'Brasil tem de parar de se gabar' no futebol e 'descer do salto', diz biógrafo escocês de Pelé

A foto em preto e branco mostra Pelé sendo carregado nos ombros por uma multidão dentro de um estádio lotado. Sem camisa e usando um grande sombrero, ele ergue o dedo indicador enquanto sorri para o público, cercado por torcedores, fotógrafos e seguranças. Ao fundo, as arquibancadas completamente cheias e os painéis de publicidade reforçam o clima de celebração após uma partida.
Legenda da foto, Pelé celebra vitória do Brasil sobre a Itália no estádio Azteca, no México, em 21 de junho de 1970
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O jornalista escocês Andrew Downie teve o privilégio de testemunhar a alegria do Brasil quando o país venceu a Copa do Mundo pela última vez, em 2002. Àquela época, ele vivia entre Rio de Janeiro e São Paulo e era correspondente de jornais de relevo internacional, como o americano The New York Times, o britânico The Guardian e a agência de notícias Reuters.

Foi nesse período que o jornalista estreitou seus laços com o futebol brasileiro, o que mais tarde lhe renderia dois de seus principais trabalhos: as biografias de Sócrates (Doutor Sócrates) e de Pelé (Epic), escritas a partir de centenas de entrevistas com personagens que marcaram a história do esporte.

Com a mesma honestidade com que admite que a seleção de seu país — a Escócia, derrotada pelo Brasil na fase de grupos — "é ruim", ele afirma que tanto o torcedor quanto o jogador brasileiro deveriam parar de se escorar nas cinco estrelas que ostentam na camisa verde e amarela.

"O brasileiro precisa aprender que não é mais referência. É preciso parar de se gabar de ser pentacampeão, porque isso não importa para a Noruega, o Japão, a Argentina ou para quem quer que esteja jogando contra o Brasil. Eles não têm mais medo do Brasil", diz Downie, por videoconferência, à BBC News Brasil.

"O que importa no próximo jogo é o jogador e o esquema tático. Ter ganhado cinco títulos é um fato histórico, mas realmente não é relevante hoje."

Ele se lembra do comportamento de Neymar. Ao converter o pênalti que encerrou a partida contra a Noruega, a da eliminação do Brasil nesta Copa, o camisa 10 esbravejou contra o goleiro norueguês Ørjan Nyland, que havia lhe feito provocações. "Respeita o Brasil! Cinco estrelas!", ele teria dito.

Para o especialista, se o Brasil quer reverter essa maré de fracassos, é preciso, primeiro, deixar o passado de lado. Ele explica que, se antes o país reunia alguns dos melhores jogadores do mundo, hoje essa vantagem já não existe.

"Pelé sempre falava: 'A gente tem uma técnica melhor do que qualquer outro time'. E era verdade. Ninguém tinha o toque de bola ou o drible do Brasil. Mas isso não é mais suficiente", diz.

Downie opina que outras seleções têm jogadores mais habilidosos, como Messi, com drible melhor do que o de Vinícius Jr., ou Olise, da França, que comanda o meio-campo melhor do que Casemiro ou Paquetá. Também tem Harry Kane, na Inglaterra, que marca gol melhor do que qualquer outro jogador brasileiro; Martínez no gol da Argentina, ou Courtois no da Bélgica, que "são tão bons como Alisson e Ederson".

"O nível de jogador é muito mais nivelado hoje. Não tem escola brasileira, escola uruguaia, como tinha há 40 anos, que faça diferença", acrescenta.

Neymar grita com goleiro da Noruega em campo
Legenda da foto, Neymar quis bater boca com o goleiro da Noruega, que eliminou o Brasil nas oitavas de final

Para onde foi o 'futebol arte'?

O jornalista explica que o estilo de jogo brasileiro, marcado pelo improviso e pelas habilidades individuais de cada atleta — o cultuado "futebol arte" —, não garante mais vitórias na Copa.

