Trump e tensão entre Brasil e EUA viram 'motor de engajamento' para Lula e Flávio Bolsonaro nas redes sociais

Crédito, Reprodução/Instagram/Flávio Bolsonaro
Temas ligados aos Estados Unidos, a Donald Trump e às tensões entre Brasília e Washington viraram um dos principais motores de engajamento da pré-campanha presidencial nas redes sociais.
Em alguns casos, publicações sobre o assunto tiveram desempenho até 40 vezes superior ao de outras do mesmo perfil.
A conclusão é de um levantamento da BBC News Brasil, com apoio do Laboratório de Internet e Ciência de Dados da Universidade Federal do Espírito Santo, que analisou mais de 5 mil publicações dos últimos três meses no X, no Instagram e no TikTok.
O efeito é mais significativo nas contas dos presidenciáveis que lideram as pesquisas de intenção de voto até o momento: Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), que tratam mais do assunto. Mas a reportagem considerou também outros pré-candidatos à Presidência que registravam ao menos 3% das intenções de voto, segundo o agregador de pesquisas da BBC.
Os dados mostram que episódios como as investigações comerciais envolvendo o Pix, a classificação de facções criminosas como terroristas e os encontros com Trump passaram a gerar algumas das publicações de maior repercussão.
Foram analisados os perfis de Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo).
Enquanto Lula obtém grande repercussão ao associar o debate à soberania nacional, nomes da oposição conseguem alto engajamento ao relacionar os EUA ao combate ao crime organizado ou à aproximação com Trump.
A relação entre o Brasil e os EUA vive momentos de tensão constante nos últimos meses. O episódio mais recente envolveu a divulgação de uma entrevista do presidente Donald Trump ao site Axios no dia 19 de junho.
Na entrevista, Trump afirmou que o presidente Lula é uma pessoa "volátil" e que o Brasil teria se tornado um lugar "perigoso". Lula respondeu pedindo que ele "não se meta" nas eleições brasileiras.
'Brasil é dos brasileiros'

Fim do Promoção Agregador de pesquisas
O levantamento da BBC News Brasil mostra Flávio Bolsonaro com o maior número de interações no X e no Instagram. Já Renan Santos consegue melhor performance no TikTok.
Lula, no entanto, é o maior beneficiário do discurso que envolve os EUA, sob um argumento de defesa da soberania nacional, em qualquer uma das redes sociais analisadas.
Uma publicação do presidente feita no dia 2 de junho atingiu cerca de 255 mil interações no X. Trata-se de uma imagem com o texto "O Pix é do Brasil!", feita um dia depois do governo do presidente americano Donald Trump concluir uma investigação comercial iniciada contra o Brasil em julho do ano passado.
O documento propõe tarifas retaliatórias de 25% sobre produtos brasileiros. Um dos alvos do documento americano é o sistema de pagamentos Pix.
O governo americano acusa o Banco Central brasileiro de exercer papel duplo no Pix — "como regulador e proprietário/operador" do Pix — criando um "conflito de interesses, na ausência de salvaguardas processuais adequadas".
Lula usou o episódio para criticar os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro, a quem chamou de "vendilhões e traidores da pátria".
"Esses filhos do Bolsonaro conseguem ser pior do que ele. E são, na verdade, vendilhões da pátria. Foram pedir para que um país estrangeiro se intrometesse nas decisões brasileiras. É isso que vocês têm que dizer alto e bom som: são traidores", disse Lula em discurso em Catalão, no interior de Goiás.

Esta é a segunda publicação mais popular de Lula no período analisado, perdendo apenas para um vídeo no Tiktok e no Instagram de maio, em que ele é recebido por um garoto cordelista em Amparo, Sergipe, que declama um poema ao presidente.
Quatro dias depois do post sobre Pix, Lula voltou a viralizar com uma foto usando camiseta da seleção brasileira e a legenda "O Brasil é dos brasileiros", com mais de 196 mil interações no X.

Crédito, Lula/X/Reprodução
Facções criminosas como terroristas e encontro com Trump abastecem oposição

