'Razão e Sensibilidade': 4 erros das adaptações de Jane Austen, segundo especialistas

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- Author, Molly Gorman
- Role, BBC Culture
- Published
- Tempo de leitura: 7 min
Os clássicos romances de Jane Austen (1775-1817) estão sempre sendo readaptados.
Este ano, estão chegando duas novas adaptações: uma nova versão cinematográfica de Razão e Sensibilidade, da diretora Georgia Oakley — que estreia nos cinemas brasileiros em 29/10) —, e uma série de TV de Orgulho e Preconceito. São as mais recentes produções de uma longa lista de tentativas de traduzir as obras da adorada escritora britânica do século 19 para as telas.
Cada geração terá suas adaptações favoritas. E uma verdade universalmente reconhecida é que nenhum filme ou série de TV sobre um livro consegue ser totalmente fiel ao texto original.
Mas existem certos aspectos das adaptações de Austen que sempre acabam irritando os apaixonados admiradores da romancista.
Aqui estão quatro itens que costumam sair errado, segundo os especialistas.

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1. Elas se concentram no romance de conto de fadas
O romance ocupa papel central na maior parte das adaptações das obras de Jane Austen.
Mas "Austen se concentra muito mais na heroína", segundo a pesquisadora Kathryn Sutherland, da Universidade de Oxford, no Reino Unido. "Ela é uma romancista psicológica... este é o interesse dela."
Austen apresenta ao leitor heroínas imperfeitas, que enfrentam desafios morais e obstáculos sociais, independentemente do seu interesse amoroso. É esta característica que faz com que as mulheres modernas se identifiquem mais com elas.
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Austen pode não ter o mesmo fascínio misterioso dos escritores góticos da era vitoriana (1837-1901). Mas ela aborda alguns temas mais fortes.
Ela examina a infidelidade e o jogo no romance Mansfield Park, por exemplo, sem falar em diversas referências à escravidão nas suas obras — embora haja muitas controvérsias sobre quais seriam suas ideias sobre o tema.
É claro que os momentos românticos de contos de fada de Austen são importantes, como a ardente carta de amor do capitão Wentworth para Anne em Persuasão.
Mas elevar o romance de uma subtrama para o roteiro principal pode fazer com que as adaptações ignorem a crítica de classes de Austen e sua ilustração da sombria realidade das mulheres na era da Regência Britânica (o período entre o final do reinado de George 3º e a ascensão da rainha Vitória, de 1795-1837).
Exceto por Emma Woodhouse, protagonista do romance Emma, a maior parte das heroínas de Austen enfrenta precariedade financeira.
"Austen conhecia seu mercado", afirma a professora de inglês Sandie Byrne, da Universidade de Oxford. "E ela precisava ter a menina conquistando o garoto e o 'viveram felizes para sempre' para vender seus livros."
"Mas ela não faz do grande beijo, do pedido ou do casamento o clímax dos seus livros. E não há a descrição da igreja e do alvoroço."
Além disso, a necessidade de segurança das mulheres não terminaria após o casamento. Sua segurança sempre dependeria do caráter do seu marido e de como eles administrariam suas finanças.
"As adaptações costumam mostrar um brilho cor-de-rosa, com tudo amarrado e terminado", explica Byrne.

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2. Elas erram nas roupas, no penteado — e nos dentes
"Onde estão os gorros?!", questionaram os fãs de Austen quando saiu o trailer do novo Razão e Sensibilidade de Oakley.
As cenas mostravam Elinor, com 19 anos de idade (interpretada pela atriz Daisy Edgar-Jones), brincando com Marianne Dashwood, de 17 (Esmé Creed-Miles), ambas com longos cabelos soltos.
A propósito, gorros com aparência frívola aparecem ao longo do filme, ainda que raramente.
Na era da Regência Britânica, apenas meninas muito jovens usavam cabelos soltos. As garotas mais velhas usavam rigorosamente gorros, segundo Byrne.
"É um sinal de quem cresceu: prender o cabelo para cima e abaixar as bainhas."
As escolhas de moda nas adaptações de Austen são sempre um ponto de discórdia, das roupas até a maquiagem e os cabelos.
O filme Persuasão da Netflix (2022) apresentou Anne Elliot (Dakota Johnson) usando batom rosado e máscara.
A representação gerou uma série de tutoriais de maquiagem na internet e acusações de que Johnson teria "rosto de iPhone", uma gíria usada para descrever atores em dramas históricos com aparência de quem acompanha a tecnologia moderna.
"O que me irrita são os cabelos, os dentes e os corpos moldados em academias do século 21", afirma a professora de estudos literários Juliette Wells, do Goucher College, nos Estados Unidos.
"Eu certamente levo em consideração a ortodontia, a aparência e como são bonitos os dentes da maioria dos atores jovens", destaca ela. Mas "muito poucos personagens de Austen são descritos como tendo bons dentes. Provavelmente, não era o caso da maioria deles."
Independentemente do grau de precisão das roupas, se um ator atender aos padrões de beleza do século 21, ele não irá coincidir com os retratos historicamente precisos daquele período, segundo Wells. "Isso nos coloca a uma distância de Austen."
Muitas vezes, os filmes também tentam ser autênticos, vestindo as pessoas com as roupas da época da publicação do livro, segundo Byrne. Mas a maioria das pessoas fazia as roupas durarem muito tempo.
"Se você fosse muito rico, você mudava muito suas roupas... [mas] a maioria das pessoas do escalão descrito por Jane Austen não tinha tantas roupas. E elas as faziam durar. Elas não eram escravas da moda."

