'Minha avó mutilou minha filha às escondidas com apenas 6 meses': o ciclo da mutilação genital que mulheres colombianas lutam para encerrar

Crédito, Equipe de Jornalismo Visual da BBC Américas
- Author, José Carlos Cueto*
- Role, Correspondente na Colômbia da BBC News Mundo
- Tempo de leitura: 10 min
Uma menina não merece a dor da mutilação do seu corpo.
Minha filha tinha seis meses quando minha avó fez nela o procedimento. Fiquei sabendo depois.
Eu a recebi com febre, inchada e sangrando.
Questionei minha avó e ela respondeu que era normal e que eu não poderia contar para ninguém, mas meu ex-marido ficou sabendo.
Quando viu a menina tão mal, ele pensou que eu tivesse dado permissão. E me agrediu.
Minha filha chorava. Quisemos levá-la para um centro de saúde, mas era longe e estava chovendo.
Minha mãe tentou ajudar com algumas plantas. Ela é parteira, mas é contra a mutilação e também questionou minha avó.
Ela não fez caso. Disse que os homens zombam das mulheres que têm clitóris.
A mutilação genital feminina na Colômbia
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Carla Quiñonez* conta que sua filha, hoje com quatro anos, sofre dores e infecções urinárias com frequência. Estes são sintomas comuns das sobreviventes de mutilação genital feminina.
Quiñonez tem 30 anos. Ela faz parte da comunidade indígena emberá e trabalha para erradicar a mutilação genital feminina na Colômbia, o único país que reconhecidamente ainda registra esta prática na América Latina.
Ela viaja por territórios remotos, realiza oficinas, questiona autoridades indígenas conservadoras e enfrenta ameaças devido ao seu trabalho.
Ao lado de uma equipe de companheiras e congressistas, sua participação é fundamental para que uma lei contra a mutilação possa ser aprovada no país nas próximas semanas.
A mutilação genital feminina é a remoção total ou parcial dos genitais externos femininos e outras lesões causadas a estes órgãos, não por motivos médicos.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) calcula que mais de 300 milhões de meninas e mulheres vivas atualmente tenham sofrido esta prática.
A maioria dos países onde ela é praticada se encontra no oeste, leste e nordeste da África, além de alguns países da Ásia e do Oriente Médio.

Crédito, MUHAMADOU BITTAYE/AFP via Getty Images
A mutilação genital feminina pode causar hemorragia, problemas urinários, menstruais e no parto, além de cistos, infecções, aumento do risco da mortalidade neonatal e dificuldades para vivenciar o prazer sexual.
A origem da prática na Colômbia, verificada entre comunidades indígenas emberás e afrocolombianas, é motivo de diversas teorias não confirmadas.
O que se sabe é que ela ocorre em comunidades marginalizadas e isoladas. Muitas ficam a horas a pé de hospitais, escolas e rodovias.
Dados fornecidos pelo Congresso colombiano indicam que, em 2025, foram registrados 26 casos até o mês de outubro. Em 2024, foram relatados 54 e, em 2023, 91 casos.
A maior incidência ocorre no departamento de Risaralda, no noroeste do país. Ali vive a comunidade de Quiñonez.
Autoridades, médicos e emberás contrários à prática afirmam que o número de casos é maior que o registrado.
'As meninas morrem mais do que os meninos'
Praticamente todas as meninas que nascem em certos territórios passam por isso.
Às vezes, não se consegue levar uma pessoa doente ao hospital porque os assentamentos são isolados. Uma menina com mutilação, se perder muito sangue, não chega.
Sempre me chamou a atenção que morrem mais meninas ao nascer do que meninos. Só fui entender muitos anos depois, quando comecei a me sensibilizar com o assunto e compreender que estava errado.
Vi seis meninas morrerem sem motivo aparente. Lembro-me de uma priminha minha, cujo parto foi feito pela minha mãe. Ela nasceu bem, mas morreu com três dias.
Perguntei para minha mãe, que me respondeu que ela havia morrido de "jai", um mal ancestral. Não me deu mais explicações.
Agora, acredito que todas essas meninas que morreram assim, de "jai", na verdade morreram por complicações da mutilação.
Agora, elas queimam o clitóris. Antes, cortavam com uma faca. Minha avó também praticou isso com a minha irmã. Ela quase morreu.
Seu corpo continua afetado, mas ela é muito calada. Não conta.
Seja para normalizar, por vergonha ou por medo, é difícil nos abrirmos.
Pediatra na linha de frente da mutilação
A OMS identifica quatro tipos de mutilação genital feminina.
No primeiro, a glande do clitóris é total ou parcialmente removida. Trata-se da sua faixa externa e sensível. Também é removido o prepúcio ou capuz, uma dobra que rodeia a glande.
O segundo tipo inclui a remoção dos pequenos lábios, com ou sem a remoção dos grandes.
O terceiro também é chamado de infibulação. Ele apresenta estreitamento da abertura vaginal.
O quarto tipo inclui qualquer outra lesão dos genitais femininos sem finalidades médicas.
No Hospital San Jorge de Pereira, em Risaralda, a pediatra Diana Ramos Mosquera lida diariamente com muito mais casos além dos detectados.
Ela trabalha no epicentro do registro de casos oficiais, mas também há muitos outros casos excluídos dos registros, que ela define como "a ponta do iceberg".
Ramos Mosquera não acredita que o volume de mutilações hoje tenha crescido, mas sim que tenha aumentado o número de especialistas que examinam as meninas quando há outras doenças.
"Quando elas chegam mutiladas, observamos uma cicatriz", explica ela. "Às vezes, é difícil avaliar qual mutilação elas sofreram."
"Pelos relatos dos emberás, sabemos que é costume que ocorra após o nascimento, com uma faca quente. Observamos queimaduras e mutilações do tipo 1 e 2", descreve a pediatra.
Ela recorda uma menina que chegou com a abertura vaginal fechada. Provavelmente, ela não teria por onde menstruar, nem poderia ter relações sexuais na idade adulta.
"Foi preciso reconstruir", conta Ramos.

