Trump quer pressionar o Irã com novas sanções, mas líderes do país apostam em outro desfecho

Outdoor em Teerã, mostrando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e uma mulher andando em frente, no dia 25 de agosto de 2026

Crédito, Anadolu via Getty Images

    • Author, Amir Azimi
    • Role, Editor, BBC News Persa
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  • Tempo de leitura: 6 min

Os Estados Unidos afirmam ter lançado uma "investida econômica contra as conexões financeiras do Irã em todo o mundo".

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, declarou que as sanções incluem ativos digitais, tecnologia, ouro, aviação e navegação e que qualquer nação que se associar financeiramente ao Irã ficará isolada.

Mas o anúncio de Bessent, denominado por ele como "Dia D econômico", pode ter soado mais dramático em Washington do que em Teerã.

Pouco antes do anúncio, o ministro da Economia do Irã, Ali Madanizadeh, chamou a medida de "a mesma velha conversa" e declarou que seu país está pronto para "qualquer cenário".

Madanizadeh destacou que Teerã já esperava as medidas e tem planos para enfrentá-las.

A reação coloca em evidência a principal questão que provavelmente os líderes iranianos estão se fazendo: o que os Estados Unidos podem fazer agora que ainda não tenham tentado antes?

Bessent ameaçou impor sanções secundárias mais amplas contra países, bancos e empresas que continuarem fazendo negócios com o Irã. Mas a política básica não é nova.

O Irã enfrenta sanções americanas há anos. Elas incluem penalizações contra empresas estrangeiras que negociam com o país.

O importante para Teerã é se Washington pode impor sanções mais amplas do que já fez anteriormente.

O bloqueio americano já fez diferença. A medida reduziu a capacidade do Irã de exportar por via marítima a mesma quantidade de petróleo comercializada anteriormente — e também dificultou a importação de mercadorias e equipamentos.

O Irã detém extensas fronteiras terrestres com sete países e tem anos de experiência em usar essa geografia para driblar as sanções. Mas as vias terrestres não substituem facilmente o comércio marítimo, especialmente as exportações de petróleo.

Por isso, a pressão pode se agravar muito mais se Washington conseguir fechar os canais que sobreviveram às sanções anteriores, principalmente em relação à China e aos países vizinhos do Irã.

Mas este é um grande desafio. O Ministério das Relações Exteriores da China declarou nesta terça-feira (25/8) que se opõe firmemente às sanções, consideradas ilegais por Pequim.

Mulher vestindo camisa branca e lenço rosa carrega sacolas de compras no braço esquerdo em meio a um mercado, onde há roupas penduradas e outros clientes caminhando

Crédito, EPA

Legenda da foto, Os iranianos vêm sentindo o impacto da guerra ao longo dos dias

Se as sanções não produzirem o efeito esperado, o anúncio de Bessent poderá fortalecer os iranianos que se opõem a um acordo com os Estados Unidos. Eles poderão defender que Washington retomou as pressões econômicas porque suas opções são limitadas.

Uma nova campanha militar traz seus riscos e anos de sanções não conseguiram forçar o Irã a aceitar as exigências americanas. Washington também manteve pouco espaço para a diplomacia.

O Paquistão e outros mediadores ainda tentam retomar as negociações, mas os Estados Unidos não descartaram novos ataques. A retomada das ameaças poderá enfraquecer as autoridades iranianas que defendem o acordo.

'Só consigo comprar carne com cupom de subsídio do governo'

O Irã já enfrentava graves problemas antes da guerra, com a inflação em alta e sua moeda se enfraquecendo rapidamente. Esses problemas se agravaram ainda mais após o início dos combates, com os ataques aéreos dos Estados Unidos e Israel no último dia 28 de fevereiro.

A desvalorização da moeda iraniana, o rial, traz graves e amplas consequências. As importações ficam mais caras, as empresas enfrentam dificuldades de planejamento e o dinheiro das pessoas perde valor.

As restrições às exportações de petróleo também reduzem o acesso do governo à moeda estrangeira.

Negin (nome fictício) é uma mulher de 34 anos. Ela afirma que sua renda mensal, agora, equivale a cerca de US$ 100 (cerca de R$ 515).

"Não vou ao cinema, teatro, nem shows", conta ela à BBC. "Não compro presentes para ninguém. Não vou a festas de aniversário."

"Só consigo comprar carne com o cupom de subsídio do governo; se não tivesse, não poderia comprar."

Mona é uma dona de casa com dois filhos. Ela conta que seu marido não consegue trabalho desde o início da guerra.

"Estamos assustados, especialmente após as sanções que começaram ontem", segundo ela. "Desde o início da guerra, meu marido não voltou a trabalhar. Ele costumava trabalhar em navios."

"Estamos tentando administrar nossas despesas da melhor forma possível, mas certamente precisamos cortar todos os gastos extras e pequenos luxos", lamenta Mona.

Pessoas andando pelas ruas de Teerã em um dia de céu nublado no mês de julho

Crédito, Anadolu via Getty Images

O Irã talvez acredite que o tempo corre contra o presidente Trump.

Novas paralisações no Estreito de Ormuz podem elevar ainda mais os preços do petróleo e da gasolina, aumentando a inflação nos Estados Unidos e criando um problema político, antes das eleições americanas de meio de mandato, em novembro.

Com isso, Teerã tem uma data clara a observar, mas depender das eleições americanas é uma aposta. Até lá, a economia iraniana poderá ficar muito enfraquecida.

Depois das eleições, existe um novo problema. Como Trump não busca a reeleição em 2028, seu governo pode sentir mais liberdade para prosseguir confrontando o Irã e aceitar os custos.

Ou seja, o Irã olha para dois relógios. Um deles é político e marca o tempo em Washington. O outro é econômico e fica dentro do Irã.

A cada mês de redução das exportações de petróleo, interrupção do comércio e pressão sobre o rial, os custos da espera por um acordo para o fim da guerra aumentam.

Esta situação deixa os líderes iranianos com uma escolha difícil. Fazer concessões agora pode parecer uma rendição sob pressão e fortalecer os políticos linha-dura, que afirmam que Washington irá simplesmente aumentar suas exigências.

Aguardar pode melhorar a posição do Irã, se a estratégia de Trump gerar problemas políticos ou econômicos. Mas Teerã também poderá acabar negociando mais tarde com sua economia enfraquecida.

E grande parte também depende do que acontecer fora do Irã.

Se os bancos chineses, parceiros de comércio regionais e empresas começarem a se afastar por acreditarem que Washington irá puni-los, a campanha de Bessent pode alterar os cálculos de Teerã.

Caso contrário, pode acontecer o oposto. Os iranianos que rejeitam um compromisso dirão que Washington jogou outra carta supostamente decisiva, sem alterar o equilíbrio, e que o Irã deve continuar esperando ou resistir.