O que leva pessoas comuns obedecerem ordens imorais — e como resistir

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- Author, Sophie Hardach
- Role, BBC Future
- Published
- Tempo de leitura: 11 min
Em junho de 1961, um anúncio publicado no jornal The New Haven Register, do Estado americano de Connecticut, recrutava pessoas para um experimento aparentemente inocente na Universidade Yale, nos Estados Unidos:
"Pagaremos a você US$ 4,00 [cerca de R$ 20] por uma hora do seu tempo. Precisamos de pessoas para um estudo de memória."
O anúncio procurava operários, barbeiros, homens de negócios e uma vasta série de outros profissionais. Não era necessário ter formação, nem experiência específica.
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Os interessados deveriam enviar suas informações pelo correio para o professor Stanley Milgram (1933-1984), do Departamento de Psicologia da Universidade.
Quarenta homens acabaram participando do teste inicial do experimento.
Eles entraram em um laboratório e, em uma aparente tarefa de aprendizado de palavras, pediu-se que eles dessem choques elétricos em um estranho, até um nível potencialmente letal.
A maioria dos homens (26 de um total de 40, ou 65%) acabou fornecendo o choque letal máximo.
Em estudos complementares com outros voluntários, a maioria atingiu o choque máximo mesmo quando a vítima era apresentada como portadora de condições cardíacas, ou quando era possível ouvi-la implorando para ser libertada.
Os homens não faziam ideia de que os choques, na verdade, eram simulados e que todo o estudo era manipulado.
O experimento não tinha nada a ver com memória. Na verdade, era um estudo sobre obediência e crueldade, que se tornaria um dos exemplos mais famosos de pessoas comuns realizando ações brutais impensáveis, ao cumprir ordens em um ambiente de laboratório.
Desde então, pesquisadores utilizaram versões modificadas e mais suaves do experimento de Milgram para estudar um dos aspectos mais perturbadores da natureza humana: como, por que e quando obedecemos a uma ordem imoral.
Suas descobertas, aliadas a detalhes dos experimentos originais de Milgram, não só trouxeram esclarecimentos sobre alguns dos piores impulsos da humanidade, como também fornecem informações surpreendentes sobre o que pode nos ajudar a não obedecer essas ordens.
'Ficamos simplesmente sobressaltados'
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É difícil imaginar uma pessoa comum infligindo danos extremos a outro ser humano.
A maioria das pessoas tem certeza de que não o faria e que resistiria a um experimento similar ao de Milgram. Os próprios psicólogos que pesquisam este comportamento ainda podem se surpreender quando isso acontece diante dos seus olhos.
"Era meio que inacreditável observar aquelas pessoas, que pareciam indivíduos felizes e perfeitamente normais, pressionando aquelas alavancas sem questionar", afirma o professor emérito de psicologia social Jerry Burger, da Universidade de Santa Clara, na Califórnia (Estados Unidos).
Em 2009, Burger conduziu uma versão modificada do estudo de Milgram, interrompendo o voluntário em um choque [falso] mais fraco.
Ele esperava que seus resultados fossem aproximadamente os mesmos obtidos por Milgram. Mas, observando os participantes em um monitor, ele e sua equipe ainda ficaram surpresos.
"No princípio, ficamos simplesmente sobressaltados: 'Não consigo acreditar que esta pessoa está fazendo isso!'", ele conta.
No estudo de Burger, 70% dos participantes obedeceram até o final do experimento. E, ao contrário de Milgram, Burger examinou homens e mulheres e não encontrou diferenças significativas.
"Gostamos de pensar em nós como pessoas morais e independentes, que resistiriam a uma ordem que estivesse em conflito com os nossos valores", afirma o professor de psicologia social Tomasz Grzyb, da Universidade SWPS, na Polônia. Ele conduziu uma réplica parcial do estudo em 2015.
"Mas as evidências indicam que devemos ter muito menos certeza disso. Sob pressão suficiente, na situação social adequada, as pessoas podem acabar fazendo coisas que, na verdade, não desejam."