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3. Elas não reproduzem a linguagem e o ritmo de Jane Austen
Austen é conhecida pelos seus diálogos espirituosos e pela narração reluzente e onisciente.
"E é por isso que nós lemos Austen, certo?", questiona Byrne. "Nós lemos pela ironia, pelo humor, pela sátira e porque é sutilmente subversiva."
Mas capturar aquela sofisticação verbal na tela é um desafio. E Austen não é uma romancista muito visual, segundo Byrne.
"Este é o estranho sobre ela. Ela não incentiva você a ver as coisas, mas sim a ouvir."
As adaptações costumam adotar uma abordagem que segue mais de perto o estilo romântico visual de Charlotte Brontë (1816-1855), segundo Sutherland.
A versão de Razão e Sensibilidade de Oakley reforça muito esta questão. Ela é visualmente deslumbrante e a cinematografia naturalista do interior da Inglaterra oferece um tom romântico às filmagens.
"Mas Austen é mais parcimoniosa... ela oferece muito mais através dos diálogos", explica Sutherland.
"O cinema silencia cada vez mais as conversas... Ele chega a abafar os diálogos e não conseguimos ouvir corretamente. O falado vem sendo subestimado e houve a ascensão do visual."
Wells sente falta da linguagem, acima de tudo.
Para ela, um dos grandes prazeres que encontramos ao sair da adaptação para o romance original é como Austen é meticulosa com a escolha das suas palavras.
"E nenhuma adaptação conseguirá transmitir este prazer", afirma Wells. Em algumas adaptações, as frases mais famosas de Austen são "repletas do que pode parecer, aos meus ouvidos, formas ridículas do século 21 de expressar o pensamento de personagens".
E o ritmo de Austen também é muito lento. Ela leva o tempo que achar necessário com as cenas, diálogos e o desenvolvimento dos personagens, segundo Wells.
"Austen oferece a oportunidade de observar a resistência de um personagem às suas próprias mudanças", explica ela. Mas isso não atende necessariamente às exigências da tela grande.

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4. Seu elenco é glamouroso demais
Nas adaptações de Jane Austen, alguns atores eram velhos demais para seus personagens. Foi o caso de Alan Rickman (1946-2016), que interpretou o coronel Brandon de Razão e Sensibilidade. O personagem tinha 35 anos e o ator, 49.
Além disso, atores bonitos demais acabam revelando o enredo do filme.
Austen raramente descreve a aparência dos seus personagens. Ela revela sua atração através das suas ações. Por isso, escalar atores incrivelmente bonitos, segundo Sutherland, "meio que encurta o roteiro".
"Você sabe imediatamente, apenas olhando para eles, que estes são os heróis", explica ela. "Por isso, existe a sensação de que uma parte do drama é perdida, principalmente com a glamourização do herói."
O personagem Edward Ferrars (Hugh Grant), no filme Razão e Sensibilidade do cineasta Ang Lee (1995), é um exemplo típico.
Em uma cena inventada para o filme, ele brinca de esgrima com a jovem Margaret Dashwood. Com isso, ele é automaticamente apresentado como o herói elegante e solidário, segundo Sutherland.
"Mas a cena também traz o efeito de prejudicar o desenvolvimento do enredo, de certa forma", lamenta ela. "Você sabe o resultado antes do término dos primeiros quadros."
Ironicamente, Austen apresenta Ferrars dizendo especificamente que ele "não é bonito". Diga isso para Hollywood.
O novo filme Razão e Sensibilidade tem estreia nos cinemas brasileiros prevista para 29 de outubro de 2026.
Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Culture.



























