Veja as estimativas de intenção de voto no Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil
Lula amarra apoio do Centrão no Congresso, mas isso garante votos na eleição?

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Nas eleições deste ano, o Centrão decidiu ficar na arquibancada. O bloco informal, formado por partidos de centro-direita que costumam apoiar diferentes governos em troca de verbas e cargos, não lançou nenhuma candidatura à Presidência, a despeito dos 13 nomes que disputarão o pleito.
Fazendo suspense até o último dia de registro de candidaturas, os principais partidos que compõem o bloco — MDB, Progressistas (PP), Republicanos, União Brasil e Podemos — decidiram liberar seus diretórios para apoios regionais, mantendo-se neutros em relação às candidaturas presidenciais.
A decisão, dizem especialistas, já era um pouco esperada. "Esses partidos não têm um projeto político nacional claro e convencer o eleitor a votar neles é mais difícil", explica Cláudio Couto, cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que se refere ao bloco como "partidos de adesão". "A lógica é aderir aos governos, desde que bem recompensados com verbas e cargos."
Talvez a única exceção nessa decisão de não disputar a Presidência neste ano seja o PSD, de Gilberto Kassab, que lançou Ronaldo Caiado.
Por isso, causou estranheza ao eleitorado a fala de Kassab — vice de Caiado — há duas semanas.
"Os partidos do Centrão não estão apoiando o Caiado, estão com Lula (PT)", disse ele, em evento fechado com empresários. Kassab também afirmou que a chance de Flávio Bolsonaro (PL) se eleger é "zero". "Não tem a menor chance", afirmou.
Segundo admitiu à BBC News Brasil uma pessoa de dentro da campanha do PSD, a fala de Kassab foi "uma verdade inconveniente".
"Não poderia ter sido dito, mas é verdade", afirmou, sob anonimato.
Fim do Promoção Agregador de pesquisas
Para embolar ainda mais esse meio de campo, Kassab sempre rejeitou o rótulo de Centrão, contrariando quem estuda esse campo político.
"Eu acho que o PSD talvez seja mais Centrão do que qualquer outro", afirma Couto.
Seja como for, a fala de Kassab se alinhou a um movimento favorável a Lula no xadrez eleitoral. Ao menos em relação a apoios.
Após meses de estremecimento, a relação entre Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), parece ter voltado ao compasso.
O senador deu encaminhamento em cinco propostas tidas como fundamentais para a campanha de Lula: a que prevê o fim da escala 6x1, o incentivo a data centers, a Medida Provisória (MP) que mantém a isenção da chamada Taxa das Blusinhas, a PEC da Segurança Pública e a que cria a Polícia Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, tema repetido exaustivamente pelo petista em seus últimos discursos.
Na ocasião, Alcolumbre disse, por meio de nota, que teve um "diálogo maduro, franco e republicano" com Lula. E que a conversa foi "fundamental para compreender as prioridades do governo e tratar da agenda legislativa de interesse do nosso país".
O governo agora corre contra o relógio para que a proposta de redução da jornada 6x1, uma das vitrines da campanha, comece a tramitar nesta semana, a tempo de ser votada antes das eleições.
O relator da proposta, o senador Omar Aziz (PSD-AM), disse na quinta-feira (27/8) que finalizou seu parecer e rejeitou emendas que, se aprovadas, atrasariam a tramitação porque o projeto teria que voltar à Câmara. Com isso, o texto foi liberado para deliberação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).
A conversa entre o presidente e Alcolumbre foi seguida de novos acenos, quando o senador elogiou Lula durante um evento em Oiapoque (AP) que celebrou a descoberta de petróleo na margem equatorial do Amazonas.
"[Vou] dizer ao senhor, presidente Lula, na minha condição de amapaense e de presidente do Congresso Nacional: muito obrigado pela defesa que o senhor fez ao longo dos últimos três anos e meio, enfrentando tudo e todos, para defender que este projeto chegasse no dia de hoje com essa descoberta feita pela Petrobras", afirmou.

