Por que Irã 'vende' acordo com EUA como uma vitória

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- Author, Amir Azimi
- Role, Editor-chefe de notícias do Serviço Persa da BBC
- Published
- Tempo de leitura: 6 min
A liderança do Irã tenta apresentar seu memorando de entendimento em negociação com os Estados Unidos não como um recuo, mas como uma conquista obtida pela resistência. Não é uma narrativa fácil de sustentar dentro do país.
O Irã acaba de passar por uma guerra devastadora, a economia nacional está sob forte pressão e parte da própria base de apoio da República Islâmica do Irã passou meses condenando qualquer aproximação com os EUA.
Há também iranianos, dentro e fora do país, que veem a crise não como uma oportunidade para a diplomacia, mas como uma chance de mudança de regime.
É nesse cenário político dividido que o Irã tenta agora "vender" internamente os méritos do acordo.
Integrantes do alto escalão iraniano apresentam o acordo como uma vitória.
Mohammad Bagher Qalibaf, presidente do Parlamento e principal representante iraniano nas negociações com os EUA, afirmou que o Irã deu "um longo passo rumo à vitória final".
O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, descreveu o acordo firmado com os EUA como potencialmente transformador e disse que, se for plenamente implementado, poderá resolver muitos dos problemas do Irã e criar "um mundo diferente" no país e no Oriente Médio.
O apoio de Qalibaf ao acordo com os EUA tem peso porque ele não pertence ao campo moderado de Pezeshkian. Sua manifestação pública em favor do acordo sugere um respaldo de setores mais influentes do regime, inclusive de integrantes da Guarda Revolucionária Islâmica.
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A liderança iraniana também procura apresentar o acordo como uma vitória porque, na avaliação de Teerã, os EUA e Israel não alcançaram seus principais objetivos.
Eles não forçaram o Irã a se render, não derrubaram a República Islâmica, não encerraram o programa nuclear iraniano por meio de ação militar e não romperam os vínculos do país com o Hezbollah (grupo que atua no Líbano).
Em vez disso, o Irã continua à mesa de negociações, com o Líbano incluído na estrutura do acordo e o alívio de sanções sob discussão.
Mas essa narrativa oficial é contestada dentro do próprio Irã.
Segundo relatos, um deputado da ala linha-dura que ocupa a vice-presidência da Comissão de Segurança Nacional do Parlamento classificou a minuta do acordo como um documento que transformaria o Irã em uma colônia dos EUA.
Ele também acusou os negociadores de desrespeitarem uma orientação do líder supremo do Irã de não reabrir o estreito de Ormuz ao tráfego marítimo comercial.
A crítica tem peso porque não vem da oposição nem de grupos externos ao regime. Ela vem de dentro de uma das instituições responsáveis por acompanhar as questões de segurança nacional.
Durante meses, vozes da ala linha-dura no Parlamento, veículos de comunicação alinhados ao governo e participantes de atos pró-regime repetiram o argumento de que os EUA não são um parceiro confiável.
Esses grupos apontam que os esforços diplomáticos ainda estavam em andamento pouco antes do início da guerra e argumentam que o governo do presidente americano, Donald Trump, usou as negociações como cobertura enquanto Israel e os EUA preparavam uma ação militar. Para eles, qualquer acordo com os EUA corre o risco de ser visto como uma política de apaziguamento (em resumo, fazer concessões para evitar conflitos).
Ainda assim, algumas dessas vozes iranianas parecem estar mais silenciosas agora. Isso pode indicar que a decisão de avançar foi autorizada pelos níveis mais altos do Estado. Isso não significa, no entanto, que haja consenso.
Pode indicar que, ao menos por enquanto, o centro do poder concluiu que o custo de rejeitar um acordo seria maior do que o custo de enfrentar a insatisfação da ala linha-dura.

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A pressão econômica é central nesse cálculo.
A liderança iraniana pode apresentar o acordo como resultado de sua capacidade de pressão militar, citando tanto as ameaças relacionadas ao estreito de Ormuz quanto os ataques contra interesses energéticos dos EUA e de seus aliados na região. Mas a economia também teve papel decisivo ao forçar o Irã a negociar.
