Alexandre Ramagem é preso pelo ICE nos EUA: quando ele será deportado?

Alexandre Ramagem em um carro de som, vestido com uma camiseta amarela da Seleção Brasileira de futebol, fazendo um discurso em um ato pró-Bolsonaro no Rio de Janeiro no ano passado.

Crédito, MAURO PIMENTEL/AFP via Getty Images

Legenda da foto, Ramagem é foragido da justiça brasileira desde setembro do ano passado
    • Author, Leandro Prazeres e Marina Rossi
    • Role, Da BBC News Brasil em Brasília e em São Paulo
  • Tempo de leitura: 4 min

O ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL) foi preso pelo serviço de imigração (ICE) dos Estados Unidos, onde estava foragido da Justiça brasileira.

Uma breve nota no site da PF afirma que "a prisão decorreu de cooperação policial internacional entre a Polícia Federal e autoridades policiais dos EUA".

A BBC News Brasil apurou que a expectativa da PF agora é que Ramagem seja deportado ao Brasil após passar por uma audiência junto a um juiz de assuntos migratórios.

Sua defesa, porém, poderá argumentar nesta audiência que Ramagem seria alvo de perseguição política, argumento usado por outros condenados pelos atos de 8 de janeiro em processos semelhantes em países como a Argentina.

Uma fonte da PF avalia que sua defesa poderá, se ainda não o fez, requerer asilo político nos EUA.

Caso seu argumento seja acolhido, o processo de deportação de Ramagem poderá ser suspenso. Do contrário, a expectativa é de que Ramagem seja enviado ao Brasil nos próximos meses ou semanas.

Procurada pela BBC News Brasil, a defesa de Ramagem ainda não respondeu.

O ex-deputado e ex-delegado da PF era considerado foragido desde setembro, quando a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) o condenou a 16 anos de prisão pelos crimes de organização criminosa armada, golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado de Direito, na mesma ação penal que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

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Em novembro, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, decretou a prisão preventiva de Ramagem.

Seu mandato foi cassado em dezembro, junto com o de Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que também está vivendo nos Estados Unidos.

Em 15 de dezembro, Moraes pediu aos EUA a extradição do deputado cassado, que também teve seu passaporte diplomático cancelado pela Câmara dos Deputados.

Segundo disse à BBC News Brasil em dezembro o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, o deputado saiu do Brasil de forma clandestina, pela fronteira com a Guiana, e usou passaporte diplomático para entrar nos EUA.

Ele teria viajado de avião para Boa Vista, em Roraima, de onde partiu de carro, em uma viagem clandestina em direção à fronteira.

Segundo a denúncia da Procuradoria Geral da República que levou ao julgamento e condenação de Ramagem, o ex-deputado teria usado a estrutura da Abin em favor dos planos golpistas — comandando uma "Abin paralela" que monitoraria adversários e críticos do governo Bolsonaro, além de produzir informações falsas e ataques virtuais.

Além disso, Ramagem teria fornecido a Jair Bolsonaro material para apoiar o ataque às urnas eletrônicas e a intervenção das Forças Armadas.

Captura do site do ICE que mostra o nome de Alexandre Ramagem em custódia do ICE.
Legenda da foto, Página oficial do ICE confirma a prisão de Ramagem nesta segunda

Os custos de Ramagem

Na PF, Ramagem foi responsável pelas divisões de Administração de Recursos Humanos (2013 e 2014) e de Estudos, Legislações e Pareceres (2016 e 2017).

Também fez parte da equipe de investigação da Operação Lava Jato no Rio de Janeiro em 2017.

Em 2018, tornou-se próximo do clã político de Bolsonaro na campanha presidencial, quando foi destacado pela PF para coordenar a segurança do então candidato, depois que ele foi alvo de uma facada em setembro daquele ano.

Com a posse de Bolsonaro, Ramagem foi chamado para o governo, tendo primeiro atuado como assessor especial da Secretaria de Governo, quando a pasta era comandada pelo general Carlos Alberto Santos Cruz.

Em julho de 2019, ele tomou posse como diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), onde ficou até 2022.

A Abin é vinculada ao Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência, comandada na época pelo general Augusto Heleno, também preso por golpe de Estado.

Em 2020, quando o hoje senador Sergio Moro (União-PR) deixou o Ministério da Justiça acusando Bolsonaro de tentar interferir na PF, o ex-presidente quis colocar Ramagem como diretor do órgão, mas o STF barrou a nomeação devido à proximidade pessoal de ambos.

Reportagem da BBC News Brasil publicada em dezembro mostrou que Ramagem, naquela época, já tinha custado ao menos R$ 532 mil aos cofres públicos desde que havia deixado o Brasil.

O valor é a soma dos salários brutos, verba de gabinete para funcionários e cota parlamentar dos meses de setembro, outubro e novembro.

A estrutura do gabinete, ao menos até novembro, teve custo superior a R$ 100 mil por mês, segundo consta no site da instituição.

Entre janeiro e novembro do ano passado, Ramagem havia gasto R$ 1,4 milhão em verba de gabinete, o equivalente a 98,6% do total disponível ao parlamentar no ano, segundo dados da Câmara. Desses, R$ 399,3 mil são de setembro em diante.

Ramagem foi eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro em 2022, com 59 170 votos. Em 2024, ele concorreu à Prefeitura do Rio de Janeiro, mas não teve sucesso nas urnas.