Projeto do fim da escala 6x1 será derrotado no Senado, mas virará último ativo eleitoral de Lula, avalia historiador

Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado, marcou a votação do projeto do fim da escala 6x1 para terça-feira (6), dois dias depois de eleição que renovará a Casa a partir de janeiro de 2027
Legenda da foto, Para historiador, Lula não deve contar com mais nenhum 'presente' do Senado
    • Author, Vinícius S. Mendes
    • Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
    • Reporting from, São Paulo (SP)
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O projeto que acaba com a escala 6x1 de trabalho, diminuindo a jornada de 44 para 40 horas semanais no Brasil, deve assumir um papel decisivo na corrida presidencial daqui até o dia 25 de outubro, após o resultado do primeiro turno da eleição deste domingo (4/10).

A avaliação é do historiador e cientista político Luiz Felipe de Alencastro, professor catedrático da Universidade Sorbonne, em Paris, na França e autor, entre outros, do livro O trato dos viventes: formação do Brasil nos séculos XVI e XVII (Companhia das Letras, 2000).

A proposta, que se transformou um dos pêndulos da política brasileira do ano passado para cá, foi aprovada na Câmara dos Deputados, em maio, com ampla maioria (472 votos contra 22 em primeiro turno), mas travou na tramitação no Senado por ação do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), à época em conflito com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Na semana passada, ele anunciou que a votação acontecerá nesta terça-feira (6/10). Na leitura de Alencastro — que também lecionou na Fundação Getúlio Vargas —, a jogada de Alcolumbre, na verdade, era esperar a eleição acontecer.

Com o pleito já decidido, os senadores em atual mandato atual poderão derrubar o projeto sem o temor de encarar a reação negativa das urnas. Uma pesquisa da Quaest, feita em maio, mostrou que a medida é popular: tem apoio de 7 em cada 10 brasileiros (71%).

Mas, para o historiador, a derrota do projeto no Senado pode se transformar no último ativo eleitoral de Lula, vencido no primeiro turno pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), que somou 47,03% dos votos contra 45,16% do presidente.

"Lula pode sair a campo agora pela [defesa do] fim da escala 6x1, colocando a responsabilidade da derrota [do projeto] na direita, no Senado, no establishment. Pode revigorar a campanha dele", analisa ele à BBC News Brasil.

Até por isso, Alencastro acredita que Alcolumbre deve retirar o projeto da pauta antes da votação. "Eles não vão dar mais nenhum presente para Lula. Acabou", continua.

Isso seria, da mesma forma, benéfico para o presidente, que teria como prometer a aprovação da lei em um eventual quarto mandato — que, ainda assim, é bastante difícil de acontecer, na leitura de Alencastro.

Ele espera que Flávio tenha, no segundo turno, não apenas boa parte dos votos dos candidatos derrotados no primeiro (cerca de 7%), como ainda contará com a força do eleitorado de três Estados-chave: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

No primeiro, Flávio fez 51,93% dos votos neste domingo. Em Minas, o senador do PL ganhou por uma diferença de 588 mil votos (48,24% contra 43,33%) e, no Rio, teve seu melhor resultado entre os três estados: 53,01%.

"Ele sai na frente porque tem uma reserva de votos. Se fosse uma corrida de automóveis, ele ainda pode parar em um pit stop. O Lula não tem mais pit stop. O tanque [de combustível] dele é esse aí."

A possível derrota não será o fim da carreira política de Lula — para o historiador, depois de um mês ele vai começar a trabalhar na própria sucessão dentro do PT e da política brasileira.

De qualquer forma, admite, o presidente deverá se recolher. "Para alguém que está sempre na tomada, é um choque é muito grande [perder a eleição]".

A seguir, trechos da conversa que a BBC News Brasil teve com Alencastro logo após o fim da apuração das urnas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE):

BBC News Brasil - Qual é a avaliação do senhor sobre os resultados do primeiro turno? O pleito está decidido ou a segunda volta ainda pode mudar algo?

A primeira coisa é que essa história de ganhar no primeiro turno acabou no Brasil. O [ex-presidente] Fernando Henrique Cardoso até ganhou em primeiro turno, nas eleições de 1994 e de 1998, mas em uma época em que as estratégias dos partidos e dos candidatos ainda não havia se adaptado ao federalismo brasileiro e às alianças regionais. Hoje, os dois turnos são um jogo que todo mundo já sabe jogar.

BBC News Brasil - Mas, desde a vitória de Lula em 2002, ele nunca tinha perdido um primeiro turno nas eleições que disputou. O que isso significa?