O estudo de réplica de Grzyb também envolveu níveis máximos de choque mais fracos que o estudo de Milgram. Nele, 90% dos participantes obedeceram até o final e não houve diferenças significativas entre homens e mulheres.

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Depois do experimento, um psicólogo conversou com os voluntários sobre sua experiência, para garantir que todos estavam bem.
Uma jovem "começou a chorar intensamente", segundo Grzyb.
"Em meio às lágrimas, ela disse algo como: 'É simplesmente o tipo de pessoa que sou. Faço o que as pessoas me dizem para fazer. E, só agora, depois de participar deste experimento, percebi. É por isso que tudo na minha vida acontece desta forma.'"
Mas qual a explicação para esta obediência, mesmo quando entra em conflito com nossos valores internos?
'Desobedecer usa mais recursos do cérebro'
A professora de psicologia experimental Emilie Caspar, da Universidade de Ghent, na Bélgica, estuda como a obediência influencia a atividade cerebral humana. Nos seus estudos, os voluntários dão choques elétricos suaves reais em outro voluntário.
Caspar e sua equipe usam métodos de formação de imagens cerebrais, como ressonância magnética funcional (fMRI), para observar o que acontece no cérebro dos voluntários quando dão o choque cumprindo ordens; e, separadamente, quando dão o choque porque decidem fazê-lo livremente.
"Os choques são reais, não são falsos como em Milgram", explica ela. "Mas são calibrados com base no limite de dor da vítima. É real e doloroso, mas tolerável para a vítima."
Caspar e sua equipe concluíram que os processos cerebrais são diferentes quando alguém obedece a uma ordem, em comparação com a livre escolha.
Quando as pessoas fornecem os choques cumprindo ordens, por exemplo, as regiões associadas à empatia, culpa e senso de responsabilidade ou livre-arbítrio apresentam menos atividade, em comparação com o fornecimento dos choques por livre escolha.
Ao receberem ordens, as pessoas também consideram que os choques são menos dolorosos. Isso pode explicar por que a obediência obscurece a moralidade e permite que as pessoas causem danos a outras, segundo Caspar.
De fato, nos seus experimentos, "as pessoas são extremamente obedientes", indica a professora. Dos cerca de 800 voluntários dos estudos, de diferentes países, apenas 21 (2,6%) se recusaram a dar choques.
Ela relembra um participante que não deu nenhum choque quando tinha livre escolha, mas obedeceu todas as suas ordens.
"Ele disse: 'Quando você começou a me dar ordens, ficou simplesmente muito fácil obedecê-las.'"
"Na verdade, este é um dos principais pontos" sobre a obediência, segundo ela. Caspar se refere à sensação do voluntário de que é mais fácil obedecer do que o contrário.
Ela indica que a empatia, a culpa e o livre-arbítrio são processos cerebrais que exigem energia. Quando seguimos ordens e estas sensações são reduzidas, pode parecer menos trabalhoso do que desobedecê-las.
"O cérebro é um órgão que não gosta de gastar recursos demais quando não é necessário", explica ela. "Desobedecer usa mais recursos cerebrais do que simplesmente seguir ordens."
Podemos imaginar que traços individuais de personalidade, como a empatia, ajudariam a resistir a uma ordem maligna, mas as pesquisas dizem o contrário.
"A personalidade e o temperamento são surpreendentemente ineficazes para prever quem irá obedecer e quem irá se recusar a agir em uma situação específica", segundo Grzyb.
A empatia, de fato, pode ser uma faca de dois gumes, segundo as pesquisas. As pessoas podem sentir empatia pela pessoa que fornece ordens imorais e não querer desapontá-las.
Mas as pesquisas indicam que existe algo que pode nos ajudar a fazer escolhas morais melhores: compreender os poderosos fatores socioambientais que influenciam as nossas decisões, não só no laboratório, mas no nosso dia a dia.
'Se formos processados, quem se responsabiliza?'
Burger destaca quatro aspectos específicos do estudo de Milgram (e, especialmente, sua forma de configuração) que ajudam a explicar por que tantas pessoas obedeceram suas ordens.
