Captura, mudança de poder e colapso: o que pode acontecer em Cuba após governo Trump indiciar Raúl Castro?

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- Author, Bernd Debusmann Jr.
- Role, Da Casa Branca, em Washington (EUA), para a BBC News
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Os Estados Unidos indiciaram o ex-presidente cubano Raúl Castro, de 94 anos, por assassinato, alimentando as especulações de que Havana possa ser a próxima na lista de mudanças de regime de Washington.
Em meio a uma campanha de máxima pressão, que levou à maior escassez de energia e combustíveis ocorrida em Cuba nas últimas décadas, um coro contínuo de autoridades americanas clama pelo fim do governo comunista na ilha, que já dura 66 anos.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou acreditar que a "escalada" não será necessária. Mas a Casa Branca também prometeu não tolerar um "Estado vilão" a 144 km do litoral norte-americano.
Ninguém sabe dizer com certeza o que virá a seguir: colapso econômico, convulsão doméstica ou uma intervenção militar americana. Aqui estão três possibilidades.
1. Os EUA poderão capturar Raúl Castro
Castro foi indiciado por acusações decorrentes da derrubada de duas aeronaves civis por jatos de combate cubanos em 1996.
O caso gerou imediatamente especulações de que as forças americanas poderiam lançar uma operação para capturá-lo e levá-lo para a Justiça americana. Afinal, esta operação tem seus precedentes.
Em janeiro deste ano, as Forças Armadas americanas lançaram uma operação relâmpago na Venezuela para capturar o então presidente Nicolás Maduro, aliado de Cuba de longa data. Ele foi levado para Nova York, nos Estados Unidos, para responder a acusações sobre drogas e armas.
Em 1989, uma operação muito maior, chamada Operação Justa Causa, levou milhares de soldados americanos a invadir o Panamá para derrubar e deter o então líder do país, Manuel Noriega (1934-2017).
Até o momento, Trump descartou as questões sobre a possibilidade de que ele esteja planejando uma operação similar em Cuba. Mas vários legisladores americanos defenderam abertamente a concretização desta missão.
"Não devemos retirar nada da mesa", disse aos repórteres o senador Rick Scott, da Flórida. "O mesmo que aconteceu com Maduro deveria ocorrer com Raúl Castro."

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Especialistas afirmam que, do ponto de vista militar, uma operação para capturar o ex-presidente cubano é viável, mas ela acarretaria riscos e complicações, incluindo uma possível resistência e sua idade avançada.
"De certa forma, pode ser mais fácil extraí-lo", segundo Adam Isacson, especialista regional da ONG Escritório de Washington sobre a América Latina. "Seu valor simbólico significa que ele é fortemente protegido, mas certamente é possível."
Mas a retirada de Castro, que renunciou à presidência em 2018, pode não causar impactos significativos ao governo cubano como um todo, mesmo que ele seja considerado há anos uma figura influente.
"Não acho que afetaria muito a estrutura de poder em Cuba. Ele tem 94 anos", explica Isacson. "A dinastia da família Castro tem influência, mas não é fundamental para o que eles construíram."
"Ainda assim, por razões políticas domésticas, provavelmente seria um baque", destaca ele.
"Eles adorariam humilhar os Castro e colocar um dos revolucionários originais de 1959 atrás das grades. Mas sua importância estratégica é questionável."
2. Os EUA poderão buscar mudanças da liderança em Havana
Uma possibilidade considerada pelas autoridades americanas, incluindo Donald Trump, é que uma nova liderança possa assumir o poder em Havana.
Especialistas observam que este roteiro poderá ser similar à substituição de Maduro por Delcy Rodríguez, na Venezuela. O governo do país, em grande parte, permaneceu intacto, mas passou a lidar diretamente com o governo Trump.
O presidente americano afirmou repetidamente já estar tratando com figuras em Cuba que esperam a ajuda americana em meio à desolação econômica cada vez maior.
"Cuba está pedindo ajuda e iremos conversar", escreveu ele em 12 de maio, na rede Truth Social.
Dias depois, o diretor da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA, na sigla em inglês), John Ratcliffe, se reuniu com autoridades cubanas, incluindo o neto de Castro, Raúl Guillermo Rodríguez Castro (conhecido como o "Caranguejo"), e o ministro do Interior, Lázaro Álvarez Casas.
"Iremos colaborar com os cubanos... Afinal, eles precisam tomar uma decisão. Seu sistema simplesmente não funciona", declarou aos repórteres o secretário de Estado americano, Marco Rubio, no Estado americano da Flórida na quinta-feira (21/5).
Rubio destacou que a preferência do governo americano é por um "acordo negociado".

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As mudanças desejadas pelos Estados Unidos poderão incluir a promessa de abertura da economia, incentivo aos investimentos estrangeiros e o envolvimento de grupos de cubanos no exílio, além do compromisso com o fim da presença de agências de inteligência russas ou chinesas na ilha.
O mais importante é que essas mudanças poderão deixar o governo cubano, em grande parte, intacto.
"Da mesma forma que quiseram evitar a instabilidade na Venezuela, eles querem evitar a instabilidade em Cuba", segundo o professor de Estudos Latino-Americanos Michael Shifter, da Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos. Ele é ex-diretor do centro de estudos Diálogo Interamericano, com sede em Washington.
"Forçar uma mudança de regime para isso seria muito arriscado", explica ele.
Diversos especialistas consultados pela BBC declararam que o desafio para o governo Trump é que não existe uma figura imediatamente óbvia, aguardando nas sombras, dentro de Cuba.
"Não acho que exista uma óbvia Delcy Rodríguez na ilha", segundo Shifter, "e o poder funciona de forma diferente em Cuba, em relação à Venezuela."
"É difícil encontrar o que eles estão procurando, mas acho que eles buscam algum tipo de estrutura de governo."
3. Cuba poderá entrar em colapso
Uma terceira possibilidade é que Cuba vergue sob o peso das imensas pressões econômicas enfrentadas pela ilha, que já ocasionam horas diárias de apagões e escassez massiva de alimentos no país.
"Não haverá escalada. Acho que não é necessário", disse Trump esta semana.
"O lugar está se desfazendo. É um desastre e eles perderam o controle, até certo ponto."
Mas os especialistas pintam um quadro muito mais complicado. Segundo eles, os mecanismos de controle do governo cubano sobre a sua população permanecem praticamente intactos, mesmo durante a difícil fase econômica atual.
"Você precisa distinguir a economia cubana do Estado e do governo de Cuba", explica Shifter.
"A economia cubana pode entrar em colapso e está entrando... mas o Estado ainda funciona, especialmente em relação à segurança."
O eventual colapso do Estado também pode representar um desafio para o governo Trump, se os cidadãos cubanos começarem a fugir do país em grandes números, particularmente rumo aos Estados Unidos.
Os cubanos que chegaram mais recentemente ao país não foram poupados da falta de acesso a asilo político e de outras restrições à imigração, intensificadas durante o governo Donald Trump.
"Se houver um colapso, você verá uma grande parte da população cubana fazer tudo o que puder para fugir, da mesma forma que ocorre no Haiti há anos", segundo Isacson.
"A Flórida é o lugar mais próximo, mas eu também esperaria ver algumas pessoas saírem para o México."
Isacson conta que está "surpreso" por esse fluxo de saída ainda não ter começado.
"As pessoas, provavelmente, estão subsistindo com 1 mil ou 1,5 mil calorias por dia e não conseguem assistência médica básica", afirma ele. "É de se imaginar que eles já estejam construindo seus barcos."