Luiz Felipe de Alencastro - Isso torna Flávio [Bolsonaro] automaticamente favorito, porque ele ainda tem uma reserva de votos que vai servir como um ponto de partida muito difícil [para Lula]. Amanhã [hoje], inclusive, já vai haver uma reação na Bolsa [de Valores], porque as ações de todas essas empresas "privatizáveis" — a Petrobras, as ações do governo na Vale — vão lidar com uma situação diferente. E tem alguns dados muito preocupantes.

BBC News Brasil - Quais?

Alencastro - Lula perdeu no Rio de Janeiro e em São Paulo, como já era esperado, mas também perdeu em Minas Gerais, e com uma desvantagem de cinco pontos [4,91 pontos percentuais, com 100% das urnas apuradas]. Isso torna, de saída, a campanha dele muito rígida, porque perder nesses três estados-chaves — onde, aliás, [Jair] Bolsonaro ganhou a eleição [de 2018] — será algo muito difícil de reverter.

Ele ainda ficou abaixo do que as pesquisas indicavam em Pernambuco, embora tenha ficado acima na Bahia. Houve, nitidamente, uma antecipação do segundo turno, porque os votos dele em relação às sondagens em Goiás, por exemplo, aumentaram em quase 16%. Quer dizer que boa parte do eleitorado do Ronaldo Caiado já votou no Flávio [nesse primeiro turno].

Ainda fica uma parte dos eleitores, de cerca de 7%, que virá dos outros candidatos. Essa é uma regra de ferro no modelo dos dois turnos. Eu morei por 40 anos na França, onde os dois turnos existem desde 1860. Há um século e meio. Aprendi lá que, se um candidato vai para o segundo turno sem reserva de votos, ele perde a eleição.

Assim, mesmo que o resultado do primeiro turno tivesse sido o inverso, com Lula saindo na frente de Flávio por esses dois pontos de diferença, ele ainda provavelmente perderia o segundo turno, porque precisaria de quatro, cinco, seis pontos, para se precaver dessa transferência de votos dos outros candidatos — que será maciçamente benéfica para Flávio agora.

BBC News Brasil - Então, para o senhor, não há como reverter?

Alencastro - A vitória larga do Tarcísio [de Freitas, no Estado de São Paulo] pode levar a um abstencionismo no segundo turno que favoreceria Lula. Isso pode acontecer em outros Estados que já resolveram no primeiro turno. Também pode vir uma surpresa: estamos nadando em denúncias, e a maior parte das acusações ligadas ao Banco Master está colada nas costas do Flávio e do grupo dele.

Uma terceira coisa, que é mais "political fiction", seria o [Donald] Trump [presidente dos Estados Unidos] e os assessores dele começarem a festejar a vitória do Flávio e provocarem uma reação no Brasil, como aconteceu com o primeiro-ministro do Canadá, [Mark] Carney, ou na Hungria. Esse assanhamento do governo americano até poderia gerar um backlash.

Historiador Luiz Felipe de Alencastro acredita que Lula pode "revigorar" a campanha se sair em defesa da escala 6x1, mas que dificilmente conseguirá mudar o resultado do pleito, daqui três semanas

BBC News Brasil - Por que Flávio venceu o primeiro turno mesmo em uma campanha marcada por denúncias graves contra ele?

Alencastro - Ele sai na frente porque tem reserva de votos. Se fosse uma corrida de automóveis, ele ainda pode parar em um pit stop. O Lula não tem mais pit stop. O tanque [de combustível] dele é esse.

BBC News Brasil - Me referia às acusações que ele sofreu durante a campanha. Como ele conseguiu se manter competitivo mesmo lidando com elas?

Alencastro - O Lula está na vida política do Brasil — e de São Paulo — desde 1980, desde a fundação do PT. A gente esquece que ele foi candidato a governador do Estado, em 1992, quando perdeu, ficando em terceiro lugar, e pensou até em abandonar a política. Daí vem a candidatura do Flávio que, malgradas todas as forças reacionárias e a base conservadora que o impulsiona, além das associações com o [Daniel] Vorcaro, as reportagens, os vídeos, ainda oferece uma mudança, uma alternativa.

O eleitorado não ficou entusiasmado com o programa e com a liderança do Lula e, evidentemente, tem um desgaste que se acumulou, principalmente depois dos 500 dias que ele ficou preso, perdendo contato com o PT. A velha guarda do partido, que o acompanhava desde o início, se retirou. Ele não tem interlocutores imediatos que ele escute de maneira clara.

BBC News Brasil - Essa derrota virtual encerra a carreira de Lula?

Alencastro - Ele vai começar a preparar o sucessor dele. A carreira dele não vai terminar por causa de uma derrota. O PT já começa a discutir novas candidaturas daqui um mês. Mas, para alguém que está sempre na tomada, é um choque é muito grande.