A configuração de Milgram foi simples. Ao entrar no laboratório, cada voluntário foi recebido por um "pesquisador", um cientista vestindo um jaleco de laboratório. Na verdade, era um assistente desempenhando este papel.
Pediu-se ao voluntário que fizesse um sorteio (manipulado) e ele recebeu o papel de "professor", em uma tarefa de aprendizado e memória.
Ele foi instruído a testar um "estudante" (outro assistente, desempenhando este papel), que estava sentado em outra sala, aparentemente conectado a uma máquina de choques elétricos.
O professor foi então instruído a dar um choque no estudante sempre que ele fornecesse uma resposta errada, pressionando uma série de botões.
No estudo original e nas réplicas, o pesquisador assumiu total responsabilidade por tudo o que acontecesse com a vítima. Este ponto foi fundamental, segundo Burger.
"Sabemos agora, graças à pesquisa, que, se você garantir o anonimato ou disser que aquilo é responsabilidade de outra pessoa, elas podem praticar comportamentos muito ruins", explica ele.
No estudo de Burger, uma mulher se voltou para o experimentador e perguntou: "Não haverá nenhum processo, certo?".
O experimentador respondeu: "Se algo acontecer com ele, eu serei o responsável." A mulher, então, disse: "Era o que eu precisava ouvir!"
"Ela se virou e pressionou os botões", conta Burger.
De fato, outras pesquisas demonstraram que existe uma ilustração moderna deste efeito do anonimato: o comportamento online. O anonimato está relacionado à agressão cibernética, segundo estudos de 2023 e 2026.
"As pessoas dizem e fazem todo tipo de coisas horríveis [na internet]", destaca Burger.
"Se você se sentasse frente a frente com alguém e assumisse as consequências das suas palavras, seria menos provável que fizesse aquilo. O anonimato permite eliminar a responsabilidade pessoal."
O estudo de Milgram perguntou aos voluntários, após o experimento, de quem seria a responsabilidade pela pessoa ter recebido os choques.
Os que obedeceram tenderam a atribuir a responsabilidade principal ao experimentador, enquanto os que se recusaram tenderam a responder que a responsabilidade principal era deles próprios.
Milgram também estudou o que aconteceu quando a vítima estava na mesma sala do voluntário. Nesta situação, apenas 40% obedeceram a ordem até o final e, quando a mão da vítima tocava a do voluntário, apenas 30%.
Milgram sugeriu que a proximidade pode ter tornado os choques elétricos menos abstratos. Segundo Burger, é difícil dizer, ou fazer, algo cruel quando você está frente a frente com uma pessoa.
'Sou o tipo de pessoa que faz isso?'
Burger também destaca dois outros fatores.
Na configuração de Milgram, os participantes foram colocados em uma situação que a maioria de nós nunca havia enfrentado antes. E eles não tinham tempo de refletir sobre o que fazer.
Sempre que eles hesitavam, o pesquisador as provocava com frases como "você não tem outra escolha, precisa continuar".
Quando precisamos tomar uma decisão em uma situação nova, tendemos a procurar alguém próximo com mais experiência e buscar indicações no seu comportamento, explica Burger.
No estudo de Milgram, a única pessoa disponível na sala era o pesquisador, que insistia em continuar. Este fato, aliado à alta velocidade, dificultava para os voluntários tomar sua própria decisão, segundo Burger.
Ele acredita que, se o experimentador dissesse "por que você não reserva 10 minutos para pensar sobre o que fazer?", provavelmente teria havido mais desobediência.
A pausa teria oferecido aos voluntários a possibilidade de se perguntar: "Isso está certo ou errado? Sou o tipo de pessoa que faz isso?", afirma Burger.
A escalada gradual dos níveis de choque foi outro fator, destaca o professor. Se uma pessoa disser "sim" a um pedido pequeno, será mais provável que ela também concorde com solicitações maiores, segundo ele. Este fenômeno é conhecido como o efeito "pé na porta".
