As articulações da PF para prender Ramagem nos EUA

Crédito, Valter Campanato/Agência Brasil
- Author, Leandro Prazeres
- Role, Da BBC News Brasil em Brasília
- Tempo de leitura: 4 min
A prisão do ex-deputado federal e ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Alexandre Ramagem, nesta segunda-feira (13/4), aconteceu após meses de articulação entre a Polícia Federal e autoridades migratórias americanas, segundo uma fonte com conhecimento das tratativas disse à BBC News Brasil.
A estratégia, segundo essa fonte, foi aproveitar o suposto status irregular de Ramagem nos Estados Unidos para que ele fosse preso e enviado ao Brasil para cumprir sua pena por crimes relacionados aos atos de 8 de janeiro de 2023.
Ele foi condenado a 16 anos de prisão no caso que apurou uma tentativa de golpe de Estado após a derrota do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 2022.
Ramagem foi condenado pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado de Direito e golpe de Estado. Ele também foi demitido da Polícia Federal, onde era delegado. Ao longo do processo, sua defesa alegou sua inocência.
Esse "atalho" para ter Ramagem de volta ao Brasil, segundo essa fonte, foi uma forma de contornar a demora na avaliação do pedido de extradição já feito pelo Brasil contra Ramagem e sua possível rejeição.
Em dezembro de 2025, já após o fim da etapa de recursos sobre sua condenação, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, emitiu uma ordem de extradição contra Ramagem.
As autoridades brasileiras encaminharam o pedido de extradição aos Estados Unidos, mas ainda não haviam tido resposta sobre se o país aceitaria a solicitação do STF ou não.
O temor entre investigadores e autoridades brasileiras é de que o pedido de extradição de Ramagem tivesse o mesmo destino que pedidos feitos anteriormente contra os blogueiros Alan dos Santos e Oswaldo Eustáquio.
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No primeiro caso, o pedido de extradição foi feito em 2021 e nunca foi cumprido pelos americanos.
Nos bastidores, o argumento dado pelos EUA para não cumprirem a determinação da Justiça brasileira era o fato de que os crimes pelos quais Santos é investigado no Brasil não seriam crimes nos Estados Unidos.
No caso de Eustáquio, a Justiça da Espanha negou, em 2025, o pedido brasileiro sob argumento semelhante.
O temor dos investigadores brasileiros se dá porque, nos Estados Unidos, a decisão final sobre a extradição de alguém é do Secretário de Estado, cargo atualmente exercido por Marco Rubio.
Rubio, por sua vez, tem proximidade com integrantes da família Bolsonaro e já criticou abertamente decisões de Alexandre de Moraes e o julgamento do ex-presidente Bolsonaro pelos atos de 8 de janeiro.
De acordo com essa fonte, Ramagem vinha sendo monitorado por autoridades brasileiras desde que fugiu para os Estados Unidos. Segundo os investigadores da Polícia Federal, Ramagem e sua família teriam deixado o Brasil pela divisa do país com a Guiana, no Estado de Roraima.
De lá, eles seguiram para os Estados Unidos.
Diante de um possível impasse, um agente de ligação da PF situado na Flórida repassou informações sobre o paradeiro de Ramagem e sua situação criminal no Brasil para o ICE.
A agência ficou conhecida por intensificar suas blitzes em diversas cidades americanas em busca de imigrantes em situação irregular após o início do segundo mandato de Donald Trump.
Segundo a fonte ouvida pela BBC News Brasil, as informações sobre Ramagem foram repassadas há alguns meses, mas só agora a agência teria atuado para prender o ex-deputado federal.
Em nota oficial divulgada nesta segunda-feira, a PF não menciona Ramagem, mas cita que a prisão de um "condenado" pelos atos de 8 de janeiro teria ocorrido em Orlando após cooperação internacional.
"A prisão decorreu de cooperação policial internacional entre a Polícia Federal e as autoridades policiais dos EUA. O preso é considerado foragido da Justiça brasileira após condenação pelos crimes de organização criminosa armada, de golpe de Estado e de tentativa de abolição violenta do Estado de Direito", disse a nota.
Aliado contesta versão da PF
Por outro lado, o jornalista e empresário Paulo Figueiredo usou suas redes sociais para contestar a versão de que a prisão de Ramagem nos Estados Unidos teria sido resultado de cooperação entre autoridades brasileiras e americanas.
Em uma publicação em seu perfil no X (antigo Twitter), Paulo Figueiredo diz que a prisão de Ramagem se deu por uma infração de trânsito e que seu status migratório nos EUA seria legal, uma vez que Ramagem teria ingressado com um pedido de asilo no país.
"Para deixar absolutamente claro: O governo brasileiro não teve qualquer participação nesse episódio. Trata-se de um procedimento padrão da imigração americana. Isso não tem absolutamente nada a ver com o pedido de extradição do Brasil, que segue em análise no Departamento de Estado", disse Figueiredo.
A BBC News Brasil enviou questionamentos para o ICE e para o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, mas não obteve resposta.
A BBC News Brasil também enviou questionamentos ao advogado de Ramagem no Brasil, Paulo Cintra Pinto, mas ele também não enviou resposta.
Segundo a BBC News Brasil apurou, ainda não está claro quando ou se Ramagem será enviado ao Brasil. Os próximos passos após sua detenção serão passar por uma audiência junto a um juiz especializado em questões migratórias.
Caso já haja um pedido de asilo político, como mencionado por Figueiredo, seus advogados poderão alegar que Ramagem é perseguido politicamente no Brasil e pedir que ele aguarde o trâmite do seu pedido de asilo nos Estados Unidos.
Caso esse pedido seja rejeitado, porém, ele poderá entrar na fila das deportações realizadas pelos Estados Unidos ao Brasil em voos fretados.
























