As denúncias de estupro que fizeram reality show sobre casais virar caso de polícia

Crédito, BBC/PA
- Author, Noor Nanji
- Role, Correspondente de Cultura, BBC News
- Author, James Chater
- Published
- Tempo de leitura: 7 min
Aviso: esta reportagem contém relatos de supostos crimes sexuais e má conduta
As acusações de estupro envolvendo a versão britânica do programaMarried at First Sight ("Casamento à Primeira Vista", em tradução livre), exibido pelo Channel 4, são "graves" e deve haver consequências em casos de "crimes ou irregularidades", afirmou o Departamento de Cultura, Mídia e Esporte do Reino Unido (DCMS, na sigla em inglês).
Uma investigação do programa Panorama, da BBC, revelou denúncias de duas mulheres que afirmam ter sido estupradas durante as gravações de Married at First Sight UK. Uma terceira relatou ter sido vítima de um ato sexual sem consentimento.
O órgão regulador Ofcom afirmou que emissoras de TV precisam tomar "os devidos cuidados" com o bem-estar dos participantes.
O grupo de turismo TUI informou à BBC News que suspendeu o patrocínio ao programa.
O Channel 4 retirou todos os episódios do reality de suas plataformas de streaming e dos canais de TV, além das redes sociais de Married at First Sight UK.
Em comunicado divulgado pouco depois de a BBC News publicar a reportagem, na segunda-feira (18/5), o Channel 4 afirmou ter encomendado, no mês passado, uma revisão externa dos protocolos de bem-estar do programa "depois de receber graves denúncias de irregularidades".
Os advogados da CPL Productions, produtora independente responsável pela versão britânica do programa, afirmaram que o sistema de proteção aos participantes era "referência no setor" e seguia padrões de excelência. Eles também disseram que a empresa agiu de forma apropriada em todos os casos.
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A CEO do Channel 4, Priya Dogra, manifestou solidariedade aos participantes que "claramente ficaram angustiados após participarem do Married at First Sight UK".
Ela afirmou que as acusações são contestadas pelos envolvidos e acrescentou acreditar que a emissora "agiu de forma rápida, apropriada e sensível, mantendo o bem-estar dos participantes como prioridade" quando surgiram as denúncias.
No entanto, ao ser questionada por um repórter se gostaria de pedir desculpas às mulheres envolvidas, ela se recusou a comentar e retornou à sede do Channel 4, em Londres.
O ministro da Segurança do Reino Unido, Dan Jarvis, disse estar "extremamente preocupado" com as acusações reveladas pela investigação da BBC e pediu que o Channel 4 e a CPL apurem completamente os fatos.
"Também diria que, dada a gravidade dessas acusações, é muito provável que o caso seja encaminhado à polícia, que ficará responsável pela investigação", acrescentou.
Alex Mahon, que foi CEO do Channel 4 entre 2017 e 2025, respondeu a perguntas de parlamentares durante uma reunião já agendada do Comitê de Cultura, Mídia e Esporte do Reino Unido na terça-feira (19/5).
"Assisti ao programa e havia acusações muito sérias e preocupantes nele", afirmou Mahon.
Ao comentar a revisão anunciada pelo Channel 4, ela disse: "Acho que a decisão correta é abrir uma investigação. Depois, precisamos ver a que conclusões essas investigações chegarão e agir com base nos resultados".
Questionada sobre a necessidade de medidas adicionais, Mahon declarou ao comitê: "O setor está sempre tentando evoluir e levar as denúncias ou incidentes muito a sério".
"Os protocolos de proteção aos participantes estão em constante evolução, mas sempre vale a pena reavaliá-los, especialmente em um caso como este, que envolve acusações bastante graves, para garantir que medidas suficientes tenham sido adotadas e continuem sendo adotadas, e que os protocolos estejam evoluindo da maneira adequada."
A presidente do comitê, Caroline Dinenage, afirmou à BBC News que Married at First Sight UK "envolvia um elemento de risco" como programa de TV.
"É um programa de TV que praticamente parte do princípio de que pessoas que acabaram de se conhecer terão de desenvolver uma intimidade muito grande", afirmou.
"Espera-se que elas compartilhem uma cama e uma vida juntas poucos minutos depois do primeiro encontro. Parece quase uma tragédia anunciada", disse Dinenage.
Em entrevista ao programa Today, da BBC Radio 4, Dinenage afirmou que o reality precisava garantir medidas de proteção antes, durante e depois das gravações, porque as mulheres retratadas no documentário do Panorama "não compreenderam completamente o que havia acontecido com elas até mais tarde".
Apresentado como um "ousado experimento social", Married at First Sight UK mostra pessoas solteiras concordando em "se casar" com desconhecidos, que conhecem pela primeira vez em cerimônias de casamento encenadas.

As três mulheres que fizeram as denúncias afirmam que o Channel 4 não fez o suficiente para protegê-las.
O Channel 4 já tinha conhecimento de parte das acusações antes da exibição do programa, e todos os episódios com participação das mulheres estavam disponíveis na plataforma de streaming da emissora até serem retirados do ar na segunda-feira (18/5).
O Channel 4 já havia dito anteriormente ao programa Panorama que todas as acusações eram desprovidas de comprovação e contestadas pelos envolvidos.
