Por que existe o Dia Mundial do Mosquito — e o que isso tem a ver com o Nobel

Mosquito Anopheles, que transmite a malária

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    • Author, Edison Veiga
    • Role, De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
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Foi em estilo britânico. Em 20 de agosto de 1931, a equipe do Ross Institute and Hospital for Tropical Diseases, em Londres, decidiu oferecer um chá em homenagem ao fundador da organização, o médico e cientista Ronald Ross (1857-1932).

A data não foi aleatória. E, desde então, acabou sendo instituído o 20 de agosto como o Dia Mundial do Mosquito.

Tudo por causa da principal descoberta científica de Ross. Em suas memórias, ele escreveu sobre o dia 20 de agosto de 1897, "cujo aniversário sempre chamo de Dia do Mosquito".

Segundo Ross, estava "nublado, cinzento e quente" em Secunderabad, cidade indiana onde ele estava trabalhando.

"Fui ao hospital às 7h, examinei meus pacientes e cuidei da correspondência oficial, mas fiquei muito irritado porque meus homens não haviam trazido mais larvas de mosquitos de asas manchadas, e ainda mais porque um dos meus três Anopheles restantes havia morrido durante a noite e inchado devido à decomposição", registrou ele.

"Após um café da manhã apressado no refeitório, voltei para dissecar o cadáver (mosquito 36), mas não encontrei nada de novo", pontuou. E então ele prossegue dizendo que decidiu examinar também um mosquito de outra espécie, Stegomyia e, em seguida, o comparou com outro Anopheles que decidira "sacrificar" — porque ambos haviam "se alimentado de Husein Khan".

Khan foi um indiano infectado por malária que participou do experimento, sendo picado voluntariamente por mosquitos.

Naquele dia 20 de agosto de 1897, Ross não só confirmou uma suspeita que pairava — que a malária era transmitida por picada de inseto — como identificou o Anopheles como o vetor. O ciclo estava descoberto.

"O mérito de Ross foi a comprovação experimental do mosquito na transmissão da malária", sintetiza o historiador Gabriel Lopes, pesquisador e professor na Casa de Oswaldo Cruz, a unidade de memória, patrimônio cultural e divulgação científica da Fundação Oswaldo Cruz, e editor científico da revista História, Ciências, Saúde - Manguinhos, publicada pela mesma instituição.

"Ele mostrou que o mosquito era um elo no ciclo da doença e estabeleceu as bases científicas para as estratégias modernas de controle e combate da malária."

Descoberta, poema, Nobel

Foi uma mudança histórica de perspectiva.

"Durante mais de 2 mil anos, acreditava-se que a malária era causada pelos chamados 'maus ares', vapores provenientes de áreas alagadas e pântanos", conta o médico João Otavio Ribas Zahdi, professor na Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná.

"Inclusive, o nome da doença vem dessa ideia: mala aria, ou ar ruim. Havia até quem atribuísse a doença a causas sobrenaturais. Curiosamente, algumas medidas adotadas na época, como a drenagem de pântanos, acabavam reduzindo os casos de malária, mas por diminuírem a população de mosquitos, e não por eliminarem os supostos 'maus ares'."

"Acreditava-se que a malária e outras doenças eram transmitidas a partir da respiração de 'ares ruins', principalmente os provenientes de pântanos", acrescenta o biólogo imunologista Luiz Gustavo Gardinassi, professor na Universidade de São Paulo.

"O que predominava era a chamada teoria dos miasmas, a teoria miasmática, com essa definição dos maus ares", comenta Lopes.

Naquela noite de 1897, o médico Ross — que também era poeta — escreveu um poema, dedicado à sua mulher.

No texto, ele cita que "Deus, em sua misericórdia, colocou em minhas mãos uma coisa maravilhosa". E que, graças a "lágrimas e fôlego árduo", ele havia encontrado as "astutas sementes" da "morte que mata milhões".

"Sei que esta pequena coisa salvará miríades de homens. Ó Morte, onde está teu aguilhão?", diz o texto.

Ronald Ross

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Legenda da foto, Ronald Ross ganhou o Prêmio Nobel de Medicina por sua descoberta sobre a transmissão da malária

Cinco anos mais tarde, o cientista seria laureado com o prêmio Nobel de Medicina, em reconhecimento, conforme texto da Fundação Nobel, a "seu trabalho sobre a malária, pelo qual mostrou como ela entra no organismo e, assim, lançou as bases para pesquisas bem-sucedidas sobre essa doença e métodos para combatê-la".

"Com a descoberta, mudou-se a forma de combater a malária", afirma o historiador Lopes.

Orientado pelo pioneiro

Ross nasceu em Almora, na Índia, então colônia do Reino Unido, filho de um general do exército britânico baseado ali. Em 1865, aos oito anos, seus pais o enviaram para a casa de familiares em Londres para que ele estudasse. Voltaria para a Índia apenas 16 anos mais tarde, já graduado em medicina e nomeado cirurgião do Serviço Médico Indiano.

