'Enquanto meu pai não disser onde está o corpo da minha mãe, ele não deve sair da prisão'

Uma mulher está sentada, olhando para a câmera com o queixo apoiado nos punhos cerrados. Ela está com um leve sorriso no rosto. Tem cabelos castanho-escuros cacheados e veste um suéter verde-escuro. Atrás dela, há um muro de pedra com algumas plantas verdes crescendo nele e, mais atrás, uma casa branca.

Crédito, Foto da família

Legenda da foto, Linda Razzell desapareceu a caminho do trabalho em Swindon, em 2002
    • Author, Will Glennon
    • Reporting from, Wiltshire
    • Author, Madeleine Ware
    • Author, Sarah Turnnidge
  • Published
  • Tempo de leitura: 6 min

"Gostaríamos de poder dar a ela um enterro digno, lhe proporcionar a dignidade que merece e, finalmente, poder dizer que tudo acabou."

Cat Razzell está falando sobre sua mãe, Linda, que desapareceu a caminho do trabalho em Swindon, uma cidade no sudoeste da Inglaterra, em março de 2002, quando Cat tinha apenas 13 anos.

Linda estava em processo de divórcio do pai de Cat, Glyn Razzell, que mais tarde foi condenado pelo assassinato dela e sentenciado à prisão perpétua.

Ele nunca revelou o que aconteceu com Linda e nenhum vestígio dela jamais foi encontrado.

Por quase um quarto de século, sua família ficou sem respostas, sem poder vivenciar o luto adequadamente ou sequer realizar um funeral.

O caso está agora sob nova análise depois de a Comissão de Liberdade Condicional ter decidido, em abril, que Glyn poderia ser solto. A decisão foi então encaminhada ao Supremo Tribunal britânico, e uma audiência de dois dias foi marcada para a próxima semana.

Cat acredita que seu pai não deve ser solto até que admita o que fez e revele onde está o corpo de sua mãe.

Foto de Cat Razzell, retrato de busto. Ela olha diretamente para a câmera. Seus cabelos escuros estão presos para trás. Ela veste uma blusa creme com bordado inglês e brincos compridos. Atrás dela, ligeiramente desfocado, vê-se um cômodo – possivelmente uma cozinha.
Legenda da foto, Cat Razzell tinha apenas 13 anos quando sua mãe foi assassinada por seu pai

Razzell, natural de Somerset, no sudoeste da Inglaterra, solicitou liberdade condicional quatro vezes. Quando seu pedido foi negado em 2021, ele se tornou o primeiro prisioneiro a ter a liberdade condicional negada sob a Lei de Helen.

A lei exige que a Comissão de Liberdade Condicional leve em consideração a recusa do assassino em revelar onde escondeu o corpo da vítima.

O tribunal constatou que Razzell também continuou contribuindo para um site, facilmente encontrado online, no qual ele alega ser inocente.

Cat e seus irmãos estavam entre os que compareceram ao tribunal para argumentar que seu pai não deveria ser libertado da prisão.

Cat disse à BBC News que ela e seus irmãos não desejam que o pai morra atrás das grades, mas não acham que ele deva ser libertado até que admita o que fez à mãe deles e diga onde está o corpo dela.

"Enquanto ele se recusar a admitir o que fez a ela e, por consequência, o que fez a nós, o impacto desse crime continuará", disse ela.

"Não acreditamos que alguém disposto a fazer isso mereça ser libertado."

Uma mulher está sentada em uma cadeira rodeada por seus quatro filhos. A mulher sorri para a câmera. As quatro crianças olham para fora do enquadramento. A mais nova está sentada em seu colo.

Crédito, Foto da família

Legenda da foto, A família de Linda percebeu que ela estava desaparecida quando ela não foi buscar dois de seus quatro filhos na atividade extracurricular

Linda tinha 41 anos quando desapareceu a caminho do trabalho.

A polícia foi alertada quando ela não foi buscar seus dois filhos mais novos em uma atividade extracurricular no final do expediente.

Linda e Razzell estavam em processo de divórcio na época, e Linda havia ido a um banco local com uma ordem judicial para bloquear as contas dele na semana anterior ao seu desaparecimento.

Embora seu corpo nunca tenha sido encontrado, a polícia descobriu evidências forenses - incluindo vestígios de seu sangue - no porta-malas de um carro que o pai de Cat havia usado.

Cat disse que guarda muitas lembranças felizes de sua mãe, a quem descreveu como uma pessoa "incrivelmente carinhosa e generosa".

"Ela sempre se esforçava ao máximo", disse ela.

"Ela confeccionava minhas fantasias e sempre preparava nossos bolos de aniversário."

"[Ela era] simplesmente uma pessoa atenciosa e carinhosa."

Linda sorri sentada em um sofá enquanto segura sua filha bebê, Cat. Ela tem cabelos escuros e veste um cardigã branco e azul. Cat usa um suéter branco, shorts vermelhos e meias azuis compridas.

Crédito, Foto da família

Legenda da foto, Cat, retratada aqui com Linda, descreveu sua mãe como "incrivelmente carinhosa"

Perder não apenas um, mas os dois pais, foi "traumático" para Cat e seus três irmãos mais novos, deixando-os "completamente perplexos" com o que havia acontecido, disse ela.

"Quando você é criança, o que você precisa é que seus pais lhe digam que está tudo bem", disse ela.

"Quando se trata de uma situação causada pelo seu próprio pai, é incrivelmente difícil de assimilar."

"Passei muito tempo tentando entender e muito tempo sem pensar nisso porque era muito difícil."

'Tanta infelicidade'

Cat disse que, embora muitos adolescentes evitem passar tempo com os pais, ela sabe o quão solitário é não ter os pais por perto.

Ela disse que ela e seus irmãos sentiram "muita infelicidade" durante as importantes fases da vida que se seguiram ao desaparecimento de sua mãe e à condenação de seu pai.

"Tudo fica contaminado com a perda", disse ela.

"Casamentos... há uma ausência notável aí, formaturas - esses grandes eventos."

"Mas também, no dia a dia, ter aquela coisa simples de ir jantar na casa dos seus pais."

"É uma ausência muito, muito perceptível para todos nós e é difícil."

Razzell saiu do tribunal sentado em um carro, usando óculos escuros. Ele está olhando fixamente para a frente e não está sorrindo.

Crédito, PA

Legenda da foto, Razzell foi condenado à prisão perpétua em 2003 pelo assassinato de sua esposa

Durante a audiência desta semana, o promotor Tristan Jones KC disse que Razzell - que atualmente está em um presídio de regime semiaberto - estava "cumprindo as condições" e participou de 20 sessões com um psicólogo.

Mas ele também descreveu Razzell como um "indivíduo profundamente enganador" que realizou uma "campanha de violência" contra Linda.

O tribunal ouviu depoimentos de uma denúncia de violência doméstica que Linda fez à polícia antes de sua morte, a qual demonstrava que ela temia que ele a matasse.

Razzell foi julgado e absolvido de duas acusações de violência doméstica alguns meses antes de matar Linda, mas uma audiência da Comissão de Liberdade Condicional em 2023 concluiu, com base na preponderância das provas, que ele era abusivo.

Quando a Comissão de Liberdade Condicional aprovou a libertação de Razzell em abril, afirmou em comunicado que "o painel estava convencido de que o encarceramento não era mais necessário para a proteção do público".

A audiência no Tribunal Superior chegou ao fim, e os juízes não divulgarão sua decisão imediatamente, sendo esperado o julgamento final nas próximas semanas.

Reportagem adicional de Kaushal Menon Muralidharan.