Como Vini Jr. virou protagonista do Brasil na Copa e pode fazer a diferença contra o Japão

Crédito, Marco Bello/Reuters
Antes da Copa do Mundo de 2026, uma cobrança rondava o nome de Vinícius Jr.: o jogador que vive um dos melhores momentos da carreira no Real Madrid ainda não havia repetido, com a seleção brasileira, o nível de decisão que apresenta no clube espanhol.
Os números reforçavam a crítica: antes do Mundial, eram apenas 8 gols em 46 jogos pela equipe principal, a maioria deles em amistosos.
Na Copa América de 2024, a ausência pesou: suspenso por acúmulo de cartões, Vini Jr. assistiu da tribuna à eliminação do Brasil para o Uruguai nos pênaltis, nas quartas de final, e assumiu a responsabilidade pelo resultado mesmo sem ter entrado em campo.
Pouco antes da Copa, em amistoso testando-o como o novo 10 da seleção, voltou a ser criticado: cometeu erros pouco comuns e o Brasil perdeu para a França por 2 a 1, em partida na qual pouco produziu.
Mas três jogos de Copa do Mundo depois, esse discurso de críticas perdeu força. Contra o Marrocos, na estreia, foi ele quem marcou o gol que evitou a derrota, garantindo o empate em 1 a 1.
Foi também depois desse jogo que Vini Jr. voltou a falar sobre a relação com Ancelotti, dizendo que o técnico "sempre me faz me adaptar o mais rápido possível à equipe" e que lhe dá "a importância que eu preciso e que mereço".
Contra o Haiti, balançou as redes na partida em que completou 500 jogos como profissional, além de dar uma assistência e participar do lance que originou o primeiro gol de Matheus Cunha.
Foi também o jogo do retorno de Neymar à seleção depois de mais de dois anos afastado por lesão. O camisa 10 entrou no segundo tempo, foi ovacionado pela torcida e teve seu nome cantado no aquecimento — mas quem comandou o setor ofensivo brasileiro, mais uma vez, foi Vini Jr.
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A própria presença de Neymar no banco — ainda em fase de retomar ritmo de jogo e questionado por boa parte da imprensa sobre se teria condições de ajudar a seleção neste Mundial — reforça o quanto o camisa 7 se tornou o trunfo ofensivo do Brasil: se em outros ciclos era Neymar quem desequilibrava os jogos, agora é em Vini Jr. que o Brasil encontra sua principal referência de decisão.
E é o próprio Neymar quem parece reconhecer essa mudança. Depois da vitória por 3 a 0 sobre a Escócia, o camisa 10 falou sobre o momento do companheiro: "Fico feliz pelo carinho da torcida, de todo mundo, mas mais feliz ainda por nossa equipe estar indo bem, muito feliz pelo momento do Vini."
Na partida, Vini Jr. marcou dois gols.
"Vini hoje é o nosso principal jogador e está numa fase incrível, vem nos ajudando, decidindo os jogos. Isso é importante para nós. Foi o que falei: agradeço por todo o carinho, estou muito contente. Agora é mata-mata, seguir vencendo para chegar no nosso objetivo final. Dá para jogar 200 minutos (risos)", disse Neymar.
A fala, vinda de quem por anos foi o nome mais importante da seleção, é talvez o sinal mais claro de que a torcida brasileira está testemunhando algo perto de uma passagem de bastão.
Para o comentarista e ex-futebolista Walter Casagrande, a mudança no protagonismo tem nome e sobrenome: "A mudança do jeito de jogar do Vinícius Jr na seleção se deu com a chegada de Carlo Ancelotti, que conhece bem o poder de decisão dele. Armou um esquema tático parecido com sua época de Real Madrid para deixar o Vini pronto para decidir o jogo sem se desgastar para ajudar na marcação."
"Sem dúvida o Vinícius Jr. é o principal jogador, o mais decisivo, e aquele que não só pode fazer a diferença como está fazendo nessa Copa do Mundo. Ele está nessa Copa no patamar das grandes estrelas da competição como Messi, Mbappé, Dembélé, Haaland, e obviamente o Vinícius Jr. faz parte dessa turma", disse ele à BBC News Brasil.
O jornalista Paulo Vinícius Coelho segue na mesma linha ao falar do papel do treinador italiano: "Carlo Ancelotti conhece o jogador do Real Madrid e o transformou no jogador mais livre do sistema tático. O que tem menos obrigações defensivas e que tem, por isso, mais chance de decidir jogos."
E reforça: "É o melhor jogador brasileiro da atualidade. Do elenco da seleção, o único eleito melhor do mundo e com a ambição de ser campeão mundial."
Vinícius Jr. participou diretamente dos quatro primeiros gols do Brasil no torneio — uma sequência que, segundo levantamento da própria FIFA, o coloca ao lado de nomes como Romário e Ronaldinho entre as participações em gols por Copa do Mundo.
O bom momento também tomou conta das redes sociais. Depois da vitória sobre a Escócia, que definiu o próximo jogo do Brasil para uma segunda-feira às 14h de Brasília, internautas começaram a compartilhar memes com a frase "você já agradeceu o Vini Jr. pela folga de segunda-feira?" e outros que comparam o camisa 7 a outros grandes nomes que já passaram pela equipe, como Ronaldinho.