Os "casamentos" exibidos no reality não têm validade legal, mas o público acompanha os casais em uma "lua de mel" antes de passarem a morar juntos e lidar com o relacionamento, tudo isso sendo filmado quase diariamente.
As três mulheres ouvidas pela BBC fazem acusações contra os homens com quem formaram casal no programa e afirmam ter decidido falar porque acreditam que deveriam ter recebido maior proteção.
Uma delas disse querer que a CPL Productions deixe de "permitir que pessoas sejam feridas".
- Uma mulher afirmou que o homem apresentado como seu marido no programa a estuprou e ameaçou atacá-la com ácido. Ela agora pretende mover uma ação judicial contra a CPL.
- Outra mulher relatou ao Channel 4 e à CPL, antes da exibição do programa, que havia sido supostamente estuprada pelo homem com quem formou um casal. Mesmo assim, os episódios em que ela aparece foram exibidos.
- A terceira mulher, Shona Manderson, a única das três identificada publicamente, acusou o homem apresentado como seu marido no reality, Bradley Skelly, de ejacular dentro dela sem o seu consentimento.
Os advogados do homem apresentado como marido da primeira mulher no reality afirmaram que ele nega a acusação de estupro e sustenta que todas as relações sexuais foram totalmente consensuais. Segundo eles, ele também negou ter sido violento ou feito ameaças contra ela.
Os advogados do homem que formou casal com a segunda mulher disseram que ele contestou partes do relato apresentado por ela. Segundo a defesa, a relação sexual começou de forma consensual, mas ela teria demonstrado, por meio da linguagem corporal, que não consentia mais, e ele teria interrompido o ato imediatamente.
Bradley Skelly afirmou ter entendido que Shona Manderson havia consentido que ele ejaculasse dentro dela naquela noite. Em comunicado, ele negou categoricamente "qualquer acusação de má conduta sexual" e também rejeitou a alegação de que fosse "controlador".
Segundo Skelly, a relação dos dois "era baseada em consentimento mútuo, cuidado e afeto".
Enquanto isso, a Film and TV Charity, entidade que presta apoio a profissionais da indústria audiovisual, publicou uma mensagem de apoio às pessoas que possam ter sido afetadas pela edição de segunda-feira (18/5) do Panorama.
Married at First Sight é uma franquia de televisão de grande sucesso internacional. Muitos participantes afirmam entrar no programa em busca de um relacionamento amoroso. Outros procuram projeção nas redes sociais. A versão britânica do programa é exibida há dez temporadas.
A audiência frequentemente ultrapassa 3 milhões de espectadores, tornando o reality um dos programas de maior sucesso do Channel 4.
A temporada mais recente já foi gravada e deve ser exibida ainda neste ano.
Jess Phillips afirmou à BBC News, após assistir ao Panorama, que parecia "muito provável" que problemas desse tipo surgissem em um programa como Married at First Sight UK.
"A produção deveria ter contado com especialistas em violência doméstica e violência sexual disponíveis para orientar a equipe", afirmou.
"Qualquer sinal de problema como esse deveria ter levado à interrupção imediata das gravações, em vez de colocar sobre a vítima a responsabilidade de tomar essa decisão enquanto ela se sente pressionada."
Farah Nazeer, CEO da organização Women's Aid, disse à BBC: "No momento em que algumas dessas denúncias surgiram, eles deveriam ter adotado medidas de proteção de forma muito mais proativa.
"Qualquer pessoa que tenha vivido esse tipo de abuso leva tempo para conseguir falar sobre o que aconteceu. Existe muito trauma envolvido e, muitas vezes, também vergonha."
Nazeer, da Women's Aid, afirmou que todas as pessoas envolvidas em realities de TV deveriam receber treinamento sobre prevenção à violência doméstica e agressões sexuais. Ela acrescentou que organizações independentes, sem vínculo financeiro com a produtora, também deveriam participar desse acompanhamento.
"Se as emissoras pretendem produzir programas centrados em intimidade, precisam colocar proteção e cuidado no centro da produção da mesma maneira", afirmou Nazeer. "Acho que os relatos mostram que, nos momentos em que essas mulheres relataram hematomas, agressões e outras acusações graves, elas não foram imediatamente afastadas dessas relações."
Em nota enviada à BBC News, um porta-voz do Departamento de Cultura, Mídia e Esporte do Reino Unido afirmou: "Todas as denúncias devem ser encaminhadas às autoridades competentes e investigadas com plena cooperação dos envolvidos, com medidas adotadas para garantir os mais altos padrões e consequências para crimes ou irregularidades".
Um porta-voz do Ofcom afirmou: "Nossas regras determinam que as emissoras devem tomar os devidos cuidados com o bem-estar de pessoas que possam correr risco de sofrer danos significativos em decorrência da participação em um programa."
"Tomamos conhecimento de que o Channel 4 abriu uma revisão externa sobre os cuidados oferecidos aos participantes de Married at First Sight UK e aguardamos as conclusões", acrescentou. "Vamos analisar isso e todas as demais evidências disponibilizadas."
* Married at First Sight UK não é exibido no Brasil




























