A sangrenta imagem de 1770 que alimentou a Independência dos EUA

Detalhe da ilustração mostrando soldados britânicos disparando contra civis americanos

Crédito, Museu Metropolitano de Arte de Nova York/Doação da Sra. Russell Sage

    • Author, Deborah Nicholls-Lee
    • Role, BBC Culture
  • Published
  • Tempo de leitura: 7 min

Importante: esta reportagem contém uma imagem ilustrativa de combate que pode ser perturbadora para alguns leitores.

A neve cobria os campos na noite de 5 de março de 1770, em Boston, no Estado americano de Massachusetts.

Um único sentinela britânico montava guarda em frente à alfândega local. Sua respiração formava nuvens de névoa branca no ar congelante.

Saindo da escuridão, um adolescente começou a insultá-lo e atirar neve contra ele. E logo chegou uma multidão cada vez maior para acompanhá-lo.

Os soldados foram chamados para vir em auxílio do sentinela, causando a escalada do confronto.

A multidão atirava conchas de ostras, carvão e pedaços de gelo contra os soldados, até que o distúrbio se tornou devastador. Os britânicos abriram fogo, matando três homens e deixando outros dois mortalmente feridos.

No Reino Unido, o evento ficou eufemisticamente conhecido como "o incidente de King Street". Mas, nas colônias, ele recebeu o nome de "Massacre de Boston".

O caso se tornou um importante catalisador da independência dos Estados Unidos, que comemora 250 anos neste dia 4 de julho e é comemorado por instituições culturais em todo o país.

Três semanas depois do massacre, uma gravura em chapa de cobre, produzida pelo renomado ourives Paul Revere (1735-1818), apareceu para venda nos jornais de Boston. Seu título era "O Massacre Sangrento perpetrado em King Street, Boston, em 5 de março de 1770, por um grupo do 29° Regimento".

Sua sangrenta ilustração dos nacionalistas caídos, banhados em sangue, sendo alvejados por uma linha de soldados sorridentes, despertou o sentimento antibritânico e alimentou a chama da rebelião.

Uma das 29 impressões existentes da gravação está guardada no Museu de Arte de Wichita Falls, no Estado americano do Texas.

O museu comemora o aniversário da assinatura da Declaração de Independência dos Estados Unidos com a exposição intitulada Printing the American Revolution ("Imprimindo a Revolução Americana, em tradução livre). Ela examina a participação da imprensa escrita na Independência dos Estados Unidos.

Ilustração de Paul Revere mostrando o episódio que ficou conhecido como o Massacre de Boston

Crédito, Museu Metropolitano de Arte de Nova York/Doação da Sra. Russell Sage

Legenda da foto, A gravura aterradora do ourives Paul Revere alimentou o sentimento antibritânico nas colônias da América

"A ilustração do Massacre de Boston por Revere foi um poderoso instrumento de propaganda, especialmente em um mundo onde os índices de analfabetismo variavam entre as regiões e as populações", explica a professora de história Mary Draper, da Universidade Estadual Midwestern, nos Estados Unidos, e uma das curadoras da exposição.

"Ao dispor os soldados britânicos em uma linha ordenada e retratar o caos dos colonos desarmados, ele transmitiu uma mensagem clara sobre quem estava errado e quem eram as vítimas. A gravura convocou os colonos a resistir ao domínio britânico."

Mensagens ocultas

O trabalho também contém mensagens ocultas indicando quem está no lado errado da história.

Uma placa com os dizeres "Açougue" ergue-se sobre os soldados britânicos, enquanto um cachorro (símbolo de lealdade) aparece em posição proeminente entre os colonos.

"Esta imagem foi obviamente destinada a incitar o ódio no observador em relação à cena, pois exibe cidadãos indefesos sendo alvejados por soldados", explica à BBC Constance McPhee, uma das curadoras da exposição Revolution! ("Revolução!"), em cartaz no Museu Metropolitano de Arte de Nova York, nos Estados Unidos.

A gravura é um dos destaques da exposição, que reúne obras de arte que indicam as origens da Revolução Americana e dos eventos que se seguiram.

A imagem insinuava que os britânicos não eram mais "uma força amiga e paternal", mas sim uma "força opressora", segundo ela. "Ela começou a mudar a opinião das pessoas."

Para os alfabetizados, a inscrição inflamada incluída sob a imagem deixa muito clara a brutalidade dos britânicos, descritos como "bárbaros ferozes", que agiam com "rancor assassino".

Ela também convoca os nacionalistas a "apaziguar os queixosos Fantasmas das Vítimas", relacionas abaixo no texto.

Em um ensaio de 2022 sobre a gravura, o historiador Steven L. Danver indica que a obra "desempenhou papel fundamental para definir a postura das colônias em relação ao domínio britânico" e "conseguiu unir os colonos por uma causa comum e promover um senso de urgência pela independência".

Momento crucial

O momento da publicação da gravura foi fundamental.

As tensões estavam aumentando entre os colonos americanos, desgostosos com a crescente presença militar britânica, redução das liberdades civis e por uma série de políticas fiscais indesejadas, que levavam os americanos a financiar a dívida nacional britânica.

O incidente no lado de fora da alfândega de Boston, o grande símbolo dos impostos abusivos, era uma oportunidade boa demais para ser perdida.

