O que aconteceu com o sonho americano de Harry e Meghan?

Crédito, Getty Images
- Author, Shaimaa Khalil
- Author, Regan Morris
- Role, BBC News
- Reporting from, Los Ángeles
- Published
- Tempo de leitura: 7 min
Quando o Duque e a Duquesa de Sussex deixaram seus papéis como membros ativos da família real britânica em 2020 e se mudaram para a Califórnia, levaram consigo algo que nem Hollywood consegue fabricar: a realeza.
Embora Harry e Meghan tenham desfrutado de certa popularidade na indústria do entretenimento, seu reinado em Hollywood provou ser curto, e a Califórnia reagiu à notícia de seu retorno ao Reino Unido com indiferença.
Na busca pelo sonho americano, eles disseram que queriam encontrar maior independência financeira.
Durante a entrevista que foi amplamente divulgada com a apresentadora Oprah Winfrey em 2021, Meghan descreveu a oportunidade de tomar suas próprias decisões como "libertadora".
Harry disse mais tarde que os Estados Unidos ofereciam à sua família um grau de privacidade e liberdade que eles "certamente não poderiam" ter no Reino Unido, e que era a vida que sua mãe, Diana, teria desejado para ele.
O casal se estabeleceu em Montecito, um enclave de celebridades a algumas horas ao norte de Los Angeles, com vizinhos como Oprah Winfrey, Gwyneth Paltrow e Rob Lowe.
Então vieram os contratos milionários para o podcast e a Netflix.
"Eles eram muito requisitados, eram nomes que dominavam a imprensa e chamavam a atenção imediatamente", explica Stacy Jones, CEO da Hollywood Branded, uma agência de marketing e relações públicas.

Crédito, Getty Images for Netflix
"Se você é uma celebridade em Hollywood, há festas, eventos e coisas para fazer sem fim", observa ela. "Logo você percebe que todas essas coisas sem fim podem ser usadas para promover algo para vender."
E o casal real tinha muito o que vender.
Elizabeth Holmes, jornalista e observadora da realeza radicada em Los Angeles e autora de HRH: So Many Thoughts on Royal Style (HRH: Muitos pensamentos sobre o estilo da realeza, em tradução livre), comenta: "Acho que um dos motivos pelos quais fiquei surpresa com a partida dos Sussex dos EUA foi porque eu sentia que eles estavam mais ou menos se adaptando à vida na Califórnia."
É mais fácil assinar do que manter contratos
Fim do Promoção Agregador de pesquisas
Nem todos ficaram tristes com a partida deles.
O New York Post, que frequentemente criticava duramente o casal, saudou a notícia da saída deles com a manchete "De volta ao trono!" (um trocadilho com "destronados" e "demitidos"), declarando o fim do "longo pesadelo nacional" dos Estados Unidos. O sarcasmo do tabloide se concentrou principalmente em desmerecer as modestas conquistas do casal em Hollywood.
Mas eles conseguiram algo que muitos recém-chegados àquela capital da fantasia jamais conseguem: persuadir alguns dos maiores estúdios a investir pesado neles.
No entanto, eles provaram que atrair investimento inicial era mais fácil do que mantê-lo.
O contrato plurianual com o Spotify, supostamente avaliado em até US$ 25 milhões (R$ 128,5 milhões), produziu o Archetypes, o podcast de Meghan com 12 episódios e participações de convidados como Serena Williams e Mariah Carey.
Mas, em 2023, o Spotify e a empresa do casal, Archwell Audio, anunciaram que haviam "concordado mutuamente em seguir caminhos separados".
O contrato de cinco anos com a Netflix, assinado em 2020 e avaliado entre US$ 60 milhões e US$ 100 milhões (entre R$ 308 e R$ 514 milhões), produziu diversos programas.
Desde então, no entanto, o contrato foi substituído por um acordo menos lucrativo, como parte de uma tendência de cortes generalizados de custos na indústria do entretenimento.
Nos bastidores desses projetos, a produtora dos Sussex também enfrentou alta rotatividade de funcionários, com relatos de que alguns de seus ex-funcionários se autodenominavam, no privado, como do "Clube dos Sobreviventes dos Sussex".
O Príncipe Harry também obteve sucesso comercial, principalmente ao vender sua própria história de vida como membro da família real.
Suas memórias, Spare (O que sobra, publicado pela editora Objetiva no Brasil) foram um fenômeno editorial, rendendo-lhe, segundo relatos, um adiantamento de US$ 20 milhões (R$ 102,8 milhões).
Vendeu mais de seis milhões de cópias em todo o mundo, tornando-se um dos livros de não ficção mais vendidos dos últimos tempos.
Como parte de sua campanha de divulgação, Harry teve uma conversa pública com o especialista em traumas Dr. Gabor Maté, na qual explorou como sua infância o moldou.
Em uma entrevista ao programa Newsnight da BBC, Maté revelou que Harry lhe pareceu "muito gentil, muito sensível" e que fez o possível para garantir que "não transmitisse seus traumas aos filhos".