A Ruth [Cardoso] dizia, lembrando a derrota do Fernando Henrique para a prefeitura de São Paulo, em 1985, que isso é como ter um aspirador no meio da sala e, de repente, ver alguém chegar e o tirar da tomada. Parece que é outro mundo. Acaba a conversa, o barulho, vem aquele silêncio. O político entra em introspecção.

Quando o Lula perdeu a eleição de 1989, ele sumiu por alguns meses. Certamente vai se recolher e fazer um balanço disso.

Ele é um homem extremamente vigoroso, como deu para ver naquela entrevista ao podcast [Flow, às vésperas do primeiro turno]. Foi uma entrevista histórica.

Ali, há uma interpretação do Brasil feita por alguém que refletiu e testemunhou, sentado na primeira fila, sobre todos os dramas que ocorreram no Brasil nos últimos 50 anos. A vitalidade intelectual dele é muito grande, mas ele já enfrentava resistências no próprio sistema partidário para fazer alianças.

Por exemplo: eu aposto com você que o presidente do Senado, [Davi] Alcolumbre, não vai nem colocar o projeto do fim da escala 6x1 em pauta para votar — e, se ele puser, a emenda vai ser derrotada.

O texto já estava aprovado na Câmara dos Deputados e seria votado no Senado se fosse colocado [em votação] antes das eleições, porque os senadores, indo encarar os eleitores, não teriam disposição para votar contra o projeto. Mas, com esse resultado aí, eles não vão ter medo nenhum de enterrar a emenda.

BBC News Brasil - Quais serão os efeitos disso?

Alencastro - Pode ser uma boa batalha, porque o Lula pode ir a campo com uma campanha pela [defesa do] fim da escala 6x1, colocando a responsabilidade da derrota na direita, no Senado, no establishment. Ele pode revigorar a campanha. É por isso que o Alcolumbre vai retirar da pauta.

BBC News Brasil - O fim da escala 6x1 virou o grande ativo do Lula então?

Alencastro - Pois é. Não vão dar mais nenhum presente para ele. Acabou.

Flávio Bolsonaro (PL) venceu o primeiro turno da eleição com pouco mais de 56,1 milhões de votos, enquanto Lula (PT) somou 53,8 milhões — 4 milhões a menos do que ele teve em 2022
Legenda da foto, Base do bolsonarismo tende a se consolidar cada vez mais

BBC News Brasil - Por que o bolsonarismo continuou tão forte no horizonte do país?

Alencastro - O bolsonarismo era algo isolado no Rio de Janeiro. Era a mesma base eleitoral do [Anthony] Garotinho [ex-governador do Rio de Janeiro entre 1999 e 2002]. Eu achava que ele, quando se candidatou à Presidência [em 2002], se projetou a partir dessa base eleitoral evangélica do Rio e de outros Estados.

A diferença do bolsonarismo para o Garotinho é que o Jair Bolsonaro e seus conselheiros perceberam que o potencial da direita radical estava na junção da base evangélica que ele já dispunha no Rio com o agronegócio do Centro-Oeste.

Em certa medida, a candidatura do Ronaldo Caiado já estava condenada em 2018, quando o eleitorado e os financiadores potenciais das campanhas dele já tinham migrado para o Bolsonaro. Essa é a base do bolsonarismo que está se estratificando e que vai se consolidar.

Inclusive, veremos novidades muito grandes na política brasileira com um Senado totalmente dominado pela direita e pela direita radical e uma esquerda mais enfraquecida.

Será até mais difícil para a esquerda agora do que foi na época do Bolsonaro pai.

BBC News Brasil - Por quê?

Alencastro - Porque a base de Flávio no Congresso é muito maior. E ele tirou o Lula do pedaço. Antes [no governo de Jair Bolsonaro], o Lula estava na cadeia, podendo sair. A diferença é que os militares estão vacinados. Há generais do Exército presos que serão indultados. E tem um alerta muito interessante do [João] Amoêdo [do Partido Novo]: Flávio vai tirar o pai da cadeia, vai indultá-lo e colocá-lo para trabalhar com ele na Casa Civil. O pai foi condenado por golpismo!

Teremos no Planalto não apenas um bloco eleitoralmente forte da direita radical, mas também um bloco golpista. O [ex-deputado federal] Eduardo Bolsonaro no Itamaraty será um caos. O Brasil tem compromissos internacionais e o Trump não ajuda nenhum aliado dele.

BBC News Brasil - Os resultados dos Executivos estaduais, do Congresso e dos legislativos estaduais indicam um aprofundamento da legitimidade da direita radical. Mas, para além da análise contextual, o que isso significa do ponto de vista histórico?

