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'Frio como gelo': o serial killer que confessou 8 assassinatos em onda de crimes que aterrorizou Nova York por anos
- Author, Madeline Halpert
- Reporting from, Long Island
- Tempo de leitura: 8 min
Uma saga de décadas chegou ao fim em um tribunal do condado de Suffolk, no Estado de Nova York, nos Estados Unidos, na quarta-feira (8/4), quando um homem de quase 2 metros de altura, vestido com terno preto e gravata azul, ficou diante de um juiz e confessou os detalhes brutais do assassinato de oito mulheres.
Rex Heuermann se manteve impassível ao confirmar ao juiz Timothy Mazzei que havia estrangulado e amarrado todas as vítimas da mesma forma, antes de abandonar seus restos mortais em praias isoladas de Long Island.
Ele respondeu "sim" à maioria das perguntas do juiz sobre os seus crimes, sem olhar para a sala do tribunal, lotada de familiares das vítimas, alguns dos quais tentavam conter o choro.
As famílias das mulheres esperaram por mais de uma década, já que as investigações levaram anos para esclarecer os assassinatos que assombraram muitos moradores da região.
"Muita gente falava sobre isso, não era um tabu", disse Sandra Symon, colega de escola de Heuermann, em entrevista à BBC. "Todo mundo tinha uma teoria."
Essas teorias chegaram ao fim em 2023, quando a polícia prendeu Heuermann, pai de dois filhos, casado, que vivia no tranquilo subúrbio de Massapequa Park, na casa deteriorada onde passou a infância.
O arquiteto de 62 anos foi preso pela polícia do condado de Suffolk, que cercou seu escritório em Midtown Manhattan depois de ligá-lo aos crimes por meio de DNA encontrado em uma caixa de pizza.
Heuermann foi inicialmente acusado pelos assassinatos de sete mulheres, mas, na quarta-feira, se declarou culpado por um homicídio adicional ocorrido em 1996. Embora muitas das vítimas tenham permanecido desaparecidas por anos, o caso veio à tona em 2010, quando investigadores encontraram quatro conjuntos de restos mortais a menos de 400 metros uns dos outros na praia Gilgo Beach.
Após inicialmente se declarar inocente, Heuermann acabou admitindo os assassinatos de Melissa Barthelemy, 24, Megan Waterman, 22, Amber Costello, 27, Maureen Brainard-Barnes, 25, Jessica Taylor, 20, Valerie Mack, 24, Sandra Costilla, 28, e Karen Vergata, 34.
Acredita-se que todas as vítimas de Heuermann eram profissionais do sexo na época de suas mortes, algumas delas contatadas por ele por meio de anúncios publicados no site de classificados Craigslist.
Na audiência de quarta-feira, Heuermann apresentou poucos detalhes novos sobre os crimes, se limitando a confirmar ao juiz que as atraía com a promessa de dinheiro e, em seguida, as assassinava e desmembrava antes de abandonar seus restos mortais na praia.
Ele disse poucas palavras além de "estrangulamento", quando questionado sobre como as matou, e "culpado", ao formalizar suas novas declarações.
"Não havia um pingo de remorso no rosto daquele homem", afirmou John Ray, advogado das famílias das vítimas, após a audiência. "Ele estava frio como um gelo."
Heuermann recebeu várias sentenças de prisão perpétua, que vão ser formalmente fixadas em 17 de junho.
Durante a breve audiência, sua ex-mulher, Asa Ellerup, acompanhou tudo ao fundo da sala, sem demonstrar expressão e vestida de preto, ao lado da filha do casal, que segurava lenços de papel nas mãos.
Do lado de fora do tribunal, Ellerup disse que seus pensamentos estavam com as famílias das vítimas e descreveu a perda como "imensurável".
'Você não conhece ninguém': bairro enfrenta a revelação de um assassino
Na pequena vila de Massapequa Park, em Long Island, com cerca de 18 mil habitantes, bandeiras dos EUA enfeitam as ruas cercadas por dezenas de casas bem cuidadas, algumas com barcos estacionados na garagem.
Mas, para muitos moradores, uma casa sempre chamou a atenção: a residência deteriorada, com venezianas vermelhas e janelas com molduras verdes, que fica a apenas um quarteirão da casa de Joe, que se mudou para o bairro com a então esposa em 1995.
"[A casa] não combina com a vizinhança, mas o que se pode fazer?", disse Joe, que preferiu não revelar o sobrenome por motivos de privacidade. "Você nem pensa muito nisso."
Antes considerada um incômodo no bairro, a casa onde Heuermann passou a infância agora atrai a imprensa e fãs de true crime (crime real, em tradução livre).
Na noite anterior à audiência em que ele formalizaria sua confissão, o local voltou a ser cercado por repórteres, enquanto sua ex-mulher, Asa Ellerup, e os filhos do casal falavam com a imprensa ao lado do advogado, respondendo a uma ação por morte indevida movida por um familiar de uma das vítimas.
Após a prisão de Heuermann, a mulher e os dois filhos permaneceram na casa, chegaram até a fazer churrasco na varanda, mesmo com curiosos reunidos no gramado em frente.
