O ciberataque que esquentou geladeiras de supermercados na França, estragou alimentos e causou milhões em prejuízo

A Intermarché — uma das duas cadeias de supermercados afetadas — tem mais de 2.000 lojas em toda a França, mas apenas uma parte delas foi alvo de ataques cibernéticos, segundo relatos.
    • Author, Ian Aikman
    • Author, Hugh Schofield
    • Role, Da BBC News em Paris
  • Published
  • Tempo de leitura: 4 min

Centenas de supermercados franceses foram atingidos por um ataque cibernético que causou o aquecimento de suas geladeiras e congeladores, estragando alimentos frescos e congelados avaliados em milhões de euros.

Hackers obtiveram controle do software que regula a temperatura das unidades de refrigeração, fazendo com que algumas delas aquecessem a 50°C durante a noite, de acordo com uma rede de supermercados afetada.

O diretor executivo da Coopérative U afirmou que vários de seus supermercados foram atingidos pelo ataque "extremamente grave e sem precedentes".

Mais de 100 supermercados da rede foram alvo do ataque, enquanto 180 lojas do Intermarché e da sua marca Netto também foram afetadas. Um porta-voz afirmou que outras 100 lojas foram urgentemente desconectadas da internet para evitar que o mesmo acontecesse com elas.

Outras grandes redes de supermercados, incluindo Carrefour, Monoprix e E.Leclerc, também foram atingidas pelo ataque, que teve como alvo um software fornecido pela empresa de engenharia dinamarquesa Danfoss.

O software permite que os varejistas gerenciem suas unidades de refrigeração remotamente.

Normalmente, os congeladores de supermercado passam por um curto período de descongelamento durante a noite, no qual as temperaturas sobem ligeiramente.

Mas os hackers ordenaram que as unidades aquecessem e permanecessem quentes, embora a Danfoss não tenha confirmado nenhum relato sobre a temperatura que os refrigeradores e congeladores poderiam atingir nesse processo.

A Danfoss afirmou que as unidades refrigeradas afetadas eram modelos mais antigos, cujo software de segurança não pôde ser atualizado para evitar um risco que haviam identificado.

A empresa acrescentou em comunicado que "há muito tempo aconselha" as empresas a manterem os sistemas suportados atualizados.

"A refrigeração confiável é fundamental para as operações."

Centenas de lojas afetadas

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A dimensão total do ataque ainda não está clara, mas os números fornecidos por cada rede de lojas indicam que cerca de 400 lojas foram afetadas, de um total aproximado de 15 mil na França.

O Carrefour informou que os sistemas de refrigeração de 80 de suas 6 mil lojas foram comprometidos por hackers, enquanto o Monoprix disse que 5% de suas mais de 400 lojas foram afetadas, com os alimentos retirados de venda caso não fosse possível garantir sua integridade.

Em comunicado à BBC, o Grupo Mousquetaires — proprietário das redes Intermarché e Netto — informou que alguns balcões refrigerados de produtos frescos e congelados permaneceram fora de serviço na tarde de segunda-feira.

As lojas "tomaram todas as precauções necessárias para remover os produtos dessas unidades", disseram, acrescentando que os funcionários estavam trabalhando para reabastecer as prateleiras "o mais rápido possível".

A rede varejista Intermarché informou que suas geladeiras atingiram temperaturas de até 50°C durante seis horas na madrugada de segunda-feira, e que todos os alimentos afetados foram descartados para evitar riscos à saúde, segundo a agência de notícias Reuters.

Em consequência do ataque, os gerentes que chegavam às filiais de diversas redes de supermercados na manhã de segunda-feira foram atingidos por uma onda de ar quente proveniente dos congeladores. Em alguns locais, ocorreram até pequenos focos de incêndio.

A emissora francesa BFMTV publicou uma imagem mostrando um freezer na seção de sorvetes de uma loja, exibindo uma temperatura de 26,5°C.

A emissora acrescentou que dois supermercados na região da Alsácia relataram prejuízos de 270 mil euros (R$ 1,5 milhão) no total, o que significa que o prejuízo em todo o país pode chegar a milhões.

A Procuradoria francesa abriu uma investigação específica sobre crimes cibernéticos em relação ao incidente, que o Ministério Público de Paris classificou como um "ataque cibernético em larga escala que afetou os refrigeradores de várias grandes redes de supermercados em toda a França".

O Comissário Europeu para a Alimentação, Christophe Hansen, condenou o ataque cibernético em publicação no X e acrescentou: "A segurança alimentar exige mais atenção a todos os níveis. Porque a utilização do abastecimento alimentar como arma já é uma realidade."

Em uma publicação no X, o diretor executivo da Coopérative, Dominique Schelcher, afirmou que a equipe estava "totalmente mobilizada, em coordenação com especialistas em refrigeração, para restabelecer a situação o mais rápido possível".

Ele pediu uma investigação sobre o ataque cibernético e afirmou que atacar equipamentos essenciais para o abastecimento alimentar francês era "inaceitável".