A guerra, as sanções, as restrições à navegação marítima, o acesso reduzido aos mercados de petróleo e às reservas em moeda forte, além da inflação elevada, pressionaram tanto o país quanto a população.
Para muitas famílias, a questão não é se o acordo soa como uma vitória, mas se ele será capaz de conter a alta do custo de vida e afastar o risco de uma nova guerra.
O vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, afirmou que o Irã não receberá dinheiro dos contribuintes americanos, mas poderá ter acesso a bilhões de dólares se cumprir seus compromissos e se as sanções forem flexibilizadas. Isso permite que o Irã apresente o acordo como um caminho para investimentos e reconstrução, e não como uma forma de dependência em relação aos EUA.
Ainda assim, os riscos são evidentes. Os detalhes do memorando firmado entre os países ainda não foram totalmente divulgados, e uma nova rodada de negociações deve começar na Suíça nesta sexta-feira (19/6).
As questões mais difíceis, o futuro do urânio enriquecido iraniano, o nível de enriquecimento permitido, os mecanismos de verificação, o alívio das sanções, o estreito de Ormuz e o Líbano, continuam pendentes e deverão ser discutidas nas próximas negociações.
Também há incertezas em relação a Israel. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, rejeitou relatos de que Israel deixará o sul do Líbano (onde atua o Hezbollah) e afirmou que as forças israelenses permanecerão no território libanês pelo tempo que for necessário.
Trump, por sua vez, criticou publicamente a atuação de Israel no Líbano, afirmando que o número de mortos foi excessivo. Ele também afirmou ter ficado insatisfeito com um ataque israelense contra Beirute (capital libanesa) pouco antes da conclusão do acordo entre Irã e EUA, embora tenha insistido que sua relação com Netanyahu continua excelente.
Para o governo iraniano, as divergências expostas entre EUA e Israel são politicamente úteis. O governo iraniano pode apontá-las como sinal de que sua estratégia de pressão limitou a margem de manobra israelense. Ao mesmo tempo, elas tornam o acordo mais vulnerável.
Se Israel mantiver suas operações no Líbano, o Irã enfrentará pressão para reagir. E, se os EUA não conseguirem conter Israel, a alegação do Irã de que o Líbano está contemplado pelo acordo poderá ser colocada à prova rapidamente.
As reações do público da BBC News Persa sugerem que a narrativa oficial de vitória tem sido recebida de forma desigual.
Um desses iranianos afirmou continuar "desconfiado" e preocupado com a capacidade do governo de conduzir o país sob o novo entendimento.
Outro iraniano, contrário ao regime e que inicialmente apoiou uma intervenção militar dos EUA, questionou quais resultados concretos o ataque americano havia produzido, já que ele não resultou em mudanças políticas no Irã. "Nossa esperança era que o sistema no poder mudasse. Mas, além de miséria, inflação e mais danos à economia, que benefício isso trouxe para as pessoas?"
Outros se mostraram mais receptivos ao discurso do governo iraniano. Uma dessas pessoas afirmou que o Irã saiu vencedor e disse que a guerra demonstrou que as sanções não são suspensas por meio de "súplicas", mas pela demonstração de força.
Outra recebeu o acordo com mais cautela, dizendo que ele permitirá que as pessoas retomem o trabalho e a vida cotidiana com maior tranquilidade. "Acho que é temporário", afirmou. "Mas precisávamos de alguns meses de respiro e calma."
Talvez essa seja a interpretação mais realista. A República Islâmica do Irã vende o acordo como uma vitória porque não consegue apresentá-lo facilmente como uma necessidade.
Mas, para muitos iranianos, o sucesso do entendimento não será medido por slogans. Será medido pelo fim da guerra, pela redução do custo de vida, pela efetiva flexibilização das sanções e a capacidade da liderança de atravessar a próxima fase sem uma nova escalada do conflito.



