O casal como produto
O Duque de Sussex continua sendo fácil de promover quando o assunto é o próprio Harry, a família real ou as causas com as quais ele está associado há muito tempo.
Ele foi nomeado diretor de impacto da BetterUp, uma empresa de preparação e aconselhamento, e cocriou e produziu a série sobre saúde mental da Apple TV+, O meu lado invisível, com Oprah Winfrey.
Seus projetos na Netflix se basearam, em grande parte, em seus interesses declarados.
Jogos Invictus acompanhou seis atletas dos Jogos Invictus de 2022, um evento mundial financiado por Harry que ajuda militares feridos a se reencontrarem através do esporte. Já Polo explorou outra de suas paixões.
Nenhum desses projetos chegou perto de atrair a atenção gerada pelo documentário em seis partes Harry e Meghan, ou pelas revelações em sua autobiografia, O que sobra.
Em uma de suas poucas aparições públicas em grandes palcos, Harry fez o discurso principal em uma reunião informal da Assembleia Geral da ONU em Nova York, em 2022, para marcar o Dia Internacional Nelson Mandela. Ele falou sobre sua mãe, sua conexão com a África e o legado do falecido líder sul-africano.
Mas nos Estados Unidos, ele pareceu ter dificuldades para se libertar da imagem estereotipada da realeza.

Crédito, Netflix
Como ex-atriz da série de TV Suits, Meghan se aventurou em programas de culinária e estilo de vida para a Netflix.
Esse conteúdo destacava sua vida idílica com adoráveis "galinhas resgatadas" de um abatedouro e o cultivo de morangos frescos, tudo isso tendo como pano de fundo as pitorescas montanhas de Santa Ynez.
Embora seu programa, Com amor, Meghan, tenha sido cancelado após duas temporadas, foi indicado ao Emmy na categoria Melhor Série de Estilo de Vida.
No início deste ano, a Netflix também encerrou sua parceria com a marca de estilo de vida de Meghan, As Ever.
"A Netflix faz filmes. A Netflix não faz geleia", disse Stacy Jones, a guru de branding.

Crédito, AFP via Getty Images
Os limites da fama
Os críticos atacaram o estilo de vida cuidadosamente construído por Meghan, rotulando-o de indelicado. Mas, em termos de branding, Jones reconhece que a publicidade negativa também pode ter valor se for capaz de manter a pessoa no centro das atenções.
Os projetos de Meghan a mantiveram visível e ofereceram ao público algo para assistir ou comprar.
"Ao se mudarem para o Reino Unido, parece que eles continuam buscando essa proximidade com a família real para se validarem ou, em alguns casos, para se promoverem", diz Kinsey Schofield, cujo podcast homônimo se concentra na família real.
"Meghan faz cosplay da realeza para vender seus chás e geleias de frutas da marca As Ever desde o lançamento."

Crédito, Reuters
Os Sussexes ainda estão desenvolvendo projetos.
Recentemente, lançaram um documentário sobre os biscoitos americanos Girl Scouts e escreveram o roteiro de uma série ambientada no mundo exclusivo dos times de polo, que será produzida pelos criadores de Gossip Girl. Mas a experiência americana do casal revela as limitações da fama em Hollywood.
A fama pode te abrir portas, mas não garante que você permaneça.
"Neste momento, Hollywood está passando por um período muito difícil, e o cenário está fragmentado", diz Jones. Demissões, reestruturações em curso e alta rotatividade de funcionários desestabilizaram empresas do setor.
"É muito difícil começar e lançar uma empresa e mantê-la funcionando", afirma. "Quando uma megaestrela lança uma empresa, precisa de pessoas muito fortes para apoiá-la."
Eles podem não ocupar mais os mesmos cargos que ocupavam quando chegaram aos Estados Unidos, e podem dizer que estão voltando para o Reino Unido para viver como cidadãos comuns, mas é improvável que o casal desapareça dos olhos do público.
"Eles nunca serão cidadãos comuns em lugar nenhum de suas vidas", diz Jones.
"Eles não são pessoas que podem ser atores coadjuvantes. Eles são estrelas em seu próprio programa, ou estrelas no programa de outra pessoa. Mesmo que sejam estrelas de nível inferior, ainda são estrelas."
