Para ele, a discussão nem é se os brasileiros que Carlo Ancelotti escolheu para disputar o Mundial ainda têm essa habilidade, mas o fato de que, hoje, é preciso alinhar essas qualidades a uma estratégia tática.

"Essa criatividade não é valorizada como antes, porque o mais importante para um técnico como Guardiola, Mourinho ou Ancelotti é saber jogar em um sistema. A tática é mais importante do que o poder do drible", diz ele, em contraste com um período em que "o Brasil sempre sabia que poderia ganhar com um pouco de criatividade, espontaneidade, gambiarra, uma malandragem".

Para Downie, a instabilidade institucional do futebol brasileiro também prejudica a seleção. Desde o fim da era Ricardo Teixeira, que presidiu a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) por 23 anos, até 2012, a instituição teve 11 dirigentes — uma média de um novo comandante a cada 14 meses.

"O Brasil tem que descer do salto alto e entender que o futebol mudou. Você tem que ter organização, um sistema, uma maneira de criar jogadores, uma estabilidade institucional. A França, a Espanha e a Inglaterra têm isso, e o Brasil não", diz o jornalista. "A CBF é um caos. Não é bem organizada, não tem esses esquemas que necessita para ser séria."

A imagem mostra um jogador da seleção brasileira de futebol caído no gramado, encolhido e com as mãos cobrindo o rosto, sugerindo dor ou frustração após um lance. Registrada de um ângulo aéreo, a fotografia destaca o contraste entre a figura do atleta e a ampla área verde do campo, reforçando a sensação de isolamento no momento.
Legenda da foto, O então lateral-esquerdo do Brasil, Marcelo, reage ao histórico 7 a1 da Alemanha no Estádio do Mineirão, em 8 de julho de 2014, em Belo Horizonte (MG)

Downie reitera que isso não significa que os jogadores brasileiros não tenham talento. Pelo contrário: eles têm, e prova disso são os contratos de cifras superlativas pelos quais são negociados entre clubes europeus.

No entanto, tomando como exemplo o próprio Neymar, ele diz que "uma coisa é ter talento, e outra é mostrar esse talento, mostrar que o técnico pode confiar em você e estar pronto para cada jogo".

Aliás, a distância do Brasil e a vida na Europa são fatores que, em sua avaliação, prejudicam a construção de uma unidade entre os jogadores brasileiros. Ainda que também haja intercâmbio entre atletas europeus — não é raro ver um inglês jogar na França ou vice-versa, por exemplo —, eles acabam convivendo mais de perto, inclusive dentro de campo.

Boa parte dos espanhóis, por exemplo, passou anos dividindo vestiário entre Barcelona e Real Madrid, enquanto os ingleses se enfrentam e convivem semanalmente na Premier League. Os brasileiros, por outro lado, estão espalhados por ligas de diferentes países e raramente compartilham o dia a dia em seus clubes.

"Até os anos 1970, quase ninguém tinha ido para a Europa. Tinha um ou dois jogadores. Didi foi para o Real Madrid, Vavá também, mas eram poucos", lembra.

Criança pinta a bandeira do Brasil na rua, parte da decoração para Copa do Mundo.
Legenda da foto, Criança pinta a bandeira do Brasil na rua, parte da decoração para Copa do Mundo

O que explica o sucesso dos hermanos

Quando todos os olhos se voltam para a Argentina, que bateu a Inglaterra e enfrenta a Espanha na final, marcada para domingo (19/7), o jornalista diz que o país, diferentemente do Brasil, tem um sistema de formação de jogadores, enquanto, no Brasil, essa tarefa fica a cargo dos clubes.

"A seleção argentina tem estabilidade e continuidade. O técnico está lá há oito anos. E o presidente da federação argentina de futebol? Está lá há mais tempo ainda. Nesse período, quantos técnicos a seleção brasileira teve? Vários. Então, o Brasil não tem estabilidade, continuidade, um plano, metas nem organização. Não é como no passado, quando dava para resolver tudo com um drible."