É com essa campanha nas costas que ele chega ao jogo decisivo contra o Japão, nesta segunda-feira (29/06), na primeira partida do Brasil no mata-mata do torneio.
Na partida desta segunda-feira, a velocidade e a profundidade do ataque brasileiro vão se opor à organização defensiva e à intensidade física do time asiático.
Os números que sustentam o protagonismo
A marca histórica alcançada na vitória sobre o Haiti virou ponto de partida para entender o tamanho do que Vinícius Jr. construiu em menos de uma década de carreira: aos 25 anos, ele tem 500 jogos — algo raro para um atleta tão jovem, atingida nove anos e um mês depois da estreia pelo Flamengo, em 2017.
O jogador tinha na conta 156 gols e 98 assistências na carreira até a véspera do jogo contra o Haiti, além de 241 contribuições diretas para gols.
Pelo Flamengo, onde foi revelado, foram 69 jogos, 14 gols e 5 assistências antes da transferência para o Real Madrid. No total, 14 títulos conquistados, entre eles duas Champions League — nas finais em que participou, Vinícius Jr. marcou gols.

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A conexão com Ancelotti: o efeito que mudou sua carreira
Se hoje Vinícius Jr. é tratado como o principal nome do futebol brasileiro no Mundial, boa parte dessa transformação tem explicação: Carlo Ancelotti.
O atual técnico da seleção brasileira e o craque trabalharam juntos no Real Madrid entre 2021 e 2025, na segunda passagem do italiano pelo clube — foi nesse período que Vinícius Jr. deixou de ser ponta promissor para se tornar uma das principais referências do futebol europeu.
Em maio de 2025, Ancelotti assumiu a seleção, reencontrando o atacante agora também na camisa canarinho.
Antes da partida contra o Haiti — quando completou 500 jogos como profissional —, Vini somava 499 partidas na carreira, das quais cerca de 209 sob o comando de Ancelotti, entre Real Madrid e a seleção — ou seja, praticamente 4 em cada 10 jogos da carreira do atacante tiveram o italiano como técnico.
Sob Ancelotti e antes do jogo do Brasil contra o Haiti, Vini balançou as redes 96 vezes e deu 62 assistências, somando 156 participações em gols — mais da metade de toda a produção ofensiva da carreira do jogador até então.
A temporada 2023/24 é apontada como o auge dessa parceria: foi o ano em que Vini Jr. foi campeão da Champions League e eleito o The Best da FIFA, prêmio de melhor jogador do mundo.
Não é à toa que a expectativa em torno do Brasil na Copa de 2026 sempre passou por essa reedição: Ancelotti sabe, melhor do que ninguém, como extrair o máximo de Vinícius Jr.
O panorama do confronto
Com a artilharia na responsabilidade de Vini Jr. e a confiança em alta após uma fase de grupos tranquila, o Brasil chega como favorito nesta segunda-feira diante de um Japão que vem surpreendendo, mas que ainda não enfrentou um ataque do nível do brasileiro nesta edição da Copa.
O retrospecto histórico reforça esse favoritismo: em 14 confrontos entre as seleções, o Brasil venceu 11, empatou 2 e perdeu apenas uma vez, com 37 gols marcados contra 8 sofridos — um aproveitamento de 80%.
A única vitória japonesa, porém, é recente e ainda dói: aconteceu em outubro de 2025, em amistoso em Tóquio, já sob o comando de Ancelotti.
O Brasil chegou a vencer por 2 a 0 no primeiro tempo, com gols de Paulo Henrique e Gabriel Martinelli, mas viu o Japão buscar a virada em apenas 20 minutos da etapa final, com gols de Minamino, Nakamura e Ueda, fechando em 3 a 2 — a primeira derrota do Brasil para os japoneses na história dos confrontos entre as seleções, e um lembrete de que esse Japão do ciclo atual já provou ser capaz de complicar a vida da equipe de Ancelotti.
Sobre esse desafio, a defesa japonesa também é motivo de alerta.
"A equipe se fecha com linha de cinco zagueiros, mas ataca 3-4-2-1. Abrir a defesa exige drible e passes em profundidade. Não é fácil decidir partidas contra o Japão", disse o jornalista Paulo Vinícius Coelho à BBC News Brasil.
Casagrande pondera no mesmo sentido: "Eu acho que o jogo será perigoso, mas acredito que passaremos sim. Temos mais jogadores decisivos. Mas é um jogo de risco."
A pergunta que fica é: depois de ajudar a seleção em três jogos consecutivos, Vini Jr. vai continuar sendo o nome que decide o destino do Brasil rumo ao hexa?
Se o histórico recente serve de guia, a resposta parece óbvia. Mas é em campo, contra um adversário duro taticamente — e que já provou ser capaz de surpreender o Brasil de Ancelotti —, que o camisa 7 vai precisar provar de novo — pela quarta vez em quatro jogos — que carrega esse peso com naturalidade.



