Crédito, Diana Ramos/Foto de David Jiménez
Desde que a pediatra descobriu um caso quatro anos atrás, ela divulga o fenômeno e conscientiza suas colegas.
Ela denuncia que sua comunidade não fornece informações suficientes para identificar a mutilação e quais ações tomar em seguida.
Ramos considera a prática uma forma de violência sexual e de gênero, com consequências para toda a vida e que deve ser eliminada com a educação.
"Existem mães que nem mesmo sabem que suas filhas foram mutiladas. Não é justificável, mas também não se pode esquecer o lado cultural do tema, pois alguns membros da comunidade acreditam que não estão fazendo mal", explica ela.
'A cultura não mata'
Com cerca de 300 mil membros, a Grande Nação Emberá é uma das comunidades indígenas mais numerosas da Colômbia. Também está presente no Equador e no Panamá.
Entre os grupos que praticam a mutilação, detectada entre emberás chami, katio e dobidá, muitos membros acreditam que ela seja parte da sua cultura ancestral. Eles a chamam de "cura".
Avós e parteiras, por exemplo, receiam, se o clitóris não for cortado, que dele nasça um pênis.
E, em uma sociedade patriarcal, outros acham que uma mulher com um órgão que lhe dá prazer tende a ser promíscua e uma má esposa. É um ciclo geracional sem fim, que muitas mulheres desejam encerrar.
Juliana Domico é consultora da Confederação Nacional dos Povos da Grande Nação Emberá da Colômbia. Ela acredita que a mutilação genital feminina é fruto do desconhecimento da anatomia e do machismo, não da cultura.

Crédito, José Carlos Cueto/BBC News Mundo
Uma das teorias sobre a chegada da mutilação genital feminina à Colômbia indica que ela teria vindo na época colonial, com pessoas escravizadas de países africanos onde ela era praticada.
Isso talvez explique sua prevalência nos departamentos de Risaralda, Chocó e Valle del Cauca, que coincidem ou se delimitam com regiões afrocolombianas.
Domico acrescenta uma teoria proveniente da herança oral emberá.
"Acredita-se que, centenas de anos atrás, tenha nascido uma menina intersexual (uma condição que pode se manifestar com a presença de genitais masculinos e femininos em um indivíduo). E, desde então, surgiu a fobia do clitóris."
Domico viaja para detectar casos em outros departamentos e esclarecer a magnitude e as raízes desta prática. Ela defende que isso não faz parte da sua cultura.
"Nós somos as nossas roupas, artesanato, danças e idioma, não uma prática que mata. A cultura não mata."
Ameaças e repúdios