Burger indica que, na vida real, uma forma de combater estes efeitos pode ser planejar uma situação antecipadamente. E, em uma situação nova, tentar reservar tempo para refletir.

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Grzyb sugere que pode ser útil cultivar certos hábitos mentais, como "criar distância psicológica da figura de autoridade, reconhecer quando a responsabilidade está sendo retirada de nós, questionar se uma instrução é legítima e oferecer a nós mesmos a permissão de parar".
Mas uma lição fundamental é que "devemos construir sistemas que dificultem o abuso de autoridade", segundo Grzyb.
"Se uma pessoa receber poder ilimitado sobre outra, mais cedo ou mais tarde, haverá o sério risco de abuso desse poder."
'Sempre podemos escolher outra opção'
Existe outra fonte poderosa de coragem moral: observar outras pessoas agindo moralmente.
Emilie Caspar conduziu uma pesquisa sobre perpetradores, espectadores e socorristas durante o genocídio de 1994, contra a comunidade tutsi em Ruanda.
"Um dos principais fatores que diferenciam os socorristas dos perpetradores do genocídio é a presença de modelos inspiradores na sua primeira infância", afirma ela, com base na pesquisa da sua equipe.
"Os socorristas, por exemplo, têm maior probabilidade de terem presenciado seus pais ou outros familiares ajudando outros seres humanos."
Ela destaca que, mesmo se uma pequena minoria desobedecer uma ordem imoral ou resgatar pessoas em um genocídio real, sua decisão mostra o que pode ser feito.
"Os socorristas são um bom lembrete de que sempre podemos escolher outra opção", afirma a professora.
De fato, mesmo no estudo original de Stanley Milgram, houve pessoas que resistiram.
"Não, isto não está certo. É um experimento terrível. O cara está sofrendo aqui. Não, eu não quero continuar", disse um voluntário desobediente.
Ao ouvir que não tinha outra escolha, a não ser continuar, outro participante retrucou: "Se aqui fosse a Rússia, talvez, mas não nos Estados Unidos."
Joe Dimow foi um participante desobediente do estudo original de Milgram. Em 2016, ele escreveu um ensaio sobre a sua experiência.
Dimow afirmou que sua criação em uma família que questionava as autoridades, além do seu próprio ativismo político e conflitos com autoridades, provavelmente o ajudou a resistir às ordens do pesquisador.
"Tive uma compreensão não ortodoxa da autoridade e não estava propenso a me impressionar com um jaleco branco de laboratório", escreveu ele.

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A pesquisa de Caspar também esclarece as fases cruciais em que podemos fazer uma escolha moral, muito antes de nos encontrarmos realmente em uma situação em que a obediência parece ser a única saída.
Este ponto preenche uma importante lacuna deixada por Milgram.
O pesquisador original defendia que suas descobertas poderiam ajudar a explicar como pessoas aparentemente comuns acabaram cometendo atrocidades — e, particularmente, como tantos alemães conspiraram e assassinaram milhões de judeus durante o Holocausto.
Mas, como muitos já indicaram, a obediência cega sequer começa a explicar as complexidades dos genocídios da vida real. No Holocausto, por exemplo, a perseguição aconteceu amplamente, sem ordens diretas, e envolveu atos de absoluta crueldade e cobiça.
"O genocídio costuma ser descrito como um processo em etapas, no qual você tem a discriminação, categorização e a desumanização", em sequência crescente, explica Caspar.
"A parte da obediência fica mais na fase final, de extermínio. É como um gatilho, dizendo às pessoas: 'Pode ir em frente [com a matança], agora.'"
Se nos recusarmos a demonizar um grupo de pessoas e cultivarmos a crença na humanidade compartilhada, poderemos ajudar a combater a perseguição nesses primeiros estágios, segundo ela.
Uma citação de um dos voluntários desobedientes, incluída no estudo de Milgram, talvez defina melhor esta situação:
"Desculpe, não posso fazer isso com um homem", disse o voluntário. E parou.
Leia aqui a versão original desta reportagem (em inglês).


