Alencastro - Esses resultados questionam o PT e a esquerda de maneira profunda a longo prazo. A discussão não é sobre se Lula deveria ter ido ao debate [da TV Globo, na quinta-feira, 1], se deveria ter usado chapéu, etc. São efeitos secudários da derrota.

O PT nasceu do movimento sindical, mas é preciso ver que a situação da classe trabalhadora mudou. Ela não tem mais o papel estratégico que sempre teve, como já foi assinalado por muitos movimentos políticos e por muitos pesquisadores.

O fato do movimento sobre o fim da escala 6x1 ter vindo do Rick Azevedo [eleito vereador pelo PSOL, no Rio de Janeiro, em 2024] no TikTok mostra como essa reivindicação profundamente ligada a uma luta social de dois séculos — a redução do tempo de trabalho — veio por fora do movimento sindical ligado ao PT e ao próprio partido.

Ele pegou esse trem em marcha dizendo que era uma pauta tradicional da CUT [Central Única dos Trabalhadores]. Foi a [deputada federal]Erika Hilton quem encaminhou o projeto na Câmara. Isso tudo deveria gerar uma reflexão profunda do movimento sindical.

O PT também perdeu mais nos municípios do interior do país onde há mais pobres. Perdeu onde a Igreja Católica é mais forte. Vai muito além do futuro do Lula. Tem a ver com o futuro do próprio PT e com o futuro da esquerda estruturada no Brasil.

BBC News Brasil – Isso explica o fato dos dois candidatos jovens ligados ao bolsonarismo – Lucas Pavanato, em São Paulo, e Nikolas Ferreira, em Minas Gerais – terem se tornado os mais votados da história do Brasil ontem?

Alencastro - Eles responderam à aspiração de mudança do eleitorado. Não está claro o que a direita vai fazer, porque nos debates do segundo turno ele [Flávio] vai ter que explicar o programa de governo dele, e isso pode ter outros desdobramentos, mas é um fato que a sociedade brasileira é mais conservadora do que a gente imaginava — do que eu imaginava, pelo menos. Ou se tornou mais conservadora.

BBC News Brasil - Que diferenças e semelhanças entre lulismo e bolsonarismo impactaram no resultado do primeiro turno?

Alencastro - Eles são radicalmente diferentes na política e na base eleitoral. O Lula tem a maioria dos votos de quem ganha até dois salários mínimos. Isso é uma constante. Ele tem maioria entre os afrodescendentes, nas regiões mais pobres do Nordeste e mantém ainda uma base operária em São Paulo — na Baixada Santista e no ABC.

O Bolsonaro é uma liderança dessa zona tenebrosa do Rio de Janeiro. As acusações são conhecidas: mais de 30 imóveis comprados com dinheiro vivo, várias coisas enroladas que não pertencem à base do Lula. E ele tem a pretensão de estabelecer a religião dele como a oficial do país. Veremos essa diferença em defesas de políticas como a do sistema de cotas nas universidades, por exemplo.

BBC News Brasil - O bolsonarismo não irrompe como uma perspectiva de mundo, um jeito de ser, enquanto o lulismo permanece sendo um projeto político, tal como era o varguismo, por exemplo?

Alencastro - Eu concordo em partes. É difícil comparar Getúlio Vargas com Lula. O Getúlio era da classe dominante, era da oligarquia gaúcha. A história do Lula é diferente. O lulismo e o PT nasceram de baixo para cima justamente porque o trabalhismo era fraco politicamente em São Paulo. Ele nunca pisou no Estado mais industrializado do país.

BBC News Brasil - Mas, em perspectiva histórica, essa diferença faz sentido?

Alencastro - Claro. A direita radical brasileira é a mais autêntica do mundo, porque é enraizada em fatores endógenos, internos. O problema da migração clandestina, ilegal, que é central nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, não existe no Brasil.

A direita radical aqui é fundada em uma crença profunda contra o progresso social — como se vê no debate do fim da escala 6x1 —, contra a ciência e contra uma maior liberdade de espírito diante da vida, da religião, dessas coisas todas.

Essa direita radical não é favorecida por fatores externos, incontroláveis, como a migração na Europa. Ela é nutrida por uma doutrina puramente reacionária. Essa é a especificidade do bolsonarismo.

BBC News Brasil – E o que fez o lulismo permanecer relevante por tanto tempo, então?

Alencastro - Ele foi uma herança da luta anti-ditadura, da Constituição de 1988, que é liberal e progressista, além da perda de hegemonia da direita mais conservadora. É até por isso que eu acho cretinismo, de parte da esquerda, propor uma nova Constituinte. Fazer isso, agora, com a esquerda enfraquecida, vai servir apenas para quê? Só para piorar a Constituição.