Com o passar do tempo ele começou a notar relações entre números de mosquitos e doenças. Mais que isso, preocupava-se com a conscientização popular, tendo em vista o entendimento de que menos água parada significava menos proliferação de pernilongos.

Em 1894, em uma de suas visitas a Londres, conheceu o médico e cientista Patrick Manson (1844-1922), considerado o fundador da medicina tropical. Foi Manson quem mais incentivou Ross a estudar a fundo a transmissão da malária.

Zahdi conta que Manson foi pioneiro nessa área, sendo ele quem demonstrou, ainda na década de 1870 "que mosquitos se infectavam com microfilárias ao se alimentarem de sangue humano, provando pela primeira vez uma associação entre insetos e patógenos causadores de doenças humanas".

"Em 1877, Manson tinha demonstrado o papel dos mosquitos na transmissão da filariose, a popular elefantíase", acrescenta o historiador Lopes.

Crianças dormindo com rede protetora

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Legenda da foto, Brasil ainda é uma das regiões endêmicas de malária, sobretudo na Amazônia

Manson insistiu que o colega estava no lugar perfeito para isso, já que a Índia seria, no entendimento do primeiro, o melhor lugar para esse tipo de estudo, praticamente um laboratório vivo. Foi o que ele fez tão logo retomou seu posto, culminando com a descoberta notável de 1897.

"Ele [Manson] foi mentor e incentivador direto de Ross, orientando-o a investigar o papel dos mosquitos na malária", pontua Zahdi.

Dois anos após descobrir o mosquito transmissor da malária, Ross demitiu-se do trabalho indiano e foi embora para a Inglaterra. Trabalhou como professor e pesquisador na Liverpool School of Tropical Medicine e, mais tarde, no King's College Hospital. Trabalhou como consultor para o governo britânico e desenvolveu modelos matemáticos que ajudaram a compreender epidemias.

Em 1926, fundou o instituto e o hospital que emprestaram seu nome — hoje incorporados ao London School of Hygiene and Tropical Medicine.

Combate à malária

A descoberta de Ross "mudou completamente a forma de combater a doença", enfatiza Zahdi. "A partir daí, o foco passou a ser o controle do vetor, com eliminação de criadouros, uso de larvicidas e outras estratégias que possibilitaram campanhas de controle muito mais eficazes", afirma o professor. Mas a malária ainda não foi erradicada.

"A implicação da descoberta [de Ross] foi extrema. Só com campanhas contra o mosquito, contra o vetor, é que se conseguiu reduzir drasticamente a doença", diz Gardinassi. Ao longo do século 20, foram desenvolvidos inseticidas que foram empregados nesses esforços.

Relatório mais recente da Organização Mundial da Saúde sobre a doença, datado de 2024, aponta que anualmente cerca de 280 milhões de pessoas são infectadas, com 600 mil mortes por ano em decorrência da malária.

"O Brasil é uma das regiões endêmicas, considerando a área amazônica", pontua Gardinassi. "Mas o continente africano é extremamente impactado". Cerca de 95% dos casos de malária no planeta ocorrem na África.

"A doença ainda provoca centenas de milhões de casos e cerca de 600 mil mortes por ano, principalmente na África, e enfrenta novos desafios, como a resistência do parasita aos medicamentos, a resistência dos mosquitos aos inseticidas e os impactos das mudanças climáticas", pontua Zahdi.

Conscientização

Ficou a data como um lembrete, uma efeméride que serve como conscientização.

"O Dia Mundial do Mosquito é uma oportunidade importante para lembrar que as doenças transmitidas por esses vetores continuam entre os maiores desafios da saúde pública. Elas afetam milhões de pessoas todos os anos e causam centenas de milhares de mortes, além de gerar um enorme impacto econômico e social", comenta o médico Zahdi.

"Apesar dos avanços das últimas décadas, a malária continua sendo um dos maiores desafios da saúde pública mundial."

"A data também reforça a importância da pesquisa científica, que tem desenvolvido novas estratégias de prevenção e controle, como vacinas, métodos inovadores de combate ao mosquito e sistemas mais eficientes de vigilância", acrescenta. "Ao mesmo tempo, destaca o papel fundamental da população: medidas simples, como eliminar água parada e evitar criadouros, continuam sendo essenciais para reduzir a transmissão. Em um cenário de mudanças climáticas e expansão dessas doenças para novas regiões, conscientização e ciência precisam caminhar juntas."

"É uma data para nos lembrarmos da importância do controle dos insetos. A população precisa se conscientizar, principalmente em regiões tropicais e subtropicais", afirma Gardinassi.

Ele lembra que é preciso sempre manter ambientes domésticos limpos e secos, para que eventuais acúmulos de água não se transformem em criadouros de mosquitos. E não só do Anopheles, aliás. No Brasil, especialmente, o Aedes aegypti é problema constante pela transmissão de dengue, febre amarela, zika e chikungunya.

"Originalmente, o Dia Mundial do Mosquito era [considerado] o 'dia da malária'. Mas isso se ampliou e daí a sua importância", comenta Lopes. "Nesse sentido, hoje se conscientiza que os mosquitos transmitem diversas doenças. E no Brasil lembramos também do Aedes aegypti."