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Irã reabre Estreito de Ormuz durante cessar-fogo, mas Trump diz que bloqueio naval dos EUA seguirá até acordo de paz ser fechado
O Estreito de Ormuz foi "declarado completamente aberto" pelo "período restante do cessar-fogo", afirmou nesta sexta-feira (17/4) o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi.
"Em consonância com o cessar-fogo no Líbano, a passagem de todas as embarcações comerciais pelo Estreito de Ormuz está declarada completamente aberta pelo período restante do cessar-fogo, na rota coordenada já anunciada pela Organização de Portos e Assuntos Marítimos da República Islâmica do Irã", disse Araghchi em um comunicado divulgado pela rede social X (antigo Twitter).
"O Irã concordou em nunca mais fechar o Estreito de Ormuz. Ele não será mais usado como arma contra o mundo!", escreveu o presidente americano Donald Trump em sua rede Truth Social, após o anúncio.
Donald Trump celebrou o anúncio na rede Truth Social. "Obrigado!", postou o presidente americano, acrescentando que o estreito está "completamente aberto e pronto para negócios".
Porém, Trump também anunciou que o bloqueio naval dos Estados Unidos aos portos do Irã e ao Estreito de Ormuz seguirá em vigor até que os dois países cheguem a um acordo de paz.
"O bloqueio naval seguirá com força e efeito total no que diz respeito ao Irã, até que nossa transação com o Irã esteja 100% concluída", disse o presidente americano.
"Esse processo deverá ser muito rápido, já que a maioria dos pontos já foi negociada."
Os EUA instituíram o bloqueio no início desta semana, depois que o Irã fechou efetivamente o canal de transporte de petróleo mais movimentado do mundo por semanas, em resposta ao ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã em fevereiro.
O cessar-fogo de duas semanas entre Irã e EUA deve expirar em 22 de abril.
Trump ironizou ainda uma oferta de ajuda da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan, a aliança militar ocidental) para assegurar o tráfego em Ormuz.
"Agora que a situação no Estreito de Ormuz está resolvida, recebi um telefonema da Otan perguntando se precisaríamos de ajuda. Eu disse para eles ficarem longe, a menos que só queiram abastecer seus navios com petróleo", escreveu Trump.
"Eles foram inúteis quando precisamos deles, um tigre de papel!", disse.
Ele agradeceu à Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar pela ajuda e disse que o Irã, com a ajuda dos EUA, está removendo todas as minas marítimas do estreito.
O republicano também afirmou que os EUA trabalharão com o Líbano para lidar com a "situação do Hezbollah" de maneira apropriada e que Israel não bombardeará mais o Líbano. "Eles estão PROIBIDOS de fazer isso pelos EUA. Chega!", escreveu, acrescentando que os EUA "tornarão o Líbano grande novamente", numa recriação de seu famoso slogan "tornar a América grande novamente".
Declaração do chanceler repercute mal no Irã
A publicação do ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, nas redes sociais gerou forte reação negativa da imprensa iraniana, relata Ghoncheh Habibiazad, repórter sênior do serviço persa da BBC.
A TV estatal iraniana deu mais ênfase às "rotas coordenadas" e ignorou em grande medida a parte da mensagem de Araghchi que afirma que a passagem de todas as embarcações comerciais pelo estreito estará "totalmente aberta" durante o restante do cessar-fogo.
A agência de notícias Tasnim, afiliada à Guarda Revolucionária Islâmica, classificou a publicação como "ruim e incompleta", afirmando que tal passagem seria considerada "inválida" caso o bloqueio naval dos EUA continue.
"O próprio Ministério das Relações Exteriores deveria reconsiderar esse tipo de comunicação", declarou a Tasnim.
A Rede de Notícias Estudantis (SNN), ligada à Organização Estudantil Basij, grupo paramilitar da Guarda Revolucionária Islâmica, pediu um "esclarecimento" por parte das autoridades iranianas para que a "interpretação" da "vitória" de Donald Trump em relação a esse assunto seja "contestada e desmantelada".
A agência de notícias Fars – também afiliada à IRGC – pediu que as autoridades "esclareçam" o assunto, afirmando que "declarações curtas e concisas" sobre o assunto não são adequadas para persuadir a "opinião pública interna" dos iranianos.
Os iranianos "apelam às autoridades para que não permitam que a narrativa do inimigo e a mídia hostil preencham o vácuo narrativo", afirmou a Fars.
Petróleo vai a menos de US$ 90
Após o anúncio, o preço do barril de petróleo do tipo Brent, referência para o mercado internacional, caiu mais de 10%, para menos de US$ 90, tendo chegado a ultrapassar os US$ 98 no início do dia.