Com a audiência de Heuermann se aproximando, o restante da cidade parecia disposto a seguir em frente. Os moradores disseram à BBC que, tirando menções ocasionais na imprensa, já não pensam no assassino em série que viveu entre eles.
"Não é mais manchete", disse Joe. "A sociedade americana tem memória curta."
"Eu sei quem são os meus vizinhos aqui, mas, para ser sincero, você não conhece ninguém."
Uma confissão após anos de silêncio
Embora a confissão de culpa de Heuermann na quarta-feira tenha trazido algum alívio para familiares e amigos das vítimas, muitos afirmam que ela deveria ter acontecido anos atrás.
A polícia investigou as mortes por mais de uma década e já tinha uma pista que, quando finalmente foi explorada, levou ao suspeito em poucas semanas.
Familiares das vítimas alegam que houve falta de empenho das autoridades porque as mulheres assassinadas eram profissionais do sexo, citando o fato de policiais frequentemente se referirem a elas como "prostitutas". Alguns moradores de Long Island concordam, dizendo ter ficado chocados com o tempo que levou para que a justiça fosse feita.
"Elas não valem menos por terem feito o que precisavam fazer", disse Ellen Munoz, moradora de uma cidade vizinha que acompanhou a audiência de Heuermann.
O Departamento de Polícia do Condado de Suffolk não envolveu inicialmente investigadores federais no caso, e os líderes da investigação enfrentaram escândalos paralelos.
O ex-chefe de polícia James Burke, que supervisionava o caso, foi preso em 2015 e posteriormente condenado por acusações que incluíam obstrução de justiça.
O caso também levou à queda de Thomas Spota, promotor do condado de Suffolk de 2002 a 2017, que também comandou a investigação em Gilgo Beach, onde foram encontrados os restos mortais.
Em 2022, sob nova liderança, a polícia do condado criou uma força-tarefa para investigar os assassinatos, envolvendo autoridades federais e locais, o que levou até Heuermann em seis semanas.
Os investigadores agiram com base na descrição de um suspeito fornecida em 2010 por um colega de quarto de uma das vítimas, Amber Costello, após um desentendimento dela com um cliente. O colega de quarto, Dave Schaller, descreveu o homem como alguém de grande porte que, segundo ele, parecia "um ogro", e que dirigia um Chevrolet Avalanche de primeira geração, um veículo incomum.
A partir dessa pista, os investigadores chegaram a Heuermann. Em seguida, analisaram celulares descartáveis usados para contatar as vítimas, dados de torres de celular e cabelos encontrados nos corpos das vítimas, que foram associados ao DNA presente em uma caixa de pizza descartada por ele. Em seu porão, segundo a polícia, também foram encontradas outras evidências, incluindo instruções que ele próprio escreveu sobre como cometer os crimes em seu computador.
Mistérios de Long Island persistem
Apesar da confissão dos homicídios por Heuermann, muitas perguntas permanecem sem resposta para as famílias das vítimas e para o público.
Os corpos das quatro mulheres foram encontrados enquanto as autoridades buscavam os restos mortais de outra mulher — Shannan Gilbert — que ligou para a polícia em uma noite de maio de 2010, gritando que "eles" estavam tentando matá-la.
Eileen Coletti Edwards esteve no tribunal na quarta-feira representando seu pai, que deixou Gilbert entrar em sua casa em Oak Beach depois que ela bateu à porta na noite em que desapareceu. Ele tentou chamar a polícia, mas Gilbert fugiu.
"Ele tinha esperança de que ela tivesse escapado e estivesse escondida", disse Coletti Edwards, cujo pai morreu antes da prisão de Heuermann.
A polícia afirma não acreditar que Heuermann tenha matado Gilbert e considera que sua morte provavelmente foi acidental, causada por afogamento ou outras condições perigosas no pântano onde ela foi encontrada.
Benjamin Torres, filho de Valerie Mack, entrou com uma ação civil por indenizações contra Heuermann e sua família, na tentativa de obter parte dos recursos que a família estaria recebendo por um documentário do qual estão envolvidos.
Ray, advogado de Torres, destacou que Ellerup, esposa de Heuermann, chamou o marido de "herói" após sua prisão, mesmo durante o processo de divórcio. A polícia sustenta que não há indícios de envolvimento da família nos crimes.
Na terça-feira, em frente à casa da família em Massapequa Park, o advogado de Ellerup reiterou que eles não tiveram qualquer participação.
Alguns moradores se perguntam se as terras de Long Island ainda guardam mais segredos.
Durante o verão, Symon, que estudou no ensino médio com Heuermann, está entre as pessoas que saem para velejar todos os domingos até Hemlock Cove, um ponto popular de ancoragem próximo de onde Heuermann abandonou os restos mortais de suas vítimas.
Às vezes, há quem brinque sobre pegar binóculos para ver se há mais corpos escondidos no pântano próximo. Symon, porém, diz pensar o tempo todo nas mulheres encontradas ali.
"Como você pode não pensar nelas?", afirmou. "Foi algo terrível, assustador."