Governo Trump manda delegado da PF que ajudou ICE a prender Ramagem deixar os EUA

Alexandre Ramagem é interrogado no STF em julho de 2025

Crédito, EPA

    • Author, Leandro Prazeres
    • Role, Da BBC News em Brasília
  • Tempo de leitura: 3 min

O governo dos Estados Unidos solicitou ao governo do Brasil que o oficial de ligação da Polícia Federal na Flórida, o delegado Marcelo Ivo de Carvalho, deixe o país após sua atuação na detenção do ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ) na semana passada.

Em nota divulgada no X (antigo Twitter), o Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental, do Departamento de Estado norte-americano, não cita o nome do delegado, mas classifica sua atuação como uma tentativa de "manipular" o sistema de imigração dos Estados Unidos.

"Nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração tanto para contornar pedidos de extradições formais quanto para estender caça às bruxas política ao território dos Estados Unidos. Hoje, nós pedimos que o funcionário brasileiro relevante deixe nossa nação por tentar fazer isso", diz a nota.

A saída de Carvalho dos Estados Unidos havia sido divulgada mais cedo pelo portal Metrópoles e foi confirmada pela BBC News Brasil.

A reportagem questionou a Polícia Federal e o Ministério das Relações Exteriores (MRE) sobre o caso, mas ainda não recebeu respostas. Uma fonte da PF ouvida em caráter reservado pela BBC News Brasil disse que a instituição ainda não havia sido formalmente comunicada da decisão sobre o delegado.

Ramagem foi condenado a 16 anos de prisão em setembro de 2025 pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na mesma ação penal que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por crimes de tentativa de abolição violenta do Estado democrático de direito, tentativa de golpe de Estado e organização criminosa.

Ele foi diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) durante o governo Bolsonaro e foi eleito deputado em 2022, mas teve seu mandato cassado em dezembro passado após o STF determinar a perda de mandato por sua condenação.

Foto de Alexandre Ramagem tirada na prisão

Crédito, Orange County incarcerations

Legenda da foto, Ramagem foi preso pelo ICE e solto dois dias depois

Ramagem vive nos Estados Unidos desde o ano passado e é considerado foragido pela Justiça brasileira. De acordo com a PF, ele fugiu do Brasil pela divisa do país com a Guiana, de onde pegou um voo para os Estados Unidos.

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Há uma semana, em 13 de abril, ele foi detido por agentes do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos (ICE). Segundo a Polícia Federal, a detenção de Ramagem foi resultado de uma cooperação policial internacional.

O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, afirmou que o oficial de ligação da PF na Flórida (Carvalho) teria enviado dados sobre o paradeiro de Ramagem a autoridades de imigração norte-americana que resultaram na detenção do ex-deputado.

Dois dias depois, Ramagem foi solto, após forte pressão de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), entre eles o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o empresário Paulo Figueiredo, ambos radicados nos Estados Unidos.

Desde então, autoridades norte-americanas iniciaram um processo de apuração interna para saber como teria se dado essa cooperação policial.

A apuração tinha o objetivo de identificar, entre outras coisas, se o objetivo das autoridades brasileiras ao acionar o ICE para prender Ramagem era uma tentativa de burlar o processo de extradição do ex-parlamentar, uma vez que a decisão sobre se ele será ou não extraditado ao Brasil depende do Departamento do Estado, enquanto a deportação em casos de irregularidades migratórias depende do Departamento de Segurança Interna.

O Departamento de Estado é comandado por Marco Rubio, Rubio que mantém uma relação de proximidade com lideranças do campo bolsonarista e já se manifestou diversas vezes em tom crítico sobre o julgamento que condenou Bolsonaro e Ramagem.

Além disso, há pelo menos cinco anos, autoridades brasileiras vêm enfrentando dificuldades para obter a extradição de investigados e condenados por atos contra ministros do STF ou aos atos do 8 de Janeiro que estejam nos Estados Unidos.

Exemplo disso é a demora na avaliação ou mesmo a recusa dos Estados Unidos em atender pedidos de extradição, como os que existem contra Ramagem desde dezembro de 2025 e contra o blogueiro Allan dos Santos, expedido em 2021.

Nessa suposta estratégia de contornar o Departamento de Estado, conseguir a deportação de Ramagem por questões migratórias seria a forma mais rápida de fazer com que o ex-deputado voltasse ao Brasil, uma vez que a deportação é um procedimento administrativo que não demandaria uma decisão política do Departamento de Estado.

Um funcionário do governo norte-americano ouvido pela BBC News Brasil em caráter reservado disse na semana passada, no entanto, que se o objetivo da ação junto ao ICE para deter Ramagem era conseguir o envio de Ramagem ao Brasil desviando do Departamento de Estado, a manobra poderia gerar uma quebra de confiança entre as autoridades dos dois países.