas entre Moraes e Vorcaro. Ele classifica o relatório como "primoroso".
Por outro lado, ele diz ter considerado inusual a elaboração do relatório e a sua divulgação a pouco mais de um mês das eleições à medida em que a PF tem acesso ao conteúdo dos telefones de Daniel Vorcaro desde novembro de 2025.
Alas instrumentalizadas
Outro delegado ouvido pela BBC News Brasil em caráter reservado afirmou que a crise atual envolvendo a PF é diferente da disputa entre alas dentro da corporação e que, no passado, já teriam gerado conflitos.
De acordo com ele, as duas alas da corporação teriam sido, de alguma forma, instrumentalizadas pela disputa interna entre Moraes e Mendonça.
Segundo ele, historicamente, a PF teria pelo menos duas alas mais ou menos consolidadas.
A primeira é composta por policiais mais à direita, identificados com o bolsonarismo, e que durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL), ocuparam cargos de chefia.
Um dos principais nomes dessa ala era o do delegado e ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Alexandre Ramagem (PL-RJ), que hoje vive nos Estados Unidos e foi condenado pelo STF no inquérito que apura a tentativa de golpe de Estado no Brasil.
A outra ala seria composta por policiais mais à esquerda, identificados com o atual governo do presidente Lula. Segundo ele, ao longo dos últimos anos, a ala bolsonarista foi colocada em cargos de menor importância dentro da corporação. Andrei Rodrigues, no entanto, não é visto como um policial federal esquerdista, mas ele vem sendo criticado por sua proximidade com Lula desde a campanha presidencial de 2022, quando ele foi responsável pela equipe de segurança do então candidato.
Desde que assumiu a chefia da PF, Rodrigues passou a acompanhar Lula em diversas viagens, tanto no Brasil quanto no exterior.
Por tudo isso, na avaliação dos delegados ouvidos pela BBC News Brasil, uma crise envolvendo decisões tomadas pela polícia a pedido ou sob supervisão de ministros da Corte pode acabar produzindo consequências mais severas dentro da própria corporação.
Crises sucessivas
Os delegados ouvidos pela BBC News Brasil citam que a PF já passou por diversas outras crises, mas dizem temer que a atual tenha impactos duradouros sobre a instituição.
Eles citaram a crise gerada pela Operação Satiagraha, em 2004, em que a PF investigou supostos crimes praticados pelo banqueiro Daniel Dantas. O caso chamou atenção por conta da atuação do ministro Gilmar Mendes sobre o caso e contra o então delegado da PF, Protógenes Queiroz, que comandava as investigações.
Outro caso mencionado aconteceu em 2020, quando o então ministro da Justiça, Sergio Moro, deixou o cargo afirmando que o então presidente Jair Bolsonaro teria tentado interferir no comando da PF no Rio de Janeiro para supostamente proteger seus filhos.
A alegação de Moro tinha como base declarações de Bolsonaro durante uma reunião ministerial na qual ele disse que se precisasse trocar o comando da PF no Rio de Janeiro, ele o faria.
Em depoimento, no entanto, Bolsonaro disse que a menção à troca do comando da instituição era uma referência à segurança dos seus filhos e não uma tentativa de protegê-los de investigações.
Cronologia da crise
A crise entre Mendonça e Moraes teve o seu estopim na semana passada, quando Mendonça liberou o sigilo de um relatório elaborado pela PF sobre mensagens supostamente trocadas entre Moraes e Daniel Vorcaro, na terça-feira (1º/9). O banqueiro está preso e é investigado por crimes financeiros.
O relatório apontava indícios de que Vorcaro teria recebido informações privilegiadas sobre o andamento de investigações em andamento contra o banqueiro. O documento também apontou que Moraes chegou a editar um arquivo com o contrato de R$ 129 milhões entre Vorcaro e a mulher do ministro, a advogada Viviane Barci de Moraes.
Mendonça também pediu que o Plenário do STF julgasse um pedido para abrir investigação contra Moraes em sessão pública, o que ainda não aconteceu.
Na quinta-feira (3/9), foi Moraes quem pediu que Mendonça fosse investigado. Desta vez, no inquérito das Fake News. Em sua decisão, havia indícios de que Mendonça teria direcionado investigações contra ele e os ministros Dias Toffoli, Kássio Nunes Marques e Luiz Fux.
Nesta terça-feira, Mendonça reagiu e determinou o afastamento de Andrei Rodrigues e de Leandro Almada. Em resposta, onze diretores da PF puseram seus cargos à disposição em solidariedade à dupla.
A BBC News Brasil apurou que o governo ainda estuda que medida adotar em relação ao afastamento da cúpula da PF.
A medida mais provável será um recurso movido pela AGU contra a decisão de Mendonça. Ainda não se sabe, no entanto, se o recurso será julgado pela Segunda Turma do STF ou pelo Plenário da Corte.
