Crédito, Flávio Bolsonaro/X/Reprodução
Nem só Lula ganha com a tensão entre Brasil e EUA. Flávio Bolsonaro tem se destacado no assunto com ainda mais frequência: das dez publicações de suas contas com mais interações, quatro estavam ligadas ao tema.
A segunda publicação mais popular de Flávio viralizou em 30 de maio ao provocar Lula e dizer que o presidente está revoltado porque ele está "enfrentando o CV e o PCC".
O comentário é uma referência à decisão do governo americano de classificar as facções criminosas brasileiras como terroristas.
A designação das organizações como terroristas foi vista como uma derrota para Lula. O governo brasileiro era contra a medida – o principal argumento era de que ela poderia colocar em risco a soberania nacional ao abrir espaço para ações militares norte-americanas sob o pretexto de combate ao terrorismo.
Do outro lado, o grupo liderado por Flávio Bolsonaro vinha defendendo publicamente a medida há mais de um ano, apontando a posição contrária do governo Lula à designação como uma suposta demonstração de conivência da administração petista com o crime organizado.
Flávio critica, em vídeo, uma fala de Lula em que, ao comentar a decisão, disse que estava "triste" com a notícia vinda dos americanos e então usou o termo "nossos criminosos" para se referir às facções brasileiras. Para Lula, estes "não são os terroristas que o Trump quer".
Outro post viral de Flávio é um vídeo em que ele aparece dizendo que Lula foi atrás de Trump para "fazer lobby a favor de CV e PCC" e que ele foi "trabalhar para que eles fossem tratados como terroristas."
Ronaldo Caiado também apostou no assunto e faturou: três de dez publicações com maior engajamento acima da média trataram do tema das facções. No caso de Caiado, no entanto, há menor enfoque na relação com os EUA e mais ênfase em suas propostas para a segurança pública e em seus resultados enquanto governador de Goiás nesta área.
Nos perfis de Renan Santos, o tema não é o que mais engaja — suas publicações mais virais são as que criticam ações do governo federal ou tratam de segurança pública.
Ainda assim, quando falou da classificação de facções criminosas como terroristas em um vídeo, obteve um desempenho quatro vezes maior do que o de costume.
Nos perfis de Romeu Zema, o tema não esteve entre os favoritos. Mas ele tem outro trunfo nas redes: suas publicações críticas a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) são as que mais viralizam.
EUA viram marcador político e vídeos ampliam alcance nas redes
O levantamento utilizado pela reportagem também indica que os vídeos se consolidaram como a principal forma de alcançar públicos mais amplos nas redes dos presidenciáveis — quatro em cada cinco interações no período analisado foram com conteúdos neste formato.
"O engajamento é uma métrica fundamental para as plataformas. Quanto maior o engajamento, maior a tendência de que aquele conteúdo seja exibido para outras pessoas. Ele mede a capacidade de um conteúdo de reter a atenção do público, seja por uma resposta positiva ou negativa", diz Gabriel Herkenhoff, pesquisador do Laboratório de Internet e Ciência de Dados da Universidade Federal do Espírito Santo.
"Conteúdos com maior carga afetiva ou maior capacidade de gerar controvérsia acabam atraindo mais atenção. Mesmo a resposta negativa faz com que aquele conteúdo apareça para mais pessoas."
O pesquisador afirma que os EUA funcionam hoje como um marcador de pertencimento político nas redes. "Em um cenário de forte polarização, eles acabam funcionando como um marcador de grupo: você está com o meu grupo ou contra o meu grupo."
'O eleitor do meio é quem está em disputa'
Para Jairo Pimentel, professor do Laboratório de Pesquisa de Opinião Pública e Mídias da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp), o que está em disputa nas redes não é quem fala melhor sobre os EUA ou sobre segurança pública, mas qual agenda consegue se impor no debate.
"Há uma disputa de agendas: o presidente com uma agenda mais de soberania e o Flávio e a direita com um discurso mais contra a bandidagem, em relação à segurança pública."
No caso de Lula, a aposta na soberania nacional segue uma lógica já conhecida pela ciência política.
"Existe um efeito documentado chamado rally round the flag, que é basicamente um momento de comoção nacional em defesa dos interesses nacionais que acaba unificando uma boa parcela do eleitorado em torno de alguma questão relacionada aos valores nacionais e à soberania nacional", diz.
Para Pimentel, episódios como o tarifaço de Trump no ano passado e os atritos recentes entre os dois países ajudaram a melhorar a avaliação do presidente. Apesar disso, ele ressalta que a disputa eleitoral permanece equilibrada.
"Hoje a eleição está muito dividida ainda, mesmo com o caso do Flávio. Você pega o último Datafolha e são só quatro pontos de vantagem para o presidente, o que é facilmente reversível para a oposição", afirma, em referência à divulgação de conversas do pré-candidato com o banqueiro Daniel Vorcaro em reportagem do The Intercept Brasil.
Do outro lado, avalia, a oposição consegue explorar simultaneamente a pauta da segurança pública e a aproximação com os EUA.
"Quando você pergunta qual é o principal problema do país, sobretudo para o público mais à direita, surge a questão da segurança pública. É um calcanhar de Aquiles da esquerda de uma forma geral, que não consegue lidar muito bem com essa temática."
"Ela tem esse duplo sucesso. Ao mesmo tempo em que trata da segurança como tema relevante, ela também cria uma 'vacina' para a aproximação com os EUA, que é uma coisa da qual a direita brasileira, sobretudo o bolsonarismo, não pode se distanciar."
Pimentel pondera, no entanto, que o alcance das redes sociais não significa necessariamente um grande impacto eleitoral.
"As redes sociais pegam justamente esses eleitores que já estão bem polarizados, que representam uma minoria do eleitorado", afirma.
Para ele, a disputa decisiva ocorre entre os eleitores menos engajados politicamente.
"O eleitor do meio, que está em disputa, é mais influenciado quando essas temáticas transbordam do noticiário ou das redes sociais para o dia a dia."
Nesse contexto, Trump acaba tendo influência sobre a disputa.
"O impacto do Trump é esse. Ele dá muita vazão a essas notícias para um público que está desinteressado em política, mas que acaba recebendo essas informações mesmo não querendo."
Até agora, diz Pimentel, as manifestações do presidente americano têm beneficiado mais Lula do que a direita.
"O que a gente está vendo é que até agora ele tem feito gols contra para a direita. Toda vez que se manifesta, ele traz algum elemento que ajuda o presidente Lula a se posicionar melhor no xadrez eleitoral."
"Por outro lado, a gente não sabe como vai ser no futuro, quais serão as manifestações ou as atitudes que ele vai tomar. Mas a atuação do Trump em relação ao Brasil é um elemento importante da disputa presidencial deste ano."
Gráficos por Caroline Souza, da Equipe de jornalismo visual da BBC News Brasil.




























