Artemis 2: astronautas retomam contato após volta pelo 'lado oculto' da Lua e começam retorno à Terra

Uma imagem da Terra vista do espaço, com o planeta ao centro contra o fundo escuro do espaço. É um planeta redondo e azul. É possível ver nuvens e uma fina aurora verde na parte superior

Crédito, Nasa/Reid Wiseman

Legenda da foto, A Terra vista da cápsula Orion em imagem feita na semana passada
    • Author, Rebecca Morelle *
    • Role, editora de Ciência
    • Author, Alison Francis
    • Role, jornalista sênior de Ciência
    • Author, Kevin Church
    • Reporting from, reportando do Johnson Space Center
    • Author, Pallab Ghosh
    • Role, correspondente de Ciência
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  • Tempo de leitura: 7 min

Exatamente conforme o planejado, a espaçonave Orion reapareceu por trás da Lua e retomou o contato com a Terra na noite desta segunda-feira (6/4).

Primeiro, veio o retorno tranquilizador do sinal de rádio nos monitores dos engenheiros, depois uma rajada de dados e, finalmente, uma voz clara vinda da cápsula. As palavras eram banais — o alívio no Centro de Controle da Missão, não.

"Houston, Integrity, teste de comunicação", disse a especialista da missão Christina Koch ao quebrar o silêncio da Orion. "É tão bom ouvir a Terra novamente."

Durante os 40 minutos de silêncio, a espaçonave teve que cuidar de si mesma.

Seus computadores de bordo realizaram uma queima de motor crucial no lado oculto da Lua — invisível e inaudível da Terra — para direcionar a Orion em sua trajetória de retorno.

Em voos espaciais tripulados, sempre há uma pequena margem de incerteza até que se ouça a tripulação novamente.

As famílias que assistiam da galeria de observação passaram o período de silêncio debruçadas sobre as notas de atualizações, tentando não olhar para o relógio.

Agora que o contato foi restabelecido, uma enorme quantidade de dados acumulados começará a chegar.

A telemetria e as imagens armazenadas do lado oculto da Lua serão retransmitidas pela Rede de Espaço Profundo da Nasa, prontas para serem analisadas por engenheiros e cientistas nos próximos dias.

As primeiras imagens mostram algumas das visões mais detalhadas já obtidas do hemisfério oculto da Lua.

Retorno à terra

Num pequeno, mas meticulosamente coreografado gesto, os astronautas da Artemis 2 e as equipes de controle da missão "viraram seus emblemas" enquanto a jornada de volta para casa da tripulação começa.

Eles giraram o emblema especial de dupla face para que agora mostre a Lua em primeiro plano e a Terra surgindo ao fundo – o inverso de como o usavam na ida.

No lançamento e durante a viagem de volta, o emblema estava orientado com a Terra em destaque e a Lua no horizonte, enfatizando que seu objetivo estava à frente.

Agora, com a passagem próxima à Lua concluída e a espaçonave Orion descrevendo um arco em direção ao nosso planeta, a tripulação mudou para o ponto de vista "de volta para casa", um sinal discreto de que a parte mais arriscada da viagem ficou para trás e a prioridade é retornar em segurança à Terra.

Os emblemas de missão fazem parte da cultura da Nasa desde os tempos dos programas Gemini e Apollo, mas este design reversível – criado deliberadamente para que possa ser virado no meio da missão – é uma novidade da Artemis 2, e não uma tradição que remonta aos pousos originais na Lua.

É um detalhe minúsculo, mas que equipes futuras podem optar por copiar.

Mulher segurando o distintivo da Artemis 2 invertido, mostrando a Lua em primeiro plano e a Terra à distância
Legenda da foto, Os astronautas e a equipe de controle da missão inverteram seus distintivos, dando início à jornada de volta à Terra

Por que a Artemis 2 perdeu conexão por 40 minutos

Quando os astronautas passaram atrás da Lua, por volta das 19h47 no horário de Brasília desta segunda-feira, os sinais de rádio e laser que permitem a comunicação nas duas direções entre a nave e a Terra foram bloqueados pela própria Lua.

Por cerca de 40 minutos, os quatro astronautas — Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen — ficaram sozinhos, cada um com seus próprios pensamentos e sentimentos, viajando pela escuridão do espaço. Um momento profundo de solidão e silêncio.

Foguete sendo lançado

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Artemis 2 decolou na quarta-feira (1º/4), deixando um rastro de chamas e fumaça pelo caminho

O piloto do programa Artemis 2, Victor Glover, disse que esperava que o mundo aproveitasse esse momento para se unir.