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A cortesia de Alcolumbre mostra que o petista saiu da geladeira — ao menos por ora — depois da crise estabelecida em abril com a rejeição do Senado ao nome de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF).
A rejeição inédita na história da República parece ser águas passadas.
Na semana passada, Lula se reuniu com Alcolumbre e Hugo Motta para tentar destravar mais pautas que considera prioritárias para seu governo.
Após o encontro, diversas medidas que interessavam ao Planalto voltaram a tramitar.
A instalação da comissão mista para analisar a Taxa das Blusinhas foi antecipada e ocorreu na sexta-feira (28/8).
A MP que mantém isenção de imposto de importação para compras internacionais de até US$ 50 turbinou o pacote eleitoral de Lula, e sua manutenção é considerada um elemento importante nesta reta final da campanha. A votação da medida provisória pode ocorrer nesta terça.
Também pode ser apreciada no mesmo dia a proposta que estabelece benefícios fiscais para empresas que instalem ou ampliem data centers no Brasil.
A PEC da Segurança Pública entrou na pauta de quarta-feira (2/9) da Comissão de Constituição e Justiça do Senado (CCJ), que tem como primeiro item o fim da escala 6x1. As propostas podem ir ao plenário se forem aprovadas.
Por fim, a Política Nacional de Minerais Críticos pode ser votada em plenário ainda nesta quarta.
Bloco dividido
O PT está coligado com o União Brasil de Alcolumbre em apenas um Estado: justamente o Amapá do presidente do Senado. Ali, o partido de Lula formou uma federação com PCdoB e PV que faz aliança com a candidatura à reeleição do governador, Clécio Luís (União).
Da mesma forma, o PT está com o Progressistas e o Republicanos na Paraíba. Ali, o partido de Lula se juntou ao Centrão para tentar reeleger o governador Lucas Ribeiro (PP), e Nabor Wanderley (Republicanos) — pai do presidente da Câmara, Hugo Motta — ao Senado.
"Tanto Alcolumbre quanto Hugo Motta estão olhando o teto e seus interesses regionais", afirma o cientista político e professor da EAESP-FGV Marco Antonio Carvalho Teixeira. Apesar de os índices de rejeição de Flávio e Lula serem parecidos e girarem em torno de 50%, Teixeira afirma que Flávio tem um teto menor de crescimento.
"Flávio mostra menor capacidade de voo. Isso levou o Kassab a falar da impossibilidade da eleição dele."
Mas, para embaralhar ainda mais o cenário, os acenos e acomodações do Centrão não significam que o bloco está com Lula. "Quem está falando são os líderes, não é o Centrão como conjunto", ressalta Teixeira. "As falas das lideranças não mudam os movimentos regionais."
O Republicanos, de Hugo Motta, reflete bem a ressalva feita por Teixeira. Nacionalmente, o partido optou pela neutralidade, apesar dos esforços do governador de São Paulo e candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas, por um apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro.
Apenas um diretório, o de Pernambuco, optou pelo apoio ao PT, aliando-se ao PSB como vice da candidatura de João Campos ao governo.
Os demais diretórios ou mantiveram a neutralidade ou apoiaram o PL, como em Santa Catarina, com a candidatura de Jorginho Mello à reeleição para o governo do Estado.
Ao mesmo tempo, o primeiro compromisso de campanha de Flávio em Alagoas, na semana passada, não teve a presença de Arthur Lira (Republicanos-AL). O ex-presidente da Câmara ainda é tido como grande articulador político e sua ausência foi bastante noticiada pela imprensa.
"O Centrão como conjunto está dividido", diz Teixeira. Isso porque muitas coisas estão em jogo. Além dos interesses regionais e da potencial vitória de Lula ou Flávio, tanto Alcolumbre quanto Hugo Motta estão de olho em suas próprias reeleições, no início do ano que vem.

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Por isso, para Teixeira, é possível que as cartas estejam mais bem posicionadas depois do primeiro turno. Alguns Estados-chave, como São Paulo e Santa Catarina, podem ter a eleição resolvida já em 4 de outubro, dado que tanto Tarcísio de Freitas quanto Jorginho Mello (PL) têm chances de serem reeleitos no primeiro turno.
Não havendo palanque para compor depois disso, os diretórios ficarão menos amarrados. "Aí sim Kassab terá um grande peso, porque o PSD tem o peso das prefeituras", diz Teixeira. Nas eleições municipais de 2024, o PSD de Kassab desbancou o MDB e conquistou a maioria das cidades do país.
Como surgiu o Centrão?
O Centrão surgiu durante os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte, entre 1987 e 1988. Naquele momento, parlamentares da direita e da centro-direita se uniram em um bloco suprapartidário, autodenominado "centro-democrático", com o intuito de barrar algumas propostas da esquerda.
Claudio Couto lembra da frase proferida pelo deputado federal Roberto Cardoso Alves, do então PMDB paulista, naquela época: "É dando que se recebe", disse ele, citando trecho da Oração de São Franciso de Assis, que integra a tradição católica.
Já na liturgia do Centrão, a frase traduz o pragmatismo do grupo desde a sua origem. "Ao longo do tempo, para dar e receber, abriu-se mão da questão ideológica", afirma Couto. "Embora agora, com o orçamento do Congresso, essa adesão seja menos necessária."
Neste ano, R$ 61 bilhões foram destinados às emendas parlamentares. O valor representa quase um quarto do orçamento total dos recursos que o governo tem para administrar livremente, por meio de ministérios, na forma de investimentos, infraestrutura e outros projetos.
Na última década, o valor destinado às emendas vem subindo gradativamente, ganhando força no período de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Foi também naquela época que o centrão ganhou força, sob o comando do então presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha, hoje no Republicanos, na época no MDB.
As emendas parlamentares tornaram-se ponto central na discussão sobre os rumos do Centrão. "A mudança do peso relativo entre o Congresso e o Executivo alterou a lógica desta eleição", afirma Couto.
"Com esse acesso garantido aos recursos hoje, esses partidos conseguem se dar ao luxo de serem mais ideológicos do que foram no passado. O Centrão era uma direita pragmática, mas agora ficou mais ideológico."

