Crédito, Equipe de Jornalismo Visual da BBC Américas
Meu ex-marido e eu nos separamos depois que ele me agrediu ao saber da mutilação genital da minha filha.
Espera-se que esta questão fique entre as mulheres e que os homens não fiquem sabendo, mas existem autoridades indígenas masculinas que colocam obstáculos para se conversar sobre o assunto.
Fui ameaçada por divulgar e conscientizar as pessoas de que isso deve acabar.
Com algumas mulheres, as parteiras e mais idosas, também é difícil. Têm surgido discussões, mas não podemos renunciar ao diálogo.
É difícil porque muitos emberás não falam espanhol e, às vezes, as conversas só ocorrem com os homens. Isso nos limita na comunidade e no contato com os médicos.
Nos últimos anos, centenas de emberás deslocados pela violência passaram a viver em refúgios de Bogotá. Nestes, também já foram relatados casos de mutilação, o que vem aumentando a estigmatização e a discriminação contra nós.

Crédito, Juancho Torres/Anadolu via Getty Images
Tive más experiências nos hospitais da capital.
Quando chego com minha filha com complicações da mutilação, sinto que, às vezes, eles nem sabem o que é. Já aconteceu com outras mulheres.
Certa vez, levei minha filha com febre causada por infecção urinária. Quando a diagnosticaram, a enfermeira me disse que eu merecia por ser selvagem. Ela nem mesmo conhecia a minha história.
Existem pessoas que acreditam que não falamos espanhol e que desconhecemos o que é um direito. Fui ameaçada até de me tirarem a menina, de a levarem para o acolhimento familiar.
Desde então, prefiro não levar minha filha ao hospital. Eu a trato com plantas e medicamentos. Não me separo dela.
Lei contra a mutilação
A mutilação genital feminina na Colômbia só chegou à imprensa em 2007, quando ocorreu a morte de uma bebê após ser mutilada.
Esta tragédia gerou um movimento incipiente por parte da comunidade emberá e das autoridades colombianas, ao lado de outras agências internacionais, que defendem o abandono da prática.
Somente depois de 19 anos e de várias campanhas pedagógicas entre as comunidades, a Câmara dos Deputados da Colômbia aprovou, em 2025, um projeto de lei para prevenir, atender e erradicar o fenômeno, que ainda aguarda a aprovação do Senado para ser transformado em lei.
É um caminho repleto de desafios.
"Como os casos se concentram em certas comunidades, especialmente em Risaralda, foi difícil unificar uma reação institucional", explica à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) a parlamentar Carolina Giraldo, de Risaralda, defensora da aprovação da lei.

Crédito, José Carlos Cueto/BBC News Mundo
"Mas as discussões se aceleraram depois que foram noticiadas mutilações no Parque Nacional de Bogotá", prossegue Giraldo, "quando centenas de emberás deslocados pela violência passaram meses ali acampados."
A parlamentar também responsabiliza o complexo fenômeno da falta de registros das mutilações.
"Devido ao isolamento, nem sequer sabemos quantas meninas nascem, quantas morrem e quantas destas morrem por mutilação. Só são registrados os casos que chegam aos hospitais ou instituições", explica ela.
Por fim, legisladores e políticos discutem se a lei deve castigar ou prevenir. Giraldo aposta na segunda opção.
"O principal é salvar vidas. Se penalizarmos as avós e as parteiras, é menos provável que elas levem as crianças ao hospital. Mais meninas irão morrer."
'Não posso fugir dessa conversa'
Cada vez mais mulheres estão dispostas a mudar as coisas. Elas reconhecem que a mutilação é algo ruim.
Algumas delas não receberam educação, não falam ou não escrevem em espanhol. Mas elas entendem como é importante.
Elas falam umas às outras que a mutilação não deveria existir.
Também foi bonito ver, certa vez, uma avó refletir sobre a 'cura' depois que a praticou com suas netas. Ela disse que fazia sem maldade, que só tentava fazer com que os homens não criticassem suas netas.
Conversar sobre uma vida diferente é difícil. As mulheres sem clitóris não imaginam outro corpo. Não se recordam de nada diferente.
É difícil perguntar a elas como seriam suas vidas se não tivessem sido mutiladas. Elas respondem quase com indiferença, dizendo que suas vidas continuariam sendo "normais".
Também será difícil o dia em que eu precisar falar com minha filha, mas não posso fugir dessa conversa.
Todas nós merecemos conhecer e falar sem vergonha dos nossos corpos.
* Carla Quiñonez é um pseudônimo criado para proteger a identidade da testemunha e evitar que ela sofra ameaças e revitimização.
* Com ilustrações de Daniel Arce, da Equipe de Jornalismo Visual da BBC Américas.




