"Quando estivermos atrás da Lua, sem contato com ninguém, vamos encarar isso como uma oportunidade", disse à BBC News antes da missão.

"Vamos rezar, ter esperança, enviar bons pensamentos e sentimentos para que possamos restabelecer o contato com a tripulação."

Isso acontece porque a Lua bloqueia os sinais de rádio entre a Rede de Espaço Profundo, conhecida pela sigla em inglês DSN, e a espaçonave.

Há mais de 50 anos, os astronautas do programa Apollo também experimentaram o isolamento provocado pela perda de sinal durante suas missões à Lua.

Talvez ninguém mais do que Michael Collins, da Apollo 11.

O astronauta Michael Collins olha para cima, em direção a uma porta de acesso dentro do módulo da Apollo 11

Crédito, NASA

Legenda da foto, O astronauta Michael Collins disse que se sentiu "realmente sozinho" no lado oculto da Lua

Em 1969, enquanto Neil Armstrong e Buzz Aldrin faziam história ao dar os primeiros passos na superfície lunar, Collins estava sozinho no módulo de comando, orbitando a Lua.

Quando a sua nave passou pelo lado oculto da Lua, o contato com os dois astronautas na superfície lunar, assim como com o centro de controle da missão, foi perdido por 48 minutos.

Ele descreveu a experiência em seu livro de memórias O Fogo Sagrado - A Jornada de um Astronauta, publicado em 1974, dizendo que se sentiu "realmente sozinho" e "isolado de qualquer forma de vida conhecida", mas que não sentiu medo nem solidão.

Em entrevistas posteriores, ele descreveu a paz e a tranquilidade proporcionadas pelo silêncio do rádio, afirmando que aquilo oferecia uma pausa nos constantes pedidos do controle da missão.

Na Terra, o apagão de comunicação foi um momento de tensão para aqueles responsáveis por manter o contato com a espaçonave.

Na estação terrestre de Goonhilly, na Cornualha, no sudoeste da Inglaterra, uma enorme antena vem captando sinais da cápsula Orion, localizando com precisão a sua posição ao longo da viagem e enviando essas informações de volta à sede da Nasa.

O diretor de tecnologia de Goonhilly, Matt Cosby, disse à BBC: "Esta é a primeira vez que estamos rastreando uma nave com seres humanos a bordo".

"Vamos ficar um pouco nervosos quando ela passar por trás da Lua, e depois ficaremos muito animados quando a virmos novamente, porque saberemos que todos estão seguros", afirmou Cosby, antes da perda de conexão.

Mas a expectativa é que essas interrupções na comunicação deixem de existir em breve. E, segundo Cosby, isso será essencial à medida que a Nasa — e outras agências espaciais ao redor do mundo — começarem a construir uma base lunar e a intensificar a exploração.

"Para uma presença sustentável na Lua, você precisa de comunicação completa — precisa de cobertura 24 horas por dia, inclusive no lado oculto, porque ele também deverá ser explorado", afirmou.

O lado oculto da Lua, o que não pode ser visto da Terra, é um hemisfério perigoso e misterioso

Crédito, Luis ROBAYO / AFP via Getty Images

Legenda da foto, O lado oculto da Lua, o que não pode ser visto da Terra, é um hemisfério perigoso e misterioso

Programas como o Moonlight, da Agência Espacial Europeia, planejam lançar uma rede de satélites ao redor da Lua para fornecer cobertura contínua e confiável de comunicação no futuro.

Para os astronautas do programa Artemis 2, o período sem contato com a Terra permitiu a eles dedicar toda a atenção à Lua.

Sondas espaciais da China e da Índia já exploraram esse misterioso "lado escuro", mas agora os astronautas puderam observá-lo diretamente e registrá-lo em imagens para análises futuras.

Um dos pontos de interesse são as formações geológicas, como crateras e antigos fluxos de lava, que poderão ajudar futuras missões a explorar a região.

E é que esse hemisfério, que nunca conseguimos ver da Terra, tem uma aparência bem diferente daquele que enxergamos.

Infográfico sobre a missão Artemis 2

"Embora seja difícil de acreditar, os olhos humanos são um dos melhores instrumentos científicos que temos", disse Koch antes da decolagem.

Eles passaram o período de apagão focados na observação lunar — tirando fotos, estudando a geologia da Lua e simplesmente contemplando a sua grandiosidade.

Agora, após emergirem da sombra da Lua e o sinal ser restabelecido, o mundo inteiro respira aliviado.

E os astronautas, que já fizeram história, poderão compartilhar as suas vistas extraordinárias com todos na Terra.

*Reportagem adicional Ana Pais e Pedro Martins