Antes do conflito, o petróleo Brent era negociado a pouco menos de US$ 70 o barril. Chegou a ultrapassar os US$ 100 no início de março e atingiu o pico de mais de US$ 119 no final daquele mês.
No fechamento do mercado europeu, o índice pan-europeu Stoxx 600 teve alta de 1,56%. O FTSE 100, da Bolsa de Londres, avançou 0,73%, e o DAX, de Frankfurt, subiu 2,27%. O CAC 40, de Paris, teve ganho de 1,97%, segundo informações do jornal Valor Econômico.
Nos EUA, por volta de 13h25, o índice Dow Jones subia 2,21%, o S&P 500 avançava 1,39%; e o Nasdaq tinha alta de 1,65%.
No Brasil, perto das 13h30, o dólar à vista caía 0,22%, cotado a R$ 4,98, depois de ter batido mais cedo na mínima de R$ 4,95, menor patamar registrado durante o dia desde março de 2024.
Na bolsa de valores, o Ibovespa caía 0,30%, pressionado pela forte queda das ações da Petrobras, em meio à fraqueza dos preços do petróleo.
Como isso afeta o Brasil
O Brasil pode se beneficiar desse novo cenário, já que a baixa do petróleo Brent deve atingir o mercado nacional, que contava, até então, com ajuda apenas de um pacote do governo federal para segurar o encarecimento dos combustíveis no país e o impacto da alta do querosene no preço das passagens aéreas.
O diesel preocupa o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por ser o principal combustível que alimenta o transporte de mercadorias e da safra agrícola do Brasil.
O Palácio do Planalto já havia anunciado, em 12 de março, um pacote de R$ 30 bilhões para mitigar o encarecimento do combustível.
Em 6 de abril, novas medidas foram anunciadas, incluindo a ampliação da subvenção ao diesel, a criação de um subsídio para a importação de gás de cozinha e a isenção de impostos (PIS e Cofins) sobre o biodiesel e o querosene de aviação.
Considerando os dois pacotes, o subsídio total ficou em R$ 1,52 por litro de diesel importado e R$ 1,12 para o produto nacional. Com as medidas, o governo visou conter uma aceleração da inflação em pleno ano eleitoral.
'Volta à normalidade pode demorar'
À primeira vista, a reabertura do Estreito de Ormuz pelo Irã é uma boa notícia, mas a realidade pode ser mais complexa, avalia Jonathan Josephs, repórter de negócios da BBC.
As principais companhias de navegação têm enfatizado repetidamente que a segurança de suas tripulações e embarcações é sua principal prioridade.
"É provável que elas queiram ver uma cessação sustentada das hostilidades antes de se sentirem seguras para retornar àquela que era uma rota importante para o transporte marítimo global", observa Josephs.
Apesar da morte de 10 marinheiros, as companhias de navegação menores têm se mostrado mais dispostas a assumir esses riscos.
"A comparação mais próxima é a situação em que os navios evitaram a rota pelo Mar Vermelho e Canal de Suez após os rebeldes houthis começarem a atacar embarcações em dezembro de 2023", lembra o jornalista.
Levou mais de dois anos para que um retorno limitado começasse, o que só aconteceu após meses sem ataques.
No entanto, existem duas diferenças fundamentais quando se trata do Estreito de Ormuz, afirma Josephs.
Primeiro, não há rota alternativa e, segundo, o transporte de grandes quantidades de petróleo e gás é vital para a economia global, o que significa que há maiores incentivos para o retorno.
O que é o Estreito de Ormuz e por que é importante?
O Estreito de Ormuz é uma rota marítima crucial por onde passam cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) do mundo.
A geografia do estreito permitiu que o Irã o utilizasse como moeda de troca durante toda a guerra, impedindo seletivamente a passagem de navios pela estreita passagem e, consequentemente, elevando os preços do petróleo.
Limitado ao norte pelo Irã e ao sul por Omã e pelos Emirados Árabes Unidos, o corredor – com apenas cerca de 50 km de largura na entrada e na saída, e cerca de 33 km em seu ponto mais estreito – conecta o Golfo Pérsico ao Mar Arábico.
O estreito é profundo o suficiente para permitir a passagem dos maiores petroleiros do mundo e é utilizado pelos principais produtores de petróleo e GNL do Oriente Médio, bem como por seus clientes.
Em 2025, cerca de 20 milhões de barris de petróleo e derivados passaram pela passagem por dia, segundo estimativas da Administração de Informação Energética dos EUA (EIA). Isso representa quase US$ 600 bilhões (R$ 2,98 trilhões) em comércio de energia por ano.
O petróleo não vem apenas do Irã, mas também de outros países do Golfo, como Iraque, Kuwait, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.