Ilustração em preto e branco mostrando Paul Revere durante sua 'cavalgada da meia-noite', em 1775

Crédito, Alamy

Legenda da foto, Revere foi considerado posteriormente um herói nacional pela sua 'cavalgada da meia-noite' em 1775, para alertar os nacionalistas sobre os avanços do exército britânico

Revere era membro do grupo de resistência Filhos da Liberdade. Ele foi posteriormente considerado herói nacional americano, devido à sua "cavalgada da meia-noite", em 1775.

Na ocasião, ele ajudou a vencer o exército britânico, correndo para alertar os nacionalistas sobre os seus avanços. Diversos outros cavaleiros também participaram desta missão.

Revere aproveitou o massacre de Boston para fortalecer o apoio ao objetivo do grupo, capitalizando as emoções exacerbadas.

Ele plagiou outro desenho do evento, de autoria de Henry Pelham (c.1748-1806), e correu para comercializar sua gravura. Ele não deu crédito nem remunerou Pelham, que enviaria a Revere uma carta amargurada, lamentando suas "ações desonrosas".

'Alimentou a fúria'

Parte do impacto da obra de arte é consequência da sua raridade. "É uma das poucas feitas por um impressor americano", conta McPhee.

Ela destaca que sua distribuição ampla e rápida "indicava a importância atribuída" à gravura pelas pessoas.

Segundo McPhee, "não há outra obra com tantas cópias criadas" naquela época. E, ao divulgar a notícia do massacre, a gravura alimentava a fúria popular.

Folhetos com a gravura eram exibidos em lojas e tavernas, ou vendidos para levantar dinheiro para os Filhos da Liberdade. Antes clandestino, o grupo cresceu exponencialmente e passou a ser o principal porta-voz da causa nacionalista.

Paralelamente, circulavam plágios da gravura, como a versão de Jonathan Mulliken (1746-1782). De um lado, elas forneciam a Revere uma dose do seu próprio remédio, mas também repercutiam sua convocação popular.

Ilustração em preto e branco do Massacre de Boston

Crédito, Alamy

Legenda da foto, A gravura foi baseada em um desenho original de Henry Pelham

A gravura de Revere também se tornou o frontispício do panfleto A Short Narrative of the Horrid Massacre in Boston ("História resumida do horrível massacre em Boston", em tradução livre), de 1770.

A peça de propaganda viajou por milhares de quilômetros, até que o panfleto e versões da gravura foram impressos em Londres. Com isso, o horror e a injustiça do massacre de Boston passaram a confrontar o povo britânico na sua própria terra.

'O fervor do nosso entusiasmo'

Para transmitir uma mensagem forte para as pessoas, a imagem incluiu diversos exageros e falsidades.

Ela ambienta o evento à luz do dia e omite todas as evidências de agressão dos nacionalistas. Até a neve atirada contra os soldados como provocação derreteu sem deixar traços.

O mais importante, como as testemunhas declarariam posteriormente à Justiça, é que ela ilustra incorretamente os britânicos como tendo iniciado o conflito, com o capitão Thomas Preston (c.1722-c.1798), à direita, dando o comando para que os soldados disparassem contra a multidão indefesa.

Preston negou ter dado a ordem e foi absolvido desta acusação. Alguns relataram terem ouvido a palavra "fogo", mas da boca dos nacionalistas, desafiando os soldados a atirar.

No seu pronunciamento de abertura do julgamento, o advogado de defesa, Josiah Quincy (1744-1775), pareceu alertar o júri sobre o poder de influência da gravura, que poderia induzir as pessoas a erro.

"As impressões exibidas nas nossas casas deram asas à fantasia", declarou ele. "E, no fervor do nosso entusiasmo, a razão corre o risco de ser perdida."

O efeito da propaganda oferecida pela gravura permaneceu na consciência pública por muito tempo depois da sua criação.

No primeiro aniversário do massacre, Revere a incorporou em uma enorme tela iluminada na janela da sua casa. Milhares de espectadores se aglomeraram para observar a ilustração.

Um século depois, retratos do evento por artistas como W. L. Champney e Alonzo Chappel (1828-1887) realizaram ajustes factuais, mas mantiveram viva a narrativa principal.

Retrato em preto e branco de Paul Revere, com uma das mãos segurando o queixo

Crédito, Alamy

Legenda da foto, Retrato de Revere por John Singleton Copley, de 1768. Ele é relembrado nos Estados Unidos como um herói nacional popular

O Instituto Gilder Lehrman de História Americana afirma que "a histórica gravura de Paul Revere... provavelmente foi a obra de propaganda de guerra mais eficaz da história dos Estados Unidos".

Certamente, esta é uma das imagens mais conhecidas da Revolução Americana e seus efeitos são sentidos até hoje.

"Apesar das suas pequenas dimensões, a obra ainda evoca emoções entre os observadores", segundo Mary Draper.

"Parte do seu poder reside na sua contínua relevância. Cada geração pode interpretar esta obra de formas que refletem suas próprias ideias sobre autoridade, violência e protestos."

A gravura também é "um marcante lembrete de que o passado é simplesmente tão contestado quanto o presente", conclui a professora.

A exposição Revolução! está em cartaz no Museu Metropolitano de Arte de Nova York, nos Estados Unidos, até o dia 7 de setembro de 2026.

A exposição Imprimindo a Revolução Americana está em cartaz no Museu de Arte de Wichita Falls, nos Estados Unidos, até o dia 22 de agosto de 2026.

